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"Vi e achei da hora": artistas da quebrada ganham reconhecimento no TikTok

Professor de dança inicia a gravação de mais uma coreografia para o seu canal no TikTok - Mano Batom
Professor de dança inicia a gravação de mais uma coreografia para o seu canal no TikTok Imagem: Mano Batom
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

16/06/2021 04h00

A pandemia causou o fechamento de espaços públicos de cultura nas periferias de São Paulo. Com isso, o dançarino, coreógrafo e professor de dança Matheus Oliveira, morador do Jardim Tupi, bairro da zona sul de São Paulo, transformou o seu perfil no TikTok em um espaço virtual para ganhar visibilidade e atrair seguidores interessados em valorizar o seu trabalho artístico.

Esse caminho, segundo ele, foi uma forma de combater o 'horror' causado pela pandemia. "Esse momento de pandemia está sendo um horror total, não só para mim como também para diversos profissionais na área pelo fato de os estúdios estarem fechados e as aulas presenciais não estarem rolando", afirma.

Muitos colegas de Oliveira optaram pelas aulas online, no entanto, ele acredita que isso tem um preço para quem ensina e para quem quer aprender. "Não é a mesma coisa. O contato direto se faz necessário para que as coisas aconteçam devidamente e da melhor forma possível", diz.

O artista da dança conta que encontrou através das gravações de suas coreografias para publicação no TikTok um meio para divulgar seu trabalho. "As redes sociais têm sido um meio muito efetivo, pois vem chegando mais pessoas que curtem e passam a acompanhar."

Matheus vem apostando em produções constantes de vídeos por acreditar no poder de engajamento do TikTok. "Cheguei no TikTok na segunda semana de janeiro através de alguns amigos. O engajamento lá é relativo, pois depende de diversos fatores, mas felizmente eu venho tendo bons resultados: a galera se mostra presente, comentando, e novos seguidores chegam constantemente. Posso dizer que estou feliz com o avanço", afirma.

O perfil do dançarino (@ochokz) conta com mais de 38 mil seguidores. Em menos de seis meses de trabalho, ele já acumulou mais de 190 mil curtidas em suas publicações.

À base do "faça você mesmo", todos os seus vídeos que registram as suas coreografias são gravados pelo celular e editado por um aplicativo chamado Inshot.

Além de gravar, ele também produz o próprio roteiro das coreografias, um acúmulo de funções que vale a pena, pois os conteúdos viralizam rápido.

"Existem os challenges, que são os que mais viralizam na plataforma. Eles não exigem muito tempo de preparo, ainda mais por serem curtos e fáceis. Para pegar e gravar são poucos minutos. No geral não é trabalhoso, exceto pelo suporte necessário, como ter alguém para gravar e os equipamentos", lembra.

"Gosto de fazer algo diferente"

"Eu via muitos amigos comentando e pedindo para eu baixar pela conta deles, aí eu tive curiosidade e criei. Depois eu fui achando os vídeos interessantes, então comecei a mostrar um pouco do bairro onde moro. Achei legal e comecei a produzir mais vídeos", diz Rodrigo Santos, 26, morador do Parque Cerejeira, região da M'Boi Mirim, zona sul de São Paulo.

Em seu perfil @digocods, o morador mostra vídeos utilizando dublagens da quebrada. "Eu gosto de assistir a um vídeo de alguma dublagem para ver se é legal mesmo e se encaixa comigo. Eu estudo primeiro e depois começo gravar", afirma.

Santos costuma ser exigente para garantir um padrão de qualidade de seus conteúdos. "Às vezes, eu gravo um, e se eu não gosto, vou fazendo até achar um que eu me identifico. Gosto de ser bem chato nessas partes. Em uma dublagem, se vejo que uma fala não ficou encaixada direito, já faço de novo", afirma.

O dublador leva em média dez minutos para gravar um vídeo com boa aceitação dos seguidores.

Um único vídeo do tiktoker já chegou a quase um milhão de visualizações. "Eu tenho uns quatro ou cinco vídeos que tiveram muitas visualizações, mas eu tenho um que chegou a quase um milhão".

O dublador vê nessa exposição que a rede social permite uma maneira de abordar a sua visão sobre a subjetividade do morador da quebrada. "Eu gosto de fazer algo diferente, do meu estilo, do meu jeito", afirma.

Jovens em seu bairro o reconheceram na rua por causa de seus conteúdos, um fato que marcou a sua trajetória. "Já vi meninos aqui, moleque novinho, que falou assim: 'Ai Digo, eu vi seu vídeo lá no TikTok. Vou gravar uns também. Achei da hora'. Acho que é um incentivo para eles não estarem fazendo nada de errado. O TikTok já é uma distração", conclui.