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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Metaverso que está surgindo causa incômodo, e não é culpa da tecnologia

Vanessa Loring/ Pexels
Imagem: Vanessa Loring/ Pexels
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

29/11/2021 04h00

Na última semana eu estava em um evento e o fotógrafo veio me perguntar o que eu acho do tal metaverso. Por falar sempre sobre tecnologia e seu impacto na comportamento do consumidor e no ambiente de negócios, a pergunta não foi uma surpresa, mas me surpreendi com o que eu quase respondi para ele. Na hora, meu ímpeto era responder: "o metaverso é a nova TV 3D".

Eu não acredito nisso. Apesar de o metaverso estar na moda, acho que ele pode ter bastante impacto no futuro e ser muito interessante para todos nós. Então o que será que me incomoda tanto para eu quase ter desdenhado dele?

Está na moda

Será que é o fato de estar muito na moda? Não acredito.

Inteligência artificial também está. Nem tudo que está na moda é modismo. De uma maneira geral, as tecnologias todas estão. E tem motivos para tanto, já que elas têm forte impacto na sociedade.

É requentado

Seria o fato de ser uma tecnologia requentada? Quem não lembra do Second Life. E tantos outros jogos atuais como Fortnite, que são muito mais a cara do metaverso do que qualquer outra coisa.

Mas ser requentado também não me incomoda. Muitas outras tecnologias já estavam no esquecimento quando a evolução tecnológica trouxe utilidades novas.

Caso dos relógios inteligentes. Diferente daqueles da década de 80 que só serviam como calculadora ou tinham um joguinho tosco, os de hoje em dia podem ver sua saturação de oxigênio e avisam a emergência se você cair e ficar desacordado.

Caso da própria realidade virtual, que além do tal metaverso também atende diversas outras aplicações, da educação ao entretenimento.

Expectativa exagerada

Como muitas coisas da moda, existe uma expectativa exagerada no ar. As reuniões do futuro serão no metaverso, a educação do futuro também. O metaverso vai mudar o jeito de fazer política. É o futuro da interação social.

Mas, novamente, não é isso que me incomoda. Todas as tecnologias passam por essa expectativa exagerada. A ponto do instituto de pesquisas Gartner ter até um gráfico para ilustrar esse comportamento.

Da mesma forma, após esse exagero positivo, vem um negativo. Na "calha da desilusão", a tecnologia passa a ser totalmente desacreditada. A própria internet passou por isso.

O "trailer" é exagerado

O pico da atenção aconteceu com o anúncio do Facebook, com Zuckerberg usando o metaverso. Tudo fluído, maravilhoso, nenhum desconforto causado por óculos. Gráficos perfeitos e tudo mais.

Mas, isso dito, nada diferente do que já estamos acostumados com filmes e jogos. Aquele trailer maroto que mostra em 10 segundos as únicas piadas que prestam no filme. Aqueles cut scenes maravilhosos de jogos quando, na prática, o gameplay é um lixo atômico e sem graça.

O abismo entre propaganda e realidade não é novo e já sabemos lidar com esse problema.

Facebook

Talvez o que realmente me incomode não seja o metaverso em si, mas o papel do Facebook em tudo isso.

O sentimento do Facebook estar usando o metaverso como cortina de fumaça para tirar atenção sobre suas falhas e seu comportamento já incomoda um pouco, mas o pior é o fato de Zuckerberg querer dominar o metaverso.

A empresa que tornou redes sociais em sinônimo de internet agora quer dominar o metaverso. Não considero que fizeram bem para a sociedade até agora e não confio que farão se dominarem também o metaverso.

Provavelmente terão sucesso. Eles têm o monopólio das redes sociais, uma ótima solução de hardware e a maior e melhor loja de realidade virtual. Eles têm a faca e o queijo na mão. E nessa versão do metaverso, nós seremos o queijo.