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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Instagram virou o paraíso para bandidos darem o primeiro de vários golpes

Yash Gooly/ Pixabay
Imagem: Yash Gooly/ Pixabay
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

22/08/2021 04h00

No dia que resolvi escrever este artigo, três contas de empresa que sigo no Instagram haviam sido clonadas. Uma queijaria, uma vinícola e uma empresa de charcutaria. Com uma rápida busca pela plataforma percebi que não era coincidência, o golpe se tornou tão comum que hashtags com o perfil falso ou fake tem milhares de ocorrências.

O restaurante Edo Zushi (@edo_zushi) já perdeu a conta de quantas vezes seu perfil foi clonado para aplicar golpes. Só nos últimos meses, foram quatro vezes.

O golpe é relativamente simples, o bandido cria uma conta no Instagram idêntica à conta original. Mesma descrição, mesmos posts, mesma foto no perfil. O nome idêntico com apenas um caractere diferente. Um sublinhado ou alguma letra repetida que olhos mais distraídos não percebem. Algumas vezes um sufixo que parece fazer sentido, como um "BR" ou "SP" ou "Oficial".

O Facebook alerta para que você "desconfie de ofertas de produtos, promoções e serviços com preços muito abaixo dos valores médios praticados no mercado".

Mês passado uma pessoa próxima caiu no golpe. Uma conta falsa da doceira Sweet Cake (@deliciasdasweetcake) ofereceu um sorteio de um bolo. Um sorteio de bolo para clientes não deveria ser algo para desconfiar. Empresas fazem pequenos sorteios há anos em busca de cadastro em newsletters e outras ações de relacionamento. Ela caiu no golpe e teve seu WhatsApp clonado.

O próximo passo é enviar mensagem para os clientes oferecendo algum brinde ou chamando para participar em algum sorteio. Para confirmar, pedem para enviar o código que receberam pelo SMS. O código serve para roubar seu WhatsApp. Com o aplicativo clonado, tentam aplicar o golpe de pedir dinheiro para seus contatos.

Para dar mais credibilidade, algumas das contas falsas eram contas originais de outra pessoa que também foi hackeada. Assim a conta falsa já começa com milhares de seguidores, dando credibilidade ao golpe.

É um roteiro para dar inveja ao filme "A Origem" ("Inception"). Rouba-se uma conta do Instagram para criar uma falsa para enganar clientes para roubar o WhatsApp para aplicar golpes em contatos. É um golpe para aplicar um golpe para aplicar um golpe para aplicar outro golpe.

O denominador comum? Tudo isso usando as plataformas do Facebook.

Falta de solução frustra empresas

No desespero, as empresas clonadas pedem para os clientes que denunciem a conta falsa, mas as contas demoram muito tempo para serem excluídas. Em alguns casos, isso parece não acontecer nunca.

A Hospedaria Casa da Pedra (@hospedariacasadapedra) acusou um desses golpes há 30 semanas, até hoje o perfil falso está ativo. A solução? Deixar um recado em seu perfil, em caixa alta, deixando claro ser o único perfil da hospedaria.

A Gaia Viva (@pousadagaiaviva), uma pousada que oferece acomodações e lazer pet friendly é um bom exemplo deste problema. Quando comecei a escrever este artigo a empresa tinha não uma, mas quatro contas falsas aplicando golpes em seus clientes. Com quase 100 mil inscritos em sua conta verdadeira, a empresa não é verificada e recebe reclamações de clonagem diariamente. Parece uma hipérbole para descrever o problema, mas não é isso, é diariamente mesmo.

Perfis falsos e o real da pousada gaia viva no Instagram - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Apesar de não causarem prejuízo direto a marca, causam muita dor de cabeça para seus clientes e para a própria empresa. Fazem a empresa perder tempo dando atenção e fazendo constantemente comunicados sobre golpes. Como nem todo mundo entende que a marca não tem culpa, gera insatisfação de alguns clientes e prejudica a empresa.

Fora o risco de ser confundido com golpistas. Na bagunça de contas falsas com clones idênticos, a queijaria Ribeiro Fiorentini (@ribeirofiorentini) já chegou a receber acusações de ser uma conta falsa em seus comentários, o que pode ter gerado mais clientes confusos e prejudicar suas vendas.

Como o perfil falso não requer nenhuma ação (ou descuido) do dono original da conta, não tem barreiras para se proliferar pela rede.

Quem poderia fazer algo é o Facebook

O que poderia ser feito para evitar isso? O próprio Facebook.

Sugiro três ações simples de serem resolvidas pela empresa.

  1. Liberar o verificado, que hoje é usado em todas as redes (não apenas nas plataformas do Facebook) como um símbolo de glamour, parte da ordinária tática das redes para incentivar o uso massivo de suas redes. Identificar empresas usando endereço físico. O Google faz isso para identificar responsáveis por estabelecimentos. Envia uma carta para o endereço com um código. Gerar escassez do verificado apenas alimenta o glamour e torna a rede local mais fácil para golpes.
  2. Aumentar a equipe. Segundo o Facebook, a empresa tem "uma equipe dedicada para detectar e impedir esses tipos de golpes". Com lucro líquido acima de US$ 10 bilhões por trimestre, a rede não teria problema para ter mais agilidade para este tipo de problema
  3. Colocar seus engenheiros para automatizar algumas coisas. Para dar apenas um exemplo, seria trivial para estas plataformas reconhecerem imagens de perfil e posts iguais.
  4. Criar mecanismos para evitar golpistas aplicarem outros golpes. Segundo a empresa, "fingir ser outra pessoa, marca ou negócio viola as Diretrizes da Comunidade do Instagram." Esta na hora de banir o celular, não apenas a conta. Você precisa de um número de celular para o Instagram e de um número de celular para o WhatsApp. Se cada golpe aplicado colocasse o número em uma lista cujo processo para criar contas novas se tornasse muito mais burocrático, isso com certeza faria o número de golpes cair.

Enviei questionamento ao Facebook e fui informado pela empresa que existe uma das maneiras para denunciar é através do formulário de violação de propriedade intelectual e direitos autorais.

E no próprio aplicativo:

  1. Toque em "..." na parte superior direita do perfil
  2. Toque em Denunciar
  3. Selecione "O conteúdo é inadequado" e, depois, "Denunciar conta"
  4. Selecione a opção "Está fingindo ser outra pessoa"
  5. Indique se a conta falsa está fingindo ser você, uma pessoa conhecida ou uma celebridade/figura pública. No caso de perfis verificados, você pode indicar qual o perfil legítimo que a conta falsa está fingindo ser.
  6. Ao denunciar uma conta, suas informações não serão compartilhadas com a conta cuja publicação ou perfil você está denunciando.

Enquanto isso, as contas continuam sendo clonadas até que toda a população aprenda a lidar com isso, de tanto ter caído no golpe.

Fazendo um paralelo bem em dia, seria tipo deixar todo mundo tomar golpe, esperando pela "imunidade do rebanho".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL