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'Relógio genético' indica que 'vida útil' do ser humano é 38 anos; entenda

DNA pode conter mais informações do que apenas características físicas de espécies - iStock
DNA pode conter mais informações do que apenas características físicas de espécies Imagem: iStock

Helton Simões Gomes

De Tilt, em São Paulo

14/12/2019 13h16

Quantos anos você está programado, do ponto de vista genético, para viver? Os cientistas da agência que coordena a pesquisa científica na Austrália responderam essa pergunta nesta semana: 38 anos. Mas é bom ter calma. Isso está longe de significar que os quarentões passaram do prazo de validade.

Os pesquisadores da Organização de Pesquisa da Comunidade Científica e Industrial (CSIRO) e da Universidade Western Australia criaram um método para descobrir o "relógio genético" de vertebrados, que é capaz de identificar a "vida útil" de animais. Eles explicaram o método que usa alterações no DNA para medir a longevidade de diversas espécias em artigo publicado na revista Nature nesta quinta-feira (12).

O DNA possui muitos genes ligados à longevidade, explica o coordenador da pesquisa, Dr. Ben Mayne. Só que as diferenças nesses genes, que variam de espécie para espécie, não são suficientes para explicar por que um animal pode viver mais do que outro.

Envelhecimento no DNA

Para chegar a algum parâmetro, os cientistas recorreram a outra característica do DNA: a metilação. Em linhas gerais, este é processo de acréscimo de moléculas de metil ao DNA. Em humanos, essa adição já era conhecidamente associada ao envelhecimento celular.

Outras pesquisas na área da genética já haviam identificado que há semelhanças na metilação ocorrida nos DNAs de mamíferos. Cientistas da Universidade da Califórnia (EUA), aliás, usaram esse detalhe para mensurar qual poderia ser a "idade humana" de cachorros.

No caso do estudo australiano, a metilação do DNA foi usada para mensurar algo como a longevidade pré-programada no genoma de cada espécie.

A metilação do DNA não altera a sequência de um gene, mas age como um interruptor e ajuda a controlar se e quando ele está ligado
Ben Mayne, doutor e pesquisador associado do CSIRO

Para dar consistência ao trabalho, os cientistas usaram como ponto de partida os genomas de animais que já tivessem longevidade conhecida. Essas informações estavam disponíveis em bancos de dados públicos, como o NCBI Genomes e a Animal Ageing and Longevity Database.

"Usando o tempo de vida conhecido de 252 espécies diferentes de vertebrados, conseguimos prever com precisão a longevidade por meio da densidade de metilação do DNA que ocorre em 42 genes diferentes", afirmou o líder da pesquisa.

Ao identificar que a densidade de metilação nestas pouco mais de quatro dezenas de genes é crucial para chegar ao prazo de validade genômico de uma espécie, os cientistas conseguiram desenvolver um modelo de cálculo que os permitisse extrapolar os resultados para espécies extintas.

Por que vivemos mais?

Analisando o genoma do ser humano moderno, determinaram que a vida útil determinada pelo relógio genético é de 38 anos. Esta longevidade é próxima à medida para neandertais, que é de 37,8 anos.

A essa altura, a pergunta que deve estar pipocando na sua cabeça é: se estamos programados para viver 38 anos, o que explica a expectativa de vida ser muito superior a isso, a ponto de chegar a 76,3 anos no Brasil, um país que não tem uma das maiores longevidades do mundo?

Bom, segundo os próprios cientistas que elaboraram o estudo, a pré-disposição genética não explica tudo. Nossa vida útil foi estendida por mudanças no estilo de vida e pelos muitos avanços na medicina, que não só conseguem tratar os efeitos do envelhecimento como curar enfermidades que dizimariam nossos antepassados em um piscar de olhos.

Usando o método para calcular o relógio da vida útil, os cientistas chegaram aos seguintes "prazos de validade" genéticos para animais ainda existentes:

  • eixe-leite: 12 anos
  • Rã-touro africana: 19,8 anos
  • Mabeco (cão selvagem africano): 20 anos
  • Ser humano: 38 anos
  • Chimpanzé: 39,7 anos
  • Dragão de Komodo: 48 anos
  • Narval (baleia dentada): 52 anos
  • Cachalote: 92 anos
  • Baleia Jubarte: 93 anos
  • Baleia franca da Groenlândia: 268 anos

E para os extintos:

  • Moa: 23 anos
  • Pombo selvagem: 28 anos
  • Neandertal: 37,8 anos
  • Mamute-lanoso: 60 anos
  • Elefante de bico reto: 60 anos

Para os pesquisadores, essa descoberta pode ajudar na preservação de espécies ameaçadas e na redescoberta de características de animais que já não podem ser encontrados no planeta.

"O tempo de vida é um componente central dos modelos para o gerenciamento de espécies recolhidas na vida selvagem, como peixes, tubarões e espécies ameaçadas, já que que o tempo de vida é fundamental para determinar as colheitas sustentáveis e a viabilidade da população", escreveram os cientistas no estudo.

"O relógio da vida útil também cria uma oportunidade para estudar a biologia de espécies extintas. Nosso estudo adiciona vida útil à gama de parâmetros ecológicos significativos que podem ser fornecidos pela biologia molecular."

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