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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hoje metaverso é uma mentira em que todos fingem acreditar, mas pode rolar

Para virar metaverso, muita coisa precisa evoluir e ganhar escala - Freepik
Para virar metaverso, muita coisa precisa evoluir e ganhar escala Imagem: Freepik
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

22/02/2022 04h00

Para entender o metaverso é preciso experimentar, mas basta fazer isso para saber que o metaverso de 2022 continua sendo um lixo atômico.

Plataformas como Decentraland ou The Sandbox têm gráficos medíocres e interação mais ainda.

Jogos de cinco anos atrás têm melhores gráficos, performance e melhor interação entre jogadores. Aliás, qualquer um que seja gamer entende o potencial e quão relevante o metaverso pode se tornar um dia.

Não é só uma questão de não ter bons gráficos, o conceito de imersão é muito mais amplo. Mas no metaverso de 2022, faltam propósito, sentido, aplicação. Bons gráficos? Faltam também, mas é o menos importante.

Justamente por isso, jogos como Fortnite e Roblox acabam sendo exemplos de como seria o tal metaverso. Mas se hoje o tal metaverso são os jogos, o nome disso seria jogos, não metaverso.

Para virar metaverso, muita coisa precisa evoluir e ganhar escala, atingir a massa.

Decentraland e outras plataformas são, na melhor das hipóteses, um protótipo bem ordinário do que seria o metaverso.

Sabe quantas pessoas estão na The Sandbox no mundo todo? Cerca de 500 mil. Decentraland? Cerca de 300 mil, sendo umas 18 mil ao mesmo tempo.

Tem mais gente falando sobre o metaverso do que usando. Devem passar muito mais brasileiros por dia em um shopping pequeno do interior do que nessas plataformas.

Sabe quantas usam o jogo Fortnite? 350 milhões! Simultaneamente? De 3 a 8 milhões.

A verdade é que o metaverso não existe e pode demorar.

Quem melhor para opinar sobre isso que Mark Zuckerberg? Sua empresa é a que está na dianteira do segmento. É também a que mais está investindo. Só no ano passado, foram US$ 10 bilhões. Segundo ele, esse investimento ainda irá aumentar e se manter por vários anos.

Quanto teremos o metaverso? Segundo o executivo, a maior parte do que eles mostraram em seu evento não estará pronto nos próximos anos. Atingir a massa? Talvez nos próximos 5 ou 10 anos.

Mas o fato do metaverso ainda não existir não impediu a febre quase insuportável que o tema alcançou. É natural, dada a expectativa.

O que não é natural é ter tanta gente dando aula, palestra, encontros para falar de metaverso. Tem executivo botando a hashtag metaverso mesmo quando o post não tem nenhuma relação com o assunto. Já tem até palestra segmentada. Metaverso para a indústria da moda, a diferença entre o metaverso da China e do Ocidente, o open banking e o metaverso e assim por diante. Já tem cursos sobre o metaverso prometendo ensinar como faturar alto investindo em terrenos virtuais.

E as marcas? Estão investindo horrores na brincadeira.

Segundo Luiz Gustavo Pacete, editor de Tecnologia e Inovação da Forbes Brasil e especialista na indústria de comunicação e marketing:

"Estimativas baseadas em projetos reais mostram que um lançamento simples no metaverso hoje é um investimento médio de R$ 700 mil enquanto a maior parte das ações estão já na casa dos milhões. Isso em 'metaversos brasileiros'. Quando vamos para metaversos baseados em blockchain, como Sandbox e Decentraland, estamos falando de investimentos maiores de US$ 5 milhões".

E não para por aí. Como uma boa parte dessas ações acaba falando com um público muito reduzido (em alguns casos, poucas dezenas de pessoas), as marcas ainda investem outra pequena fortuna em influenciadores e streamers para levar a ação para milhares de pessoas no YouTube ou Twitch.

No final das contas fica uma grande dúvida, esta é uma ação de metaverso ou de streaming?

Fazer ações usando a tecnologia da moda pode trazer atributos de inovação, frescor, tecnologia e modernidade.

Será que as marcas não usariam este investimento de forma melhor? Não importa.

O grande problema nem é fazer o que todos estão fazendo, mas fazer por fazer. A maior parte destas ações nem faz sentido. São réplicas do ambiente físico que não são interessantes no ambiente virtual. Quem quer andar virtualmente pela prateleira do supermercado para comprar molho de tomate?

Metaverso será importante? Provavelmente sim. Será tudo o que estamos falando hoje? Provavelmente não. Esse é o padrão de todas as tecnologias. Existe uma expectativa exagerada sobre elas quando estão na moda.

Um dos motivos talvez um terapeuta explique, mas outro é bem mais comercial. Especialistas e a mídia em geral precisam de novidades para gerar cliques, visualizações e vender livros e palestras.

Pense em empresas que vivem de vender apresentações com tendências. A cada trimestre é preciso mostrar um monte de novidades que irão botar sua indústria de ponta-cabeça e fazer você ficar desatualizado. Alimentar a ansiedade e a incerteza são ótimas formas de vender.

Enquanto isso, tem muita empresa falando de metaverso sem resolver o básico. O script do call center é uma porcaria e estão tentando montar boteco virtual.

Outro problema é pular de tendência em tendência sem se aprofundar em nenhuma. Tem empresa séria falando em metaverso sem antes ter uma estratégia clara e consistente sobre inteligência artificial.

A boa notícia é que este glamour tem servido como porta de entrada para algumas marcas acordarem para o universo dos games. Jogos são um universo consistente, envolvente, mainstream e que já deveriam estar com investimento massivo das marcas há muito tempo. No meu segundo livro, lançado em 2006, eu já havia feito esse apelo às marcas.

A fórmula fácil disfarçada de inovação é sempre tentadora. Com todo mundo investindo na mesma novidade, seria isso inovação? A verdade é que, no final das contas, ninguém liga. No mundo do marketing e da publicidade, a mulher de César não precisa ser honesta, só parecer ser.

Os streamers ganham dinheiro para divulgar, os palestrantes para falar, os caçadores de cliques no LinkedIn seus likes, as agências vendem seus projetos e os anunciantes ganham chancela de todos eles para os seus investimentos.

Metaverso será muito relevante no futuro? Muito provavelmente. Mas por enquanto, é uma mentira que todo mundo finge que acredita e está tudo certo.

Eu também ganho com isso, escrevendo este artigo. Provavelmente também ganharei dando palestras sobre o assunto. A diferença é que não serei hipócrita, ou não. Vai chover dinheiro no metaverso. Viva o metaverso!