PUBLICIDADE
Topo

Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Big techs surgiram para mudar o mundo, mas viraram o padrão a ser superado

Busca por lucro a qualquer preço arranha a imagem das big techs - Pixabay
Busca por lucro a qualquer preço arranha a imagem das big techs Imagem: Pixabay
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

31/01/2022 04h00

As big techs conquistaram nosso coração. Lindas e maravilhosas, elas surgiram para tornar a nossa vida melhor. Tem a loja que entrega tudo em dois dias. A rede que nos conecta aos amigos distantes. A que mostra o preço da corrida antes de entrarmos no carro. A que nos permite ver séries quando quiser e sem propaganda. A que entrega comida por um preço camarada. A que não cobra anuidade no cartão de crédito. Temos até a que nos permite ganhar milhares de seguidores só fazendo dancinha.

E nesse mundo perfeito, elas se tornaram as maiores empresas do mundo. Algumas valendo mais de US$ 1 trilhão, um feito difícil de imaginar alguns anos atrás.

Hoje, nós — e nossos filhos — passamos mais tempo do nosso dia com essas marcas do que com a própria família. Por este e outros motivos, as big techs se tornaram as empresas mais valiosas e também as marcas mais valiosas. Não apenas em colocação no ranking, mas valendo muito mais que as marcas tradicionais.

Apenas para ilustrar, segundo a Brand Finance, em 2007 a marca (não a empresa em si) mais valiosa do mundo era a Coca-Cola, com valor estimado de US$ 43 bilhões. Em 2022, este valor não entraria nas top 30. Com poucos anos de vida, a marca TikTok já vale mais (US$ 59 bilhões). Em primeiro lugar, a Apple bate os US$ 355 bilhões.

Outro índice relevante é o de fidelidade de marca. Segundo a Brand Keys, big techs como Amazon, Netflix, Apple e Google também dominam esta lista.

Talvez por isso que uma empresa como a Amazon pode vender —e com sucesso — pilhas AA usando sua própria marca. Os consumidores talvez confiem mais nela do que em fabricantes tradicionais que fazem pilhas há 100 anos.

Neste universo de amor e felicidade, as big techs viraram o novo status quo. Porém, suas garras começaram a gerar machucados enquanto se moviam em sua constante busca de crescimento e dominância de mercado. O amor pode acabar.

Em algum momento, uma parte dos consumidores poderá perceber que, no fundo no fundo, imagine só, o objetivo de algumas destas empresas seja apenas o lucro.

Um bom exemplo é bem atual. Neil Young versus Joe Rogan, com o Spotify ficando do lado do dinheiro. Para quem não acompanhou, a plataforma assinou contrato de mais de US$ 100 milhões para ter exclusividade do podcast de Rogan. Com mais de 11 milhões de ouvintes por episódio, ele tem histórico em opiniões e convidados negacionistas e que estimulam o ódio, espalhando mentiras e desinformação sobre temas como covid ou supremacismo branco.

Perguntei à empresa sobre o assunto e responderam que já removeram mais de 20 mil episódios de podcasts sobre covid. Mas Rogan continua firme. E aposto que a audiência destes 20 mil episódios não chegue perto de um único episódio de Rogan.

O fato de o Spotify não remover estes conteúdos (ou remover apenas uma parte deles), fez Young pedir para plataforma resolver o problema ou remover suas músicas.

A plataforma não fez nada, ou seja, decidiu a favor de Rogan.

Comercialmente falando, foi uma decisão fácil. Ainda que tenha importância musical, Neil Young não tem relevância em números quando comparado a outros artistas ou ao próprio Joe Rogan.

Antes de criticarmos a empresa, que tal botar outro componente na lista? Por que nossos artistas preferidos, muitas vezes tão ativistas nas redes, também não fazem a mesma pressão? É válido criticar ou xingar muito o governo antivacina no Twitter, mas seria bem mais prático se nossos artistas populares também pedissem para retirar suas músicas desta e outras plataformas.

Voltando às big techs, agora que elas representam o status quo, a tendência é virar vidraça. E cada vez mais precisarão tomar decisões difíceis. Decisões que podem arranhar suas marcas e mostrar para seu público que, no fundo no fundo, is all about money.

Os primeiros derrotados nesta batalha? Facebook e Mark Zuckerberg. Será que alguém ainda gosta deles? Será que alguém ainda confia neles?

Os próximos anos serão interessantes. Já pensou se um dia, Deus me livre pensar isso, as startups que surgiram para tornar o mundo um lugar melhor, se mostrarem apenas empresas buscando lucro a qualquer custo? Me dá arrepio só de pensar nisso.

A realidade bate a porta. No universo corporativo, uma frase é dita com frequência: o lucro liberta. Em breve algumas big techs e startups descobrirão que o lucro também tem seu preço.