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Assustados com mortes, motoristas de apps como Uber e 99 ameaçam greve

Motoristas de aplicativos ameaçam parar após mortes cometidas por passageiros - iStock
Motoristas de aplicativos ameaçam parar após mortes cometidas por passageiros Imagem: iStock

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

13/01/2019 04h00

Casos recentes envolvendo mortes de motoristas de aplicativos como Uber, 99, Cabify e outros têm feito trabalhadores do serviço cogitarem uma paralisação para chamar a atenção da segurança das plataformas. O UOL Tecnologia apurou que um movimento já está marcado para ocorrer nesta segunda (14) no Rio Grande do Sul, enquanto outros podem acontecer em diferentes cidades do país nas próximas semanas.

A reclamação principal envolve mortes de motoristas supostamente cometidas por passageiros cadastrados nas plataformas, que chamaram corridas pelo aplicativo

Queremos evitar mortes de motoristas, não prejudicar passageiros. A ideia principal é chamar as plataformas para as responsabilidades delas quando colocam um assassino com ficha criminal no aplicativo

Joe Moraes, presidente da Alma-RS (Associação Liga dos Motoristas de Aplicativos no Rio Grande do Sul)

"Não aceitamos isso. Queremos que conversem com a classe e façam ajustes para deixar-nos menos vulneráveis", afirmou ao UOL Tecnologia.

 

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De acordo com Moraes, o movimento é organizado por WhatsApp e redes sociais e pede que motoristas não loguem no aplicativo, além que participem de ato em Porto Alegre, que deve passar por pontos estratégicos da cidade. Segundo ele, outros municípios da região metropolitana e do interior gaúcho também podem aderir.

O ato acontece após a morte de Paulo Junior da Costa, que desapareceu na noite de Réveillon e foi encontrado morto em Santa Catarina após aceitar uma corrida, segundo as primeiras investigações apontadas pelo jornal "Zero Hora". A Alma-RS diz contabilizar cinco mortes do tipo nos últimos seis meses no estado.

Outro caso ocorreu no Rio de Janeiro. De acordo com o jornal "Extra", uma mulher que trabalhava como motorista da Uber foi encontrada morta em seu carro no último dia 8. A Polícia Civil diz que o criminoso teria solicitado o serviço da motorista e ainda estuprado a mulher antes de cometer o crime --investigações seguem em andamento e existe a possibilidade de que o passageiro fosse conhecido da vítima. A Uber lamentou a morte a afirmou que o usuário envolvido foi banido.

Mais protestos

Outros movimentos podem ocorrer pelo país nas próximas semanas. Em grupos de WhatsApp, uma mensagem que está se espalhando entre motoristas, a qual o UOL Tecnologia teve acesso, convoca para uma suposta paralisação da categoria no dia 20 de janeiro. Nem todas as associações, contudo, concordam com a greve.

"Algumas querem, outras não. Não teve consenso sobre a data. Alguns motoristas independentes e algumas associações defendem a paralisação. Nós, da Amasp, queremos que o motorista trabalhe e ganhe dinheiro, paralisar significa deixar de ganhar dinheiro, e isso é ruim", relata Marlon Luz, vice-presidente da Amasp (Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo).

A solução da Amasp será tentar conversar com as Secretarias de Segurança Pública e com os aplicativos. O tamanho da paralisação em Estados com associações que defendem o ato, como no Rio Grande do Sul, é incerto.

Segundo Moraes, os aplicativos estão dando descontos para usuários realizarem corridas na segunda-feira (14), dia da paralisação, numa suposta tentativa de enfraquecer o movimento. 

Exigências de motoristas são polêmicas

As mobilizações são uma tentativa de pressionar todos os apps a adotarem medidas de segurança exigidas por parte dos motoristas. As principais demandas são:

- cadastro mais rigoroso de passageiro, como é para motoristas (atualmente, passageiros só precisam de nome, email e telefone, basicamente)
- mostrar endereço da corrida, não apenas área
- deixar motorista escolher se quer aceitar dinheiro na plataforma (no caso, a Uber; 99 já tem isso e Cabify só aceita cartão)
- mostrar a foto do passageiro (Cabify já tem)
- pedir senha na hora que o usuário solicita uma corrida para evitar que criminosos façam pedidos com celulares roubados 

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As companhias como a Uber e a 99 dizem que possuem equipes voltadas para a segurança e mecanismos de inteligência artificial capazes de prever crimes no aplicativo.

O presidente da Alma-RS, contudo, questiona a eficiência dessas políticas.

Que inteligência é essa que coloca assassino no carro? Defendemos mecanismos plausíveis, que valem para o motorista e o passageiro. No Uber Juntos, como o passageiro vai dividir com outros sem saber quem são? 

Joe Moraes, presidente da Alma-RS

As medidas sugeridas são polêmicas. Ações como mostrar foto de usuários, endereço e a opção de não aceitar dinheiro podem excluir pessoas de baixa renda, que não possuem cartão de crédito, e evidenciar o preconceito contra áreas e pessoas. 

Joe alega que sempre terá motoristas para atender diferentes tipos de pessoas e que cada um tem a sua escolha. Mas nem todos concordam.

"Isso é questionável. A 99 oferece e tem muitos crimes também. Os aplicativos se negam a mostrar a foto dos passageiros por medo de que haja uma seleção, o que para os apps é ruim e para experiência dos passageiros também. Entendo quanto a isso", diz Marlon Luz, da Amasp.

O que dizem os aplicativos

A Uber afirmou que "lamenta que motoristas parceiras sejam vítimas da violência e brutalidade que permeiam nossa sociedade" e que ouve os motoristas, mas busca o equilíbrio entre as demandas deles e a experiência dos passageiros.

"Ao longo do ano de 2018, a Uber passou a adotar no Brasil o recurso de machine learning [aprendizado de máquina], que usa tecnologia para bloquear viagens de risco, e lançou uma ferramenta de segurança para motoristas, incluindo um botão de pânico para acionar a polícia. A Uber também lançou em agosto uma ferramenta que inclui a informação de qual será a forma de pagamento antes de o usuário embarcar", diz a empresa.

Para quem quer pagar somente em dinheiro, a empresa diz que pede informações extras como CPF e data de nascimento, dados checados com a Receita. Além disso, rastreia as viagens por GPS, oferece opção de compartilhar viagem e número de contato para motoristas.

Fora isso, criou um centro em São Paulo - que custou R$ 250 milhões - com até 150 especialistas focados em segurança.

Já a 99 disse que está ciente dos "graves casos" e está aberta ao diálogo com os motoristas e passageiros . 

"Em relação à segurança, a 99 montou uma equipe especialmente dedicada, composta por mais de 70 pessoas incluindo ex-militares, engenheiros de dados e psicólogos. O time trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, cuidando exclusivamente da proteção dos usuários. Esse trabalho, que também escuta e avalia as críticas e sugestões dos condutores, foi responsável pela redução em 82% dos incidentes na plataforma em 2018", afirma a empresa.

A 99 lembra também algumas tecnologias recentes aplicadas pela empresa. Entre elas, estão câmeras de segurança nos veículos conectadas com uma central, inteligência artificial que analisa as chamadas e veta as de risco, mapeamento de áreas de risco para motoristas, exigência de CPF e cartão de crédito antes da primeira corrida para passageiros, canal de atendimento para incidentes de segurança, opção dos condutores não aceitarem dinheiro, seguro para todos os usuários e treinamento para condutores com dicas de proteção.

A Cabify, por sua vez, diz "reconhecer o direito da livre manifestação pacífica dos brasileiros". Além disso, aponta que não tem registro de latrocínio envolvendo motoristas parceiros. A empresa diz registrar informações em todas as etapas de uma viagem (pedido, aceitação do motorista, finalização e pagamento), inclusive por GPS. Com esses dados, diz poder oferecer informações a autoridades, respeitando o Marco Civil da Internet.

"A Cabify solicita que os motoristas parceiros relatem toda e qualquer situação atípica e suspeita para o suporte da Cabify, disponível 24 horas nos 7 dias de semana. Para os motoristas, oferece também contato para emergências", aponta o app, que ainda diz oferecer seguro para casos de morte ou invalidez para todos dentro do veículo, além de cobrir despesas médicas.

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