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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sai cookie, entra FLoC: conheça novidade do Google para te rastrear na web

Getty Images
Imagem: Getty Images

Fernando Barros

Colaboração para Tilt

03/05/2021 04h00

Sem tempo, irmão

  • O Google Chrome vai deixar de usar rastreadores individuais (ou cookies)
  • Cookies são arquivos que identificam e recolhem informações sobre você
  • A empresa testa a FLoC, tecnologia que rastreia grupos em vez de indivíduos
  • Especialistas dizem que um só vai substituir o outro, sem gerar mudanças

O Google anunciou que vai deixar de usar, a partir do ano que vem, os cookies, identificadores online para rastrear o que cada pessoa acessa no navegador Chrome. A empresa espera encontrar um substituto para o recurso, por isso tem apostado na FLoC (Aprendizagem Federada de Grupos, na sigla em inglês). Entretanto, críticos têm ressalvas ao novo modelo e afirmam que ele pouco fará a favor da privacidade do público.

Apesar de serem úteis para o desenvolvimento dos sites que você costuma acessar, os cookies têm sido vistos como vilões por coletarem tantas informações pessoais. Eles são pequenos arquivos gerados pelos sites de internet que você acessa, e gravados em seu computador, para identificar e recolher informações sobre você.

Por meio deles, podem ser registrados alguns dados de comportamento —como quanto tempo passou no site, quantas vezes entrou no mesmo dia e de que país está acessando— e até informações pessoais, como nome completo, endereço e telefone, caso tenha feito algum cadastro no site que tenha pedido esses dados.

É comum que os sites e serviços web convertam esses dados em anúncios personalizados. Sabe quando você pesquisa por um tênis para corrida e começa a ver anúncios de tênis e acessórios esportivos nos dias seguintes? Os cookies são os responsáveis por isso, dando a sensação de que estamos sendo vigiados na internet.

Em 2020, o Google já tinha sinalizado que seu navegador não ofereceria mais suporte a cookies de terceiros, tal como já fazem o Firefox (Mozilla) e o Safari (Apple). Com o anúncio deste ano, a empresa se compromete a não criar identificadores alternativos para mapear a navegação de cada pessoa.

"Manter a internet aberta e acessível para todos exige que façamos mais para proteger a privacidade —e isso significa o fim não apenas dos cookies de terceiros, mas também de qualquer tecnologia usada para rastrear pessoas individuais enquanto elas navegam na web", diz o diretor de gerenciamento de produtos do Google, David Temkin, em um post da empresa.

A decisão é apontada como uma resposta a reclamações das pessoas sobre invasão de privacidade e também às crescentes pressões dos órgãos reguladores sobre o tema.

O que é FLoC e o que ele faz de diferente dos cookies?

Com a morte dos cookies decretada, o Google está testando alternativas ao recurso. A mais cotada para a substituição é a FLoC, que é também um tipo de rastreador, mas se diferencia por não identificar pessoalmente quem está navegando na internet.

Em vez de rastrear o comportamento das pessoas de forma individual para, então, ativar a oferta de anúncios, a FLoC analisa o comportamento das pessoas na web e as classificaria anonimamente em grupos compostos por outras pessoas de interesses parecidos.

Por exemplo, ao buscar por um tipo de computador na internet, você seria agrupado junto a outras pessoas que fizeram pesquisa parecida, sem informações do modelo específico que está buscando ou dados mais detalhados sobre quem é você.

Desse modo, as empresas poderão direcionar anúncios para esses grupos, atingindo usuários com hábitos semelhantes, mas sem identificar cada um pessoalmente.

A alternativa do Google, no entanto, tem gerado a oposição de outras empresas de tecnologia e entidades a favor da privacidade na web.

O que dizem os que criticam o FLoC?

A EFF (Electronic Frontier Foundation), uma organização sem fins lucrativos que defende causas ligadas à privacidade e tecnologia nos Estados Unidos, publicou em seu blog um artigo assinado pelo engenheiro e pesquisador da entidade Bennett Cyphers com críticas à nova possibilidade.

De acordo com o artigo, apesar de o Google afirmar que a FLoC trará maior privacidade, na prática deverá ser apenas a substituição de um modo de rastreamento por outro, oferecendo novos riscos.

Isso porque as empresas poderão fazer o que Cyphers chamou de exposição de contexto cruzado. Ou seja, ainda que a FLoC trabalhe com grupos de pessoas, a partir dele dados de comportamentos, históricos de navegação, demográficos ou de interesse podem ser revelados. Bastará às empresas oferecer serviços de login com o Google para vincular as informações obtidas pela FLoC ao perfil de quem está acessando.

Para Cyphers, o Google deveria se preocupar em fazer com que o seu navegador funcione menos para os anunciantes e mais para as pessoas, ao garantir a possibilidade de navegação sem rastreamento.

Se você quer saber se o seu Chrome está servindo de cobaia para o desenvolvimento do FLoC, basta acessar o site "Am I FLoCed", desenvolvido pela EFF.

Concorrentes do Google, como a Microsoft, Brave, DuckDuckGo e Vivaldi, também se posicionaram contra o FLoC e já removeram o recurso de seus navegadores ou desenvolveram ferramentas para bloqueá-lo. Eles afirmam que o novo rastreador é uma tentativa do Google de manter seu controle no mercado de anúncios.

Uma das principais plataformas de publicação de conteúdo hoje, respondendo por 41% da web, o WordPress também pretende bloquear automaticamente a tecnologia em versões futuras do seu software. Isso significa que, por padrão, o recurso será desabilitado, podendo ser ativado caso seja de interesse dos próprios administradores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL