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Com "lockdown", RJ, MA e PA têm as maiores taxas de pessoas em casa no país

1º dia de lockdown em São Luís (MA) teve barreiras policiais e ruas fechadas - Governo do Maranhão
1º dia de lockdown em São Luís (MA) teve barreiras policiais e ruas fechadas Imagem: Governo do Maranhão

Carlos Madeiro e Fabiana Uchinaka

Colaboração para Tilt, em Maceió

09/05/2020 04h00

Rio de Janeiro, Maranhão e Pará registraram na última quinta-feira (7) os maiores índices de pessoas em casa entre todas as unidades da federação — 49,19%, 49,15% e 49,03%, respectivamente. Os três estados foram os primeiros a terem medidas de "lockdown" em parte dos seus territórios e imediatamente alcançaram resultados melhores, revela o IIS (Índice de Isolamento Social) calculado pela In Loco, startup brasileira que monitora a movimentação de 30 milhões de celulares a partir dos dados de geolocalização.

Na quinta-feira (5), o Maranhão foi o primeiro a decretar o fechamento total, por ordem judicial, em quatro cidades da ilha de São Luís, onde está o epicentro da epidemia de covid-19 no estado. Dois dias depois, o governo do Pará endureceu a quarentena em dez cidades com os maiores índices de infecção pelo coronavírus e a cidade do Rio de Janeiro adotou o lockdown parcial em Campo Grande, bairro com os maiores registros de aglomeração da capital fluminense. A partir da próxima segunda (11), será a vez de Niterói, na região metropolitana do Rio, a adotar o bloqueio total. Em Fortaleza (CE), o lockdown começou na sexta-feira (7) e ainda não há dados disponíveis para saber o efeito.

Com isso, ao menos 6,8 milhões de brasileiros já vivem sob modelo mais rígido de isolamento, ou seja, só podem sair de casa de máscara e se comprovar, por documento, que trabalham em serviço essencial ou que precisam buscar abastecimento ou socorro, sob pena de multa ou até de responder a ações penais.

Na quinta-feira passada (30), véspera do feriado de 1º de maio, o índice bateu recorde negativo desde que a quarentena começou: apenas 41,2% dos brasileiros estavam isolados socialmente. O desrespeito ao isolamento motivou outros 13 Estados, incluindo Rio e São Paulo, a estudar a fechar totalmente as cidades.

Semana a semana, vemos a adesão média ao isolamento social no Brasil cair:

  • 23/03 a 29/03 - 54,04%
  • 30/03 a 05/04 - 49,50%
  • 06/04 a 12/04 - 48,37%
  • 13/04 a 19/04 - 46,40%
  • 20/04 a 26/04 - 46,64%
  • 27/04 a 03/05 - 44,95%
  • 04/05 a 07/05 - 42,90%

Efeitos imediatos

Os dados de geolocalização dos celulares revelam que medidas mais rígidas surtem efeito imediato.

No Maranhão, a segunda-feira começou com IIS de 43,9%. Na terça (5), dia do decreto, o índice subiu para 49,6% e permaneceu acima de 49% até quinta (7), última medição disponível.

No Rio, o primeiro dia de lockdown no bairro de Campo Grande cooperou para que o estado alcançasse um índice de 49,2% na quinta-feira, contra 46,2% do dia anterior (6) —o que fez o estado ficar pela primeira à frente no ranking de unidades da federação.

No Pará, a alta foi ainda maior: pulou de 45,7% na quarta (6) para para 49% na sexta (7). O estado subiu para a terceira colocação entre os estados com maior índice. Um detalhe que deve fazer o índice no estado aumentar mais: na capital Belém, as barreiras nas ruas e avenidas começaram a ser montadas ontem.

A média nacional desde o dia 23 de março ficou em 47,84%, sendo de 33,2% considerando apenas os dias úteis. Os maiores picos positivos são aos fins de semana, especialmente domingos e feriados. O máximo foi em 22 de março, quando chegou a 62,2%.

Mudança na metodologia

Desde quinta, a In Loco mudou a forma de calcular o índice de isolamento social, o que gerou algumas atualizações sutis nos percentuais. "Realizamos mudanças técnicas no processamento dos dados, sem alteração no número de usuários na base [30 milhões de celulares com monitoramento ativo], e alcançamos uma versão mais consistente do índice, com um algoritmo de distanciamento mais preciso", diz em nota.

Como é medido o IIS, da In Loco?

A In Loco possui uma tecnologia própria que puxa de forma automatizada (bot) dados públicos gerados pelos celulares das pessoas, que normalmente são usados para direcionar publicidade. É o chamado Advertising ID, um número único que constantemente identifica os interesses dos usuários que navegam pelos serviços de plataformas como Google e Facebook. Ele serve para mostrar anúncios segmentados ou personalizados (ou "anúncios com base em interesses"), que geram receita para os apps.

Entre seus clientes, há bancos e grandes varejistas, que usam essa tecnologia em seus aplicativos para detectar possíveis operações suspeitas e evitar fraudes.

Segundo a startup, esse identificador também serve para detectar se um celular fica por períodos prolongados em determinado local. Ele envia para os servidores da empresa o endereço e o identificador de publicidade do smartphone, com isso dá para estabelecer a razão entre quem está "estacionado" e quem se desloca —"uma tecnologia 30 vezes mais precisa que a do GPS", diz.

Por isso, a empresa conseguiu montar um sistema de monitoramento diário, que foi usado pela prefeitura de Recife. Eles têm acesso ao identificador de 30 milhões de celulares brasileiros —o que corresponde a uma parte da população estimada do Brasil, que hoje é de 211 milhões, segundo o IBGE.

O IIS é medido diariamente, mas demora alguns dias para ser publicado.

De onde vêm os dados de geolocalização?

O seu celular tem embutido um GPS (Sistema Global de Posicionamento, da sigla em inglês), que troca constantemente informações com um satélite para determinar a sua geolocalização. Isso, em geral, serve para coisas como: te ajudar a saber onde está num mapa, qual caminho tomar quando está perdido, se deve virar à esquerda ou quanto falta para chegar a um destino, onde está o seu celular perdido/roubado ou qual o nome do estabelecimento onde está para colocar na descrição de uma foto no Instagram.

Empresas como Google, dona de Google Maps, Waze e Google Fotos, e Facebook, dono de WhatsApp e Instagram, e Apple armazenam seus deslocamentos em históricos de trajetos ou locais visitados. Com esse tipo de informação, dá para saber se um celular fica no mesmo local todas as noites (que seria sua casa) e se move todos os dias para um outro (provavelmente seu trabalho).

O índice de isolamento social, neste caso, mede isso: o celular passou o dia num raio bastante próximo da localidade tida como sua casa? Entra para a estatística do grupo que respeitou a quarentena. Caso contrário, vai para o índice dos que saíram de casa.

Normalmente, você precisa ativar a função de geolocalização — alguns apps pedem autorização para enviar os dados, outros não. Quando isso acontece, eles se tornam públicos —mas há uma grande discussão sobre consentimento e direito a privacidade em jogo.