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Quebrada Tech

REPORTAGEM

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Sem dominar a tecnologia, geração X da periferia teme até tocar no celular

Rita de Cássia, 50, não sabe mexer no celular e pede ajuda a sua filha - Flávia Santos
Rita de Cássia, 50, não sabe mexer no celular e pede ajuda a sua filha Imagem: Flávia Santos

Flávia Santos e Ronaldo Matos (edição)

01/04/2022 04h00

A empregada doméstica Rita de Cássia, 50, moradora do Jardim São Francisco, na zona sul de São Paulo, sente na pele o choque cultural de ter nascido em um mundo analógico e hoje vivenciar as relações humanas conectadas pelo celular e pelo acesso à internet. Ela faz parte da geração X (nascidos entre 1960 e 1980), grupo que representa 26% da população brasileira.

Seja para empreender, ir ao médico, pagar uma conta ou simplesmente acessar a internet, a geração X nas periferias enfrenta uma série de barreiras de acessibilidade digital que comprometem sua autonomia.

Rita de Cássia tem duas filhas, trabalha como diarista durante a semana e, no sábado e domingo, complementa a renda vendendo doces, lanches e petiscos em uma barraca em frente à sua casa. Além da correria de sua rotina, ela ainda tem que lidar com o fato de não saber se conectar à internet, sempre dependendo de alguém para ajudá-la a realizar suas tarefas.

"Eu não sei mexer em nada no celular. Se eu for comprar alguma coisa, peço para minha filha. Tudo que eu for fazer, tenho que pedir para ela. Mas às vezes ela não está naqueles dias bons, aí ela fica estressada e eu fico nervosa", diz.

Ela conta que todas as atividades no aplicativo do banco são feitas pela filha Monique. Não há sequer uma função que ela saiba mexer e, mesmo que soubesse, raramente conseguiria lembrar as senhas exigidas pelo aplicativo.

"Ela coloca umas senhas e eu nunca consigo gravar, então é só ela que mexe. Aí eu tenho medo de mexer e transferir errado", afirma.

Rita depende que sua filha esteja em casa para fazer qualquer movimentação no celular. Quando Monique não está, ela não se arrisca sequer a mexer no smartphone. E quando precisa que seja rápido, vai até o banco buscar ajuda. "O gerente me ensina", diz.

Ela afirma que não é por falta de vontade. As filhas já tentaram ensiná-la várias vezes como acessar e manusear os apps, mas ela tem muita dificuldade em lembrar de tudo. "Não entra", resume.

Prefere fila do banco a usar Pix no celular

Maria Jacira, a "dona Fia", 62, moradora da Cidade Ipava, zona sul de São Paulo, também enfrenta desafio semelhante. Há mais de 25 anos ela tem um bar no bairro e atualmente vende feijoada aos sábados.

Por trabalhar com vendas, Maria sempre ouve os clientes perguntarem se ela aceita Pix como forma de pagamento, mas explica que não tem e não confia nisso. Na maioria das vezes, perde a venda.

"Tenho medo, por causa dos roubos que acontecem hoje em dia. Então não uso de jeito nenhum", afirma.

Ela também evita qualquer tipo de movimentação financeira com o cartão fora do banco. "Prefiro enfrentar uma bruta fila e ser atendida lá dentro", conta.

"Não tenho coragem de usar o cartão no caixa eletrônico do lado de fora de jeito nenhum. Até porque eu não sei. nem dinheiro eu sei tirar", diz a moradora. Pedir ajuda para qualquer pessoa está fora de cogitação: ela tem receio de cair em golpes.

Maria Jacira - Flávia Santos - Flávia Santos
Maria Jacira acredita que, por não saber mexer no celular, o risco de ser roubada é maior
Imagem: Flávia Santos

Por assistir muito jornal na televisão, a dona de casa leva em conta todas as notícias que saem referente ao Pix. Segundo ela, nunca são boas. Fora as conversas com irmãos e vizinhos, cheia de relatos negativos.

"Já aconteceu com meu irmão da pessoa falar que fez o Pix e, quando foi ver, não fez. Minhas colegas também reclamam, e eu já vi na televisão. Por isso, não quero", afirma.

A dona de casa mora sozinha e depende também da internet móvel para mexer no celular. Por isso, muitas vezes o aparelho fica de canto.

"Tenho meu celular vai fazer 10 anos e não sei mexer em nada. Queria saber entrar na internet e fazer um Facebook. Já pelejei, já tentaram me ensinar, mas não consigo. E tudo eu tenho que pedir, é chato. Só uso o celular para ligar. Mandar áudio eu ainda sei, mas só isso", afirma.

Já aconteceu de Maria receber um SMS que informava a data, horário e nome do hospital onde ela faria uma consulta médica, mas por não saber identificar o aplicativo de mensagens, a concorrida consulta no sistema público de saúde quase deu errado.

"Se minha filha não tivesse visto, eu não teria nem ido", conta. Mas o SMS também veio incompleto. "Descobri só na hora que era uma endoscopia e não fiz porque não estava de jejum e nem com acompanhante", afirma Maria.

"Ficou muito ruim com esse negócio de ser tudo pelo celular. Eu vou longe, vou atrás, enfrento fila, ônibus, sol quente, porque não sei mexer no celular", diz.

Dificuldade em entender as imagens na tela

Segundo Magno Ozzyr, 36, gerente de projetos de tecnologia que atua com soluções digitais para empresas e organizações do terceiro setor, é preciso entender os fatores de cultura e de segurança de cada um, como indivíduo.

Pessoas da terceira idade possuem uma visão diferente do que entendemos hoje como aplicativo, banco digital e funções modernas que facilitam o nosso controle.

"É sempre bom ter alguém administrando ali sua conta, alguém que você consiga reclamar. E essa pessoa acaba não entendendo que ela pode ter essa relação com o aplicativo. Eu posso fazer uma reclamação por ali, posso abrir um chamado por ali e até ser atendido de forma imediata", diz.

Outro ponto que Ozzyr levanta é a dificuldade dessas pessoas em abstrair as imagens que aparecem no celular. A forma como elas enxergam um aplicativo é diferente. Quem está acostumado sabe o que aqueles ícones significam, mas quem é leigo só vê formas ou figuras. Não há compreensão do seu significado simbólico.

"Esses ícones ou figuras não têm relação com o que essas pessoas viam na sua juventude ou infância. É muito difícil você trazer uma noção completamente nova de interação através de um dispositivo, sem explicar essas abstrações", diz. "Imagina que você está vendo um monte de risquinho preto na tela e não diz nada para você", diz.

Aspectos de desigualdades sociais também afetam os moradores das periferias que enfrentam essas barreiras de acessibilidade.

"A gente tem situações de pessoas sem esgoto, sem acesso a água. Pessoas que não tiveram acesso a água nas suas primeiras fases de vida têm um desempenho cognitivo menor do que a maioria das pessoas", diz.

"A tecnologia do país é muito boa, o problema é que ela não é para todos", conclui.