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Adeus, praias! Veja como a Terra ficaria se o gelo dos polos derretesse

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt

28/04/2020 04h00Atualizada em 29/04/2020 10h03

Uma das consequências mais óbvias do aquecimento global é o derretimento de geleiras espalhadas pelo planeta. No Ártico, as áreas de mar congeladas têm diminuído em um ritmo de 12,85% por década desde os anos 80. Já a Antártica perde gelo num ritmo médio de 145 gigatoneladas por ano.

Diante desses fatos, é impossível não pensar: como seria se o gelo dos polos derretesse? Bem, saiba que este cenário impactaria bastante no aumento do nível dos oceanos, mas iria muito além disso.

26º andar submerso

Medições desde 1993 mostram que os oceanos subiram de nível a uma taxa de 3,3 milímetros por ano. À medida que o derretimento das geleiras acelera, a tendência é que esse ritmo aumente.

O derretimento do Ártico é o menor dos problemas. Afinal, naquela região o gelo já se encontra sobre o mar, e a mudança de volume da água em estado sólido para o líquido teria pouco impacto nesse sentido.

O maior problema aqui é o derretimento de geleiras que estão sobre massas de terra, como na Antártica —que registrou temperatura recorde neste ano— e na Groenlândia. O volume de gelo na Antártica é próximo de 30 milhões de quilômetros cúbicos, enquanto na Groenlândia são 3 milhões de km³, correspondendo a 90% do gelo da terra.

Sabe o que aconteceria se essas geleiras juntas derretessem? Estima-se que o nível médio dos oceanos subiria algo em torno de 70 metros.

Para se ter uma ideia, nessa situação o dono de um apartamento no 26º andar de um prédio no litoral deixaria de ter uma bela vista para o mar, mas ganharia água salgada na altura da sua janela. Seria o fim das praias e praticamente toda cidade litorânea do mundo acabaria submersa.

Cerca de 10% da população mundial vive em cidades costeiras que estão a menos de dez metros do nível do mar, e 40% da população mundial vive a uma distância de até 100 km do litoral. Ou seja, esse cenário significaria uma crise humanitária sem precedentes, com milhões de mortes.

Haveria, portanto, um intenso fluxo migratório em direção ao interior dos continentes, ao mesmo tempo que haveria profundas mudanças na geografia do globo. No site Flood Map é possível simular o efeito do aumento do nível dos oceanos. Note como o litoral brasileiro e parte da amazônia vai sendo "devorado" pela água.

Flood Map

Mais espécies em extinção

A humanidade já estaria bem comprometida, mas outras espécies de animais sofreriam de maneira mais incisiva as consequências de um derretimento das geleiras. Os bichos associados a ambientes frios, como pinguins, focas e ursos polares, sofreriam uma ameaça séria de extinção.

Eles não seriam os únicos. Geleiras de locais como Groenlândia e Antártica são feitas, em sua maior parte, de água doce. Uma vez no mar, ela alteraria a salinidade do oceano e, consequentemente, causaria um impacto considerável na vida marinha. Espécies que vivem no mar estão adaptadas a uma salinidade de 35 mil ppm (35 gramas de sal em um litro de água) e qualquer alteração nisso significaria colocar a vida delas em risco.

Clima mais severo

A reação em cadeia continuaria. Alterações na salinidade e na temperatura das águas marinhas também mudariam as correntes marítimas. Isso, por sua vez, teria tudo para intensificar catástrofes climáticas. Vale lembrar que fenômenos como o El Niño e furacões estão intimamente ligados à temperatura dos mares.

O novo fluxo de correntes afetaria o regime de chuvas em diversos lugares. Não seria surpresa, portanto, vermos áreas úmidas se tornando cada vez mais secas e vice-versa. Isso alteraria a flora e a fauna do mundo, além do potencial para prejudicar diversos aspectos da atividade humana, como a produção de alimentos.

Efeito bola de neve (sem neve)

Um dos aspectos mais críticos do derretimento das geleiras seria a liberação de uma enorme quantidade de carbono para a atmosfera.

Aqui, temos o que pode se chamar de desastre autossustentável. Quanto mais carbono há na atmosfera, maior o efeito estufa. Este, por sua vez, aumenta a temperatura do mundo e faz mais gelo se derreter, que joga mais carbono no ar, e assim o ciclo continua.

Temperaturas elevadas afetam o equilíbrio ambiental do planeta. Daí tende a acelerar a destruição das florestas tropicais que ajudam a regular o clima da Terra e que também são responsáveis por reter carbono. Sem as florestas, os efeitos de todas essas mudanças climáticas só cresce.

A qualidade do ar em si também pioraria consideravelmente, já que concentrações maiores de carbono deixam a água dos mares mais ácida e afetam o ciclo de vida das algas que produzem oxigênio. Com um ar com mais carbono e menos oxigênio, maior a ocorrência de doenças respiratórias. Ou seja, eventualmente colapsaria os sistemas de saúde de todo o mundo.

Ah, e tem o chamado albedo, que é a capacidade de uma superfície refletir radiação solar. Superfícies congeladas são responsáveis por cerca de um terço do albedo da Terra. Sem elas, a tendência é que o planeta absorva mais radiação e, adivinhe só, fique mais quente.

Tchau, permafrost

Para fechar o pacote de desgraças, quanto mais o aquecimento global se acentua e mais gelo derrete, camadas mais profundas de solo congelado também passariam a derreter. Essas camadas são chamadas de permafrost e estão permanentemente congeladas há milhares de anos.

Uma vez que o gelo desse solo derreta, teremos não apenas a liberação de toneladas e mais toneladas de gases de efeito estufa como o metano —produto da decomposição de material orgânico presente no permafrost— como também a possibilidade de vírus e bactérias "esquecidos" voltarem à ativa.

Fontes: Alessandro Batezelli, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Paulo Artaxo, professor do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP)

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que dizia o texto originalmente, espécies que vivem no mar estão adaptadas a uma salinidade de 35 mil ppm, e não 35 ppm. O texto foi corrigido.