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REPORTAGEM

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Jovem transforma NFT e criptomoedas em cestas básicas para favela do Rio

Artista visual Gean Guilherme atua com tecnologias imersivas nas favelas do Rio de Janeiro - Kristin Bethge
Artista visual Gean Guilherme atua com tecnologias imersivas nas favelas do Rio de Janeiro Imagem: Kristin Bethge
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Flávia Santos e Ronaldo Matos (edição)

05/08/2022 04h00

Durante a pandemia, Gean Guilherme, 22, morador do morro Santo Amaro, favela na zona sul do Rio de Janeiro, uniu a fascinação e a criatividade para fazer artes digitais em NFT para serem comercializadas em plataformas de criptomoedas. Metade do recurso arrecadado era convertida em dinheiro para comprar cestas básicas e depois serem doadas aos moradores do território onde ela mora.

"A primeira ação foi para a compra de alimentos. A gente conseguiu arrecadar em criptomoedas e transformar em cestas básicas. Foi aí que percebi que era possível fazer alguma coisa com aquilo", diz o artista visual.

A partir desta ação solidária, ele criou o projeto SocialCriptoart, iniciativa que reúne suas criações artísticas em uma plataforma digital. Aqui, o público pode se cadastrar para adquirir as suas obras usando criptomoedas, que também são utilizadas para a distribuição de alimentos nas favelas.

"Qual é o processo? Quando você vende uma parada, recebe em criptomoedas. Aí existe um processo de conversão, de transformar essas moedas em reais para poder sacar", afirma o jovem.

A criptomoeda que vira Pix

Segundo Gean, a conversão da criptomoeda para o valor em real é quase instantânea. Ele envia o valor para a corretora onde ele está cadastrado. Após a confirmação, a corretora cobra uma taxa e, em seguida, transfere o valor via Pix ao destinatário.

Um dos trabalhos que o jovem artista se orgulha de ter produzido é uma releitura em NFT da capa do álbum "Sobrevivendo no Inferno", dos Racionais MC's. A venda desta criação resultou em doações de recursos em dinheiro para o Instituto Ademafia de Cultura e Esporte, do bairro da Glória, zona sul do Rio

A vivência profissional e cultural para produzir esse tipo de arte digital custou caro para Gean.

Mesmo com tudo aparentemente dando certo, ele percebeu num certo momento que estava se cansando e fazendo suas artes com menos frequência. Foi aí que refletiu e pensou na possibilidade de convidar outros artistas e designers para se juntar a ele.

"Se eu não tiver tempo para fazer as artes, não vai ter venda e não vai ter dinheiro para projeto algum. Aí eu pensei em transformar: ao invés daquilo vir só de mim, poderia surgir de várias outras pessoas para descentralizar essa responsabilidade social que eu estava agarrando", diz.

Com a ajuda de outros artistas, ele teve a oportunidade de reunir uma série de novos tokens para que fossem vendidos e seus valores serem distribuídos diretamente para iniciativas sociais das favelas e periferias.

"É um jogo sinistro, mas é maneiro, porque deu independência para muitos artistas. Basicamente eu só usava meus 3Ds para postar no Instagram e ganhar like. Hoje em dia coloco nas plataformas e consigo tirar uma grana", afirma.

De todos seus tokens produzidos, o que mais rendeu e se converteu num lucro grande foi o "Menor Portando", que na época foi vendido por 500 tesos, valendo quase US$ 2 mil na época. O negócio aconteceu em um momento que Gean não estava conseguindo ter vendas.

"Tem que ser sagaz no que está fazendo, eu já errei muito e continuo errando. Já fui roubado. Minha sorte é que não era o dinheiro da social porque eu já tinha tirado antes para fazer a ação. Só que lutei para caraca para ter aquilo ali", diz.

Popularizar NFT nas favelas

O artista e designer diz que seu foco é o social. Para ele, não é só questão de falar de tecnologia futurista para todos. A ideia é também explicar, educar e formar o público jovem sobre tecnologia futurista e usar esse recurso na perspectiva de um olhar periférico.

"Nosso maior objetivo é a educação, porque a galera nem imagina o que é e acaba colocando muita coisa na cabeça. Eles não têm um olhar para esses usos da tecnologia, um olhar social", diz.

Ainda pouco difundida nas periferias e favelas do Brasil, a sigla NFT significa token não fungível, uma imagem digital única e exclusiva criada com recursos de software e plataformas digitais na internet que é protegida por meio de códigos de criptografia, método de identificação que impede a criação de cópias.

Para se apropriar mais sobre o assunto, o jovem de 22 anos investiu tempo e dedicação para estudar sobre os impactos da futurologia na favela, um campo de pesquisa sociológica que busca identificar tendências de comportamento da sociedade.

Em meio a esse processo, Gean conseguiu definir uma série de projetos para ampliar a popularidade dos NFTs nas favelas do Brasil, bem como da sua atuação como artista visual que usa tecnologias tridimensionais para desenvolver novas formas de enxergar a favela.

Um desses projetos consiste na criação de uma loja virtual de NFTs que funcione como um marketplace, visando reunir obras de artistas brasileiros e estrangeiros para vender tokens que resultarão em benefícios sociais voltados para os moradores das periferias.

Gean Guilherme entende e considera delicado trazer o tema da tecnologia NFT para a periferia, pois essa realidade é ignorada por políticas públicas. Mas com seu trabalho tem buscado pelo menos tentar mudar a perspectiva da juventude da quebrada, para ela voltar a sonhar, fazendo surgir oportunidades para a população.

"O foco é criar perspectiva nesses lugares que a gente nem sempre sabe se vai ficar vivo. A criação de futuro da favela com sensibilidade pode movimentar o morro", afirma.