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Pandemia reduziu poluição, mas isso não nos salvará do aquecimento global

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Imagem: GETTY IMAGES

Rodrigo Lara e Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

23/12/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Lockdowns reduziram 20% das emissões de dióxido de nitrogênio
  • Previsões indicam que emissões globais de combustíveis devem cair até 8% em 2020
  • Porém, estudos mostram que isso não desacelerou o aquecimento global
  • Isso vai economizar apenas 0,01º C no aquecimento previsto para até 2030
  • Para seguir o Acordo de Paris, a recuperação das economias tem que ser sustentável

Quando a pandemia do novo coronavírus começou, o mundo viu uma diminuição nos níveis de poluição em diversas capitais do mundo. Com a redução brusca da atividade humana, os canais de Veneza ficaram cristalinos e até macacos foram flagrados brigando por comida pelas ruas turísticas da Tailândia. A poluição das cidades diminuiu tanto que, sem os restos de comida dos humanos, os ratos começaram a virar canibais.

Logo os cientistas começaram a se questionar sobre os impactos dos lockdowns nas emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e as mudanças climáticas resultantes dele — que já estamos vivendo. Um levantamento feito pela Nasa mostrou que, no geral, os isolamentos sociais geraram uma redução global de 20% nas emissões de dióxido de nitrogênio desde fevereiro.

"Muitos países já fizeram um trabalho muito bom na redução de suas concentrações de dióxido de nitrogênio nas últimas décadas devido às regulamentações de ar limpo, mas o que nossos resultados mostram claramente é que ainda há uma contribuição significativa impulsionada pelo comportamento humano", afirmou Christoph Keller, pesquisador da Nasa e líder da pesquisa.

Os pesquisadores descobriram que a maioria das cidades relatou uma queda entre 20% e 50% nas emissões de dióxido de nitrogênio em comparação com o modelo de antes da pandemia — com Milão, Itália, relatando uma redução surpreendente de 60%.

Trazendo o tema para o Brasil, só na primeira semana de quarentena, iniciada no dia 24 de março, a cidade de São Paulo viu uma redução de 50% nos índices de poluição atmosférica.

As reduções são claras, mas será que a humanidade pode tirar, de fato, ao positivo dessa pandemia?

Níveis de dióxido de nitrogênio permaneceram muito mais baixos em Wuha - Divulgação/Observatório da Terra da Nasa - Divulgação/Observatório da Terra da Nasa
Os níveis de dióxido de nitrogênio permaneceram muito mais baixos em Wuhan (berço da pandemia), na China
Imagem: Divulgação/Observatório da Terra da Nasa

Vai ser preciso muito mais para nos salvar

Infelizmente, estudos mostram que a diminuição temporária da emissão dos gases de efeito estufa ocasionada pelos lockdowns não desacelerou em nada o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Um artigo publicado em agosto desse ano na revista Nature Climate Change revelou que, apesar das previsões de que as emissões globais da queima de carvão, petróleo e gás vão cair até 8% até o fim deste ano e assumindo que as restrições de viagem e o distanciamento social continuarão até o final de 2021, o impacto no aquecimento global previsto para até 2030 seria de uma economia de apenas 0,01º C.

Com o Acordo de Paris, firmado em 2015, várias nações se comprometeram a limitar o aumento de temperatura global para um limite de 1,5ºC, em comparação aos níveis pré-industriais, cortando radicalmente as emissões de gases de efeito estufa.

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), para cumprir essa meta, as emissões globais devem cair 7,6% ao ano nesta década — quase a queda de emissões prevista para esse ano (8%).

Mas se a gente considerar que a redução só aconteceu como resultado de uma das maiores desacelerações econômicas da história, para Piers Forster, co-autor do estudo publicado na Nature Climate Change, é improvável que isso se repita, principalmente enquanto os países procurarem se recuperar economicamente após a pandemia.

"Sem uma mudança estrutural subjacente, não conseguiremos [alcançar o limite de 1,5ºC]", disse Forster, que é diretor do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds na Grã-Bretanha, em entrevista à AFP.

Cristina Nassar, doutora em ecologia e coordenadora do Programa de Engenharia Ambiental da Poli-UFRJ (Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), também acredita que a diminuição da poluição verificada é algo completamente circunstancial.

"Quando a crise passar, e ela vai passar, a produção irá voltar com força, em uma tentativa da recuperação econômica. Não me espantaria que, pontualmente, a poluição se elevasse a níveis maiores que os de antes da pandemia", afirma.

Tem solução?

Esse cenário serve para alertar sobre o modo de vida consumista, que agora está em xeque — as compras estão restritas ao essencial e o uso de muitos objetos de consumo perdeu parte de seu significado, ressalta Wagner da Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo).

"Essa crise é um momento fundamental para voltarmos a pensar a forma como organizamos as relações sociais e a nossa relação com as demais formas de vida e com o ambiente", opina. "O modo de vida consumista é a principal causa da devastação ambiental. Aqueles que lucram com esse modelo são os responsáveis por isso, porque não param de trazer novos estímulos ao consumo", acrescenta.

Qual seria a solução então? Manter todo mundo isolado para sempre? Muito pelo contrário, a total ausência de humanos em atividade seria um desastre e colocaria a natureza em risco em questão de dias.

"Quem irá operar as hidrelétricas, termelétricas e as usinas nucleares? Essas plantas de geração de energia entrarão em colapso em dias. A partir daí, começarão alguns desastres, diferentes instalações industriais vão parar, explodir ou vazar substâncias tóxicas", diz a especialista da Poli-UFRJ.

No artigo publicado na Nature Climate Change, os pesquisadores apontam algumas saídas para uma recuperação sustentável pós-pandemia, e elas passam principalmente pela redução da poluição do tráfego, que pode ser alcançada com a priorização do transporte público e das ciclovias.

Um "forte estímulo verde", que resultaria em um adicional de 1,2% do produto interno bruto investido em tecnologia de baixo carbono, poderia reduzir as emissões pela metade até 2030 em comparação com uma recuperação baseada em combustíveis fósseis, disseram os autores.

Para Nassar, da Poli-UFRJ, substituir os combustíveis fósseis, por si só, não vai resolver a questão. "O maior problema é que nosso modo de vida logo ultrapassará a capacidade suporte do planeta. Nós consumimos muito e de forma rápida nossos recursos naturais e eles não se renovam na mesma velocidade. Estamos exaurindo nosso planeta", afirma.

A professora diz ainda que, sem uma mudança no nosso estilo de vida e na forma de desenvolvimento econômico, nunca chegaremos ao tal desenvolvimento sustentável.

Pode até parecer contraditório, mas é preciso encontrar um jeito de existir como seres humanos e preservar o ambiente, sem o qual não podemos viver, tudo isso ao mesmo tempo.

"Nós queremos melhorar o ambiente diminuindo a produção humana? Acredito fortemente que não. Isso significaria menor produção de alimentos, fármacos, produtos industrializados e tantas outras coisas que necessitamos. Não queremos a melhoria do meio ambiente baseada em sofrimento e mortalidade", pondera.

E se a gente desaparecesse?

Caso a humanidade desaparecesse, a Terra viveria tempos de caos, mas cientistas defendem que, tal como aconteceu em Chernobyl, na Ucrânia, a natureza tem força suficiente para se recuperar.

"Um exemplo é a área ao redor da usina de Chernobyl, na Ucrânia. Na zona de exclusão, houve uma recuperação incrível da natureza tanto em termos de vegetação quanto de espécies animais. E isso ocorreu em três décadas, que é um intervalo de tempo médio, e mesmo com a radiação. É algo similar ao que ocorre nos arredores da usina de Fukushima, no Japão", explica Mathias Mistretta Pires, professor do Departamento de Biologia Animal do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

No entanto, é difícil prever em quanto tempo a natureza se recuperaria das marcas da nossa atividade. "A natureza é muito dinâmica, e existe uma variação natural em sistemas ecológicos, com alterações em populações de plantas e animais ao longo do tempo", afirma.

Segundo ele, se houver regiões preservadas que funcionem como base, a recuperação do ambiente afetado acontece, mas em locais totalmente devastados, não.