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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Na crise, pai reúne a família para criar delivery de comida pelo WhatsApp

Francisco Rodrigues transformou a laje de sua casa na cozinha do seu delivery de yakissoba - Flávia Santos
Francisco Rodrigues transformou a laje de sua casa na cozinha do seu delivery de yakissoba Imagem: Flávia Santos
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Flavia Santos e Ronaldo Matos (edição)

30/11/2021 14h58

Ao pensar nos desafios que a pandemia trouxe para a rotina da sua família, Francisco Rodrigues, o Chico, 46, morador de Cidade Ipava, zona sul de São Paulo, viu a possibilidade de criar um empreendimento, correndo o risco de não dar certo e trocar o que já tinha em mãos pelo que ainda era duvidoso.

"Começou essa pandemia, a gente estava em casa sem fazer nada, sem trabalhar. Aí tivemos que encarar com a experiência que a gente tem, que é trabalhar com a culinária japonesa, e graças a Deus até hoje estamos aí", diz o morador. E assim nasceu o "Yakissoba do Chico", que há quase dois anos tem fortalecido e mantido de pé a família Rodrigues, além de gerar renda e emprego para jovens da quebrada.

O Yakissoba do Chico não tem um salão de atendimento ao público, e funciona somente no formato de delivery. O atendimento ao público é realizado no formato online, por meio de vendas pelo WhatsApp. O local de produção fica em cima da casa da família, onde os pratos são feitos.

A história do Chico com a culinária japonesa começou em 1997, quando ele decidiu ir embora da sua cidade natal, Graça, no Ceará, para São Paulo em busca de um emprego fixo e estabilidade.

No mesmo ano, ele arranjou trabalho em um restaurante de culinária japonesa bem conhecido na época, localizado na avenida Paulista, onde atuou por 19 anos. Ele começou lavando louças e ganhando pouco. Depois virou ajudante de cozinha e, em seguida, cozinheiro. Saiu do restaurante como chefe de cozinha.

Foram mais de 24 anos de experiência em restaurantes de culinária japonesa. No começo da pandemia, trabalhava na cozinha de um restaurante de shopping. Ali, Chico ficou sem receber salário por alguns meses. Isso fez com que ele resolvesse abrir seu próprio empreendimento.

Chico é casado com Elizabete Maria há quase 30 anos e pai de seis filhos: Renato, 26 anos; Bruno, 24; Thiago, 22; Aline, 21; Jennifer, 16; e Isabelli, de 3 anos.

Dos seis filhos, cinco trabalham no Yakissoba: o Renato como motoboy, o Bruno como sushiman, Thiago como auxiliar de cozinha, Jennifer como empacotadora e Aline como administradora e gerente.

A gestão das vendas e entregas é realizada por uma das filhas do chefe de cozinha - Flavia Santos - Flavia Santos
A gestão das vendas e entregas é realizada por uma das filhas do chefe de cozinha
Imagem: Flavia Santos

Além dos filhos, Chico também contratou outros dois moradores do bairro, que atuam no atendimento aos clientes e como entregadores.

Apesar de ter sido criado por necessidade, o que mais motivou Chico —e motiva até hoje— é o fato de trabalharem em família. "Para entrar nesse ramo, não dá para fazer tudo sozinho, tem que trabalhar em família. Aí já junta todo mundo e faz um pacote só", diz.

Quando começou o negócio, Chico foi incentivado por sua filha Aline a continuar e não desistir, mesmo com as dificuldades que surgiam.

As dificuldades enfrentadas pela família aumentaram ao longo da pandemia. Agora, um dos obstáculos é o aumento do preço de todos os materiais e produtos usados no negócio.

"O filé mignon, que a gente pagava R$ 23 o quilo, agora está R$ 45. O salmão que era R$ 30, agora eu pago R$ 55", afirma.

Apesar desse aumento, Chico não reajustou os preços de seus produtos porque teme perder seus clientes. Antes, Chico não cobrava a taxa de entrega. Mas com todo esse cenário, precisou mudar a estratégia e cobrar uma pequena tarifa.

Com isso, o lucro é menor e o desânimo, maior.

"É um desafio a gente continuar trabalhando, porque tem que correr atrás para encontrar promoções, mas não tem aparecido. A gente vai batalhando como pode, às vezes a gente fica até desanimado. Só que não pode, tem que continuar, apesar de não ser fácil", diz.

Chico hoje trabalha com sua família e passa mais tempo perto de seus filhos, o que por muitos anos não conseguiu, pois saía muito cedo e chegava muito tarde em casa, trabalhando em dois períodos.

Agora ele consegue aproveitar o convívio com a filha caçula Isabelli, participando mais do processo de criação e troca de afeto. "Eu nunca tive tempo em casa, só no dia da folga. Mas aí tinha coisa para resolver e passava rápido. Não tinha tempo com eles", afirma.

Chico é um pai que incentiva seus filhos a desenvolverem habilidades e busca todos os dias a melhoria de vida da família, sempre acreditando que esses aprendizados irão fortalecer seus filhos num futuro próximo.

"O que eles estão aprendendo agora comigo vai ajudá-los daqui a alguns anos. Até porque daqui a um tempo eu não vou estar mais aqui. E a história continua".