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Estudo confirma que existe lógica no surgimento dos teóricos de conspiração

A Terra na concepção dos terraplanistas - Divulgação
A Terra na concepção dos terraplanistas Imagem: Divulgação

Fabrício Calado

Colaboração para Tilt

15/12/2019 04h00Atualizada em 16/12/2019 12h45

Sem tempo, irmão

  • Estudo analisou oito anos de conteúdo produzido em comentários postados no Reddit
  • Pessoas ganham confiança quando encontram outras que pensam como elas na web
  • Essas pessoas acreditam em coisas falsas por bons motivos, diz pesquisador
  • Como exemplo, diz que pessoas creem porque coisas semelhantes aconteceram no passado

Um estudo da Universidade Nacional da Austrália mergulhou no mundo das teorias da conspiração online e concluiu que a maioria das pessoas por trás delas é, na verdade, bastante comum. O que acontece, segundo a pesquisa, é que essas pessoas acabam ganhando visibilidade e confiança quando encontram outras que pensam como elas em fóruns online.

O estudo analisou oito anos de conteúdo produzido em mais de dois bilhões de comentários postados no fórum Reddit. Um dos focos foi o subreddit (fórum/subfórum) r/Conspiracy, que cobre desde OVNIs a teorias da Terra plana e de que o atentado de 11 de setembro nos EUA foi uma armação. Sem falar de conspirações do mundo político, principalmente as que envolvem as eleições americanas, como o "Pizzagate".

O modus operandi da pesquisa foi usar um microuniverso (posts em um canto da internet) para entender o macro (como a polarização pode influenciar a política em termos bem reais, como na decisão de vacinar ou não uma criança).

Extraordinariamente comuns

Apesar de a pesquisa focar os adeptos de teses radicais e infundadas, o autor do estudo, Colin Klein, disse ao site Phys.org que nem sempre teóricos da conspiração são gente com comportamentos excêntricos e pitadas de paranoia.

Segundo ele, sua pesquisa mostra um perfil diferente do de alguns filmes, em que pessoas assim são retratadas como um bando de malucões com chapéu de alumínio à prova de controle mental.

Para o pesquisador, se fake news e campanhas de desinformação costumam ter agentes políticos mal-intencionados e seu exército de bots pagos por trás, o ângulo aqui é outro: o internauta médio. Quem é ele? O que posta? Do que se alimenta?

"É fácil olhar para teorias da conspiração e pensar que são ideias excêntricas, e que quem acredita nelas é maluco, mas é algo muito mais conectado a várias coisas que fazemos todos os dias", argumenta. Por exemplo, diz Klein, "teorias da conspiração sobre abuso de poder policial são comuns, e não tão esquisitas assim".

Ou seja, na visão do pesquisador, nem toda crença incomum é infundada. "Pode ser que essas pessoas acreditem em coisas falsas, mas por bons motivos —porque coisas semelhantes aconteceram no passado."

A internet das coisas (estranhas)

Segundo Klein, a contribuição que a internet deu aos teóricos da conspiração foi servir de palanque e megafone. O que antes alguém poderia evitar dizer em público por medo de exclusão social passou a ser aceitável. No caso de um lugar como o Reddit, é possível se esconder atrás de um nome inventado. Daí para se mostrar é um pulo.

"No passado, antes da popularidade de fóruns como o Reddit, era natural que essas pessoas tendessem a se policiar na hora de falar para outras no que acreditavam", afirma Klein.

A pesquisa sugere que o processo de radicalização dos conspiratórios é gradual: um usuário começa em um fórum "normal", e depois de algum tempo postando ou acompanhando outros posts, não se vê representado nas ideias dali. É nesse momento que ele migra para outros fóruns, com usuários que aceitem melhor suas teorias e o exponham a outras, tão ou mais preocupantes, mas sempre com a pegada "Isso eles não querem que você saiba".

Qualquer semelhança com outras redes sociais (alô, Facebook, Twitter e WhatsApp) não é mera coincidência.

"As pessoas buscam comunidades simpatizantes (às ideias conspiratórias delas). Este processo de encontrar pessoas que pensem de modo parecido é algo que notamos bastante na internet", disse Klein.

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