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REPORTAGEM

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"Fiz lives no carro": videocasts da quebrada bombam e já atraem patrocínio

Videocast "Papo de Quebrada" valoriza artistas independentes das periferias de São Paulo - Clessio Meireles
Videocast "Papo de Quebrada" valoriza artistas independentes das periferias de São Paulo Imagem: Clessio Meireles
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

23/07/2021 04h00

Os assuntos mais comentados por moradores em grupos de Facebook e em lives inspiraram o autônomo Maykon Telles, 25, a criar o videocast "Papo de Quebrada", um programa de entrevistas que destaca artistas independentes e personalidades das periferias. Ele é um exemplo da explosão de videocasts na quebrada, que propõem valorizar os territórios periféricos.

O que chama a atenção na história de Maykon, morador de Jardim Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, é a forma como ele construiu a ideia do videocast. Foi a partir da produção de lives dentro do seu carro que surgiu os primeiros experimentos digitais para sentir a receptividade do público na internet.

"Comecei a fazer as lives no meu carro, um Palio 97, e gostava muito. Comecei a fazer muito sucesso nos grupos do Facebook e trocava ideia com eles. Mano, foi um bagulho muito legal", diz.

Ele percebeu que poderia produzir seus próprios conteúdos e ser referência para outras pessoas do bairro usando plataformas digitais de produção de narrativas.

Uma das inspirações para Maykon foi o videocast "Podpah", programa de entrevistas que recebe personalidades da música brasileira no YouTube. A ideia inicial era criar um podcast diário com a participação de MC´s de rap e funk para bater papo, enquanto eles cozinhavam algum prato. "Seria tipo uma 'Ana Maria Braga', aí eu chamaria os MC´s para ficar trocando ideia e fazendo comida", lembra.

A ideia não foi para frente por falta de dinheiro para bancar a produção do programa. Maykon percebeu que esse podcast iria exigir muitos gastos diários e então passou a desenvolver um olhar de negócio para o seu projeto.

"Imagina pegar e comprar comida todo o dia? Eu não tinha a noção que tenho hoje. Se tivesse, eu até conseguiria um parceiro para me conceder comida todos os dias. Em pouco tempo aprendi sobre marketing, sobre tanta coisa", afirma.

Ao final desse processo, Maykon optou por um formato de gravação em estúdio, saindo do seu Palio 97 para ocupar a casa da sua avó. "Eu tinha a casa do meu pai e da minha mãe só que nenhuma dessas casas chegava internet suficiente para fazer live com qualidade boa. Então fui conversar com minha avó, que era a única que tinha internet para o que a gente precisava", diz.

Além de seus familiares, ele teve apoio de seus amigos que acreditaram na ideia e emprestaram equipamentos de áudio, que hoje são a base do seu videocast "Papo de Quebrada".

"Trocando ideia sobre o projeto com o Alemão, um amigo meu que converso todos os dias, ele falou: 'Maykon, tenho cinco microfones, uma potência e uma mesa de som, eu consigo te ajudar'", lembra.

Desmistificar que a periferia só tem coisas ruins em seu cotidiano é um dos principais objetivos do videocast. "Como a mídia só mostra o lado ruim da quebrada, eu fiz o programa para mostrar o lado bom, mostrar os artistas que a quebrada tem", conta.

Maykon acredita na importância dos artistas 'da ponte pra cá' serem mais vistos e valorizados nas redes sociais. "Claro que vai vir uns caras famosos para impulsionar o canal, só que o foco é ajudar os caras que estão na quebrada. Muitos deles são bons e não estão sendo vistos", diz.

"Vamos colocar uma filosofia diferente: pegar um empresário e colocar na cabeça dele que não precisa só empresariar jogador de futebol. Ele pode cuidar da carreira de um MC, de um ator, de seja lá o sonho que a pessoa tiver. Fiz o podcast para isso", acrescenta.

Atualmente o estúdio do "Papo de Quebrada" está localizado no Parque Santo Antônio, no distrito do Jardim São Luís, zona sul de São Paulo. O espaço onde rola as gravações do videocast ganhou uma nova estrutura, com acréscimo do sistema Chroma Key, que permite inserir um cenário no fundo nas transmissões em vídeo.

Em menos de seis meses de atuação, o "Papo de Quebrada" já acumula parcerias com comerciantes da região, como pizzaria, hamburgueria, adega e tabacaria.

"Capaz de fazer o que quiser"

Em menos de um mês, o videocast "No Fundão" já está atraindo comerciantes de Cidade Tiradentes para patrocinar o programa - Anderson Alves - Anderson Alves
Em menos de um mês, o videocast "No Fundão" já está atraindo comerciantes de Cidade Tiradentes para patrocinar o programa
Imagem: Anderson Alves

O morador do Parque do Carmo Anderson Alves é apresentador e investidor do "No Fundão", videocast com estúdio localizado na Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo. Mesmo com os desafios de infraestrutura, como acesso a equipamentos e internet de qualidade, o projeto virou realidade em apenas duas semanas.

"Duas semanas depois de tomar a decisão de produzir o videocast, eu já estava comprando tudo. Aí tinha só o desafio de encontrar um lugar. Eu sempre quis que fosse na Cidade Tiradentes. A gente até cogitou ir para outros bairros, por questões técnicas de infraestrutura", lembra.

"A gente não achou uma empresa que tenha internet no nível que o programa exige, para ficar uma transmissão legal. Isso está limitando a gente agora, é um dos nossos maiores desafios", afirma.

O apresentador revela que descobrir os talentos artísticos da quebrada acaba sendo uma grande fonte de energia para manter o projeto de pé.

"Tem muito mais que a gente imaginava, muito talento descoberto, muita voz calada. A maioria es ali na luta buscando um espaço na mídia, é o sonho de todo artista, seja qual for o nicho. E a gente está dando um pouquinho de espaço para cada um", diz Anderson.

No momento, o produtor não conta com técnico de áudio ou alguém formado em produção de conteúdo digital para mexer nos equipamentos. A saída tem sido pedir suporte para amigos que têm mais experiência no ramo.

"Pedimos muita ajuda de gente que entende e que é técnico, por meio de ligações pelo telefone ou chamada em vídeo. Eles dizem: 'faz assim ou assado que na internet tem um programinha que faz isso'. Mas nenhum de nós sabe lidar com equipamentos e tudo mais", diz.

O "No Fundão" já está recebendo investimentos de comércios das periferias da zona leste. "A gente conseguiu fechar nosso primeiro patrocínio. Estamos correndo atrás de um outro patrocinador", afirma.

Anderson e sua equipe ainda estão aprendendo a mexer nos equipamentos, mas os planos de futuro são promissores, pelo fato de já ter montado o próprio estúdio e conseguir parceiros para apoiar a produção do programa.

"Eu não imaginava fazer e dar conta de conduzir um programa. Nós vemos agora que somos capazes de fazer o que quisermos. A gente é capaz de testar, se adaptar e aprender qualquer coisa", finaliza.