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Vida em Marte é fake news: não há confirmação de que há fungos no planeta

Reprodução
Imagem: Reprodução

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

11/05/2021 09h01

O planeta Marte está bombando, com o trabalho do rover Perseverance e do helicóptero Ingenuity, da Nasa. Recentemente, tabloides aproveitaram o momento para retomar hipóteses infundadas de vida no planeta vermelho.

Há anos, pesquisas - baseadas apenas em fotos - insinuam haver fungos vivendo e se reproduzindo na superfície de nossos vizinhos Marte e Vênus. De tempos em tempos, essas fake news reaparecem, rendendo boas manchetes.

Se você leu algo assim por aí, não acredite: cientistas não acharam vida nesses planetas, nem sequer evidências. O que rola, simplesmente, são teorias sem base científica, usando fotos tiradas pelos antigos rovers Curiosity e Opportunity e pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO).

Os autores dessas pesquisas compararam alguns objetos, texturas e cores da superfície de Marte a fungos abundantes aqui na Terra. Para começar, qualquer forma de vida eventualmente encontrada em um ambiente tão hostil, com alta radiação e temperaturas que chegam a -90°C, seria diferente das que temos aqui.

Os pequenos objetos redondos, que lembram cogumelos e parecem se movimentar ou multiplicar, são apenas rochas esféricas moldadas pelo vento. Possivelmente hematitas, são enterradas e desenterradas na poeira marciana. Foram apelidadas de "blueberries".

Blueberries de Marte - NASA/JPL-Caltech/Cornell/USGS - NASA/JPL-Caltech/Cornell/USGS
'Blueberries' de Marte
Imagem: NASA/JPL-Caltech/Cornell/USGS

No centro das teorias está um homem chamado Rhawn Gabriel Joseph, um neurocientista que fez contribuições importantes para o campo da neuroplasticidade na década de 1970. Agora, por mais de uma década, tem divulgado em seu site e em revistas pseudocientíficas afirmações sobre vida em outros planetas. Nenhuma de suas hipóteses foi publicada em periódicos sérios ou confirmada por especialistas em astrobiologia.

Em 2019, ele conseguiu que um de seus artigos fosse publicado no jornal Astrophysics & Space Science - que meses depois se retratou e o retirou do ar, porque oferecia "avaliação crítica insuficiente do material apresentado e da literatura citada, e não fornece uma base sólida para as afirmações especulativas feitas no artigo, que invalidam as conclusões tiradas".

Um novo trabalho, chamado "Fungos em Marte? Evidência de crescimento e comportamento em imagens sequenciais", usa os mesmos velhos argumentos, com metodologia imprecisa e questionável, para chegar à conclusão de vida no planeta.

Basicamente, ele pegou imagens da Nasa e desenhou círculos e setas vermelhas para indicar o que ele acredita ser atividade de organismos.

Pesquisa de Rhawn Gabriel Joseph sobre possíveis fungos em Marte - Reprodução - Reprodução
Pesquisa de Rhawn Gabriel Joseph sobre possíveis fungos em Marte
Imagem: Reprodução

Alegar que há cogumelos crescendo em Marte é uma afirmação muito séria, que requer estudos mais avançados do que simplesmente olhar fotos e compará-las com a morfologia da vida existente na Terra.

Os autores dizem que "seria surpreendente" se não houvesse vida em Marte. Mas isso não é verdade. Temos montanhas de dados mostrando que as condições do planeta não são compatíveis com a vida como conhecemos. Alguns organismos terrestres poderiam sobreviver a estas adversidades? Tardígrados, quem sabe? Talvez, mas não há nenhuma prova disso. A comunidade internacional concorda que mesmo nossos fungos não conseguiriam povoar o vizinho.

Levar desinformação para o público leva descrédito a todos os pesquisadores e instituições que fazem ciência séria no mundo. O moderno rover Perseverance está em Marte justamente para buscar qualquer sinal de vida alienígena e de água. Por enquanto, nada foi encontrado. E, quando for, será publicado em uma revista reconhecida e amplamente divulgado pelas agências espaciais.

O rover Perserverance está operando na cratera Jezero, de 40km de diâmetro e 500m de profundidade, que há bilhões de anos foi um lago. Se já existiu vida no planeta, mesmo que apenas atividade microbiana, este é o local com mais chances de guardar evidências - e o robô-jipinho é equipado para detectá-las diretamente, além de coletar amostras que serão enviadas à Terra.

A China também vai pousar seu próprio rover no planeta, até o mês que vem. O Zhurong vai explorar a região chamada Utopia Planitia, a maior cratera de impacto do Sistema Solar, com diâmetro aproximado de 3300km, causada por algum enorme asteroide. Ele vai procurar sinais de gelo e de um suposto lago subterrâneo, além de possíveis indicadores de atividade biológica.

Basta aguardar - e até assistir - ciência de verdade sendo feita.