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REPORTAGEM

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O que está fazendo entregadores abandonarem apps de delivery na quebrada

Sistema das plataformas de delivery também dificulta serviço de entrega, diz entregador - Reinaldo Canato/UOL
Sistema das plataformas de delivery também dificulta serviço de entrega, diz entregador Imagem: Reinaldo Canato/UOL
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

03/03/2021 04h00

Por Thamires Rodrigues

Entregadores afirmam que aplicativos de entrega não levam em consideração a qualidade da internet nas periferias. Além disso, eles contam que a alta demanda de entregadores tem precarizado ainda mais a remuneração e a qualidade de vida de quem trabalha com delivery na quebrada.

Através de um anúncio nas redes sociais, Christopher Augusto, 22, morador do bairro Parque Santo Amaro, zona sul de São Paulo, conheceu as possibilidades de gerar renda se cadastrando nos aplicativos de delivery Lalamove, iFood e Uber Eats. O entregador diz que foi como "um anúncio chamativo e que nos oferece uma boa renda".

Ele avalia essa descoberta não como uma escolha e sim como o único meio encontrado para não passar dificuldades diante de uma alta taxa de desemprego no país. "A falta de emprego de carteira assinada é uma das causas. Em meio à pandemia, [trabalhar com apps de delivery foi] uma das soluções encontradas para não passar dificuldade", afirma.

Além de fazer entregas nos aplicativos durante o dia, Augusto trabalha em uma pizzaria a noite. "Se formos depender só do aplicativo para sobreviver, vamos ter que trabalhar como um escravo, tá ligado", diz.

O argumento de Augusto se baseia na quantidade de horas necessárias para se ter uma renda média mensal que possa arcar com o pagamento dos boletos e gastos fixos com a família. "É preciso trabalhar de 12 a 14 horas por dia para manter um salário que possa nos ajudar a pagar nossas dívidas".

Augusto diz que a concorrência por realização de entregas é outro fator que tem intensificado a precarização dos trabalhadores de aplicativos de delivery. "A demanda de motoboy está muito alta, querendo ou não, se tornou uma concorrência", afirma.

Segundo Augusto, as despesas com gasolina e internet por mês giram em torno R$ 700 a R$ 800, sendo que seu salário no mês, fora as despesas, fica em torno de R$ 1.500. Segundo o entregador, mesmo tendo um plano de internet para trabalhar, muitas vezes o serviço deixa a desejar, causando interrupção da sua rotina de trabalho.

"Você chega à casa do cliente, no endereço determinado, quando você vai finalizar a entrega muitas vezes não tem internet, não dá para finalizar a corrida. Muitas vezes a casa do cliente é em tal lugar e a localização dele é mais para frente, aí você vai finalizar e não consegue também. Então são algumas coisas que dificultam, até mesmo da parte da plataforma dos aplicativos", diz.

Outra dura realidade apontada por Augusto é o tratamento diferenciado vivenciado pelos entregadores com usuários de apps que vivem na região central de São Paulo e nas periferias. Ele relata que sua entrega nas periferias e no centro da cidade têm recepções totalmente diferentes, sendo que na quebrada o seu trabalho é mais valorizado.

"Nós sentimos que ao chegar à periferia, você dá uma boa noite, bom dia ou boa tarde para o cliente e já é automático que ele vai te responder, vai perguntar se você está bem. Não é criar uma amizade entre o cliente e um motoboy, é respeito e humildade", afirma Augusto.

"Eles enxergam a gente como escravos do sistema, né? Tipo 'eu tô te pagando e você é obrigado a fazer isso', 'eu sou obrigado a falar com você e já era'. Até a forma de expressão da pessoa, o olhar da pessoa... Pô, a cara de nojo! Já na periferia não é assim, querendo ou não somos de dentro, então um tem que respeitar o outro" afirma.

Correção do valor pago

O entregador faz uma comparação com a alta dos preços de combustíveis e a estagnação do valor das taxas de entrega, que não são corrigidas pelas empresas de delivery.

"Eu espero que eles reconheçam o nosso serviço. Da mesma forma que teve aumento de preço do combustível, que tenha um aumento nas nossas taxas de entrega. Sinceramente, somos explorados", diz.

Os aplicativos não trazem benefícios que garantam a segurança dos entregadores. Assim, segundo Augusto, é a própria comunidade que se organiza para auxiliar os entregadores na busca de seus direitos trabalhistas.

"Temos uma comunicação um com os outros, agimos como uma família. Se nos deparamos com motoqueiro acidentado, paramos para dar uma assistência", diz.

Ao lembrar a importância dos direitos trabalhistas que ainda precisam ser conquistados, o entregador deixa um recado para os aplicativos de entrega: "gostaria que nossos serviços fossem reconhecidos, e que seja dado mais segurança, com uma demanda de tempo correta e uma assistência a todos para que possamos ir adiante sem tanta exploração".

Autonomia na jornada de trabalho

Atuando como entregador nos aplicativos iFood e Uber Eats, Paulo Henrique, 25, morador do Parque Pinheiros, município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, afirma que uns dos principais motivos para sair de um emprego com registro em carteira e se tornar entregador de aplicativos foi a possibilidade da autonomia na jornada de trabalho.

"Eu saí de um trabalho com carteira assinada só para fazer entregas pelo app. Posso não ter um salário e benefícios garantidos, mas a liberdade é maravilhosa, trabalhar na hora e no dia que quero", afirma.

Porém, Henrique sente as consequências da escolha pela autonomia de fazer o seu horário de trabalho. Ele lista algumas dificuldades que ficam cada vez mais evidentes e caminham lado a lado com sua a rotina de entregador.

"Estar à mercê de vários fatores externos que podem me prejudicar, como chuva, enchentes, entregas em lugares perigosos e a falta de pedido que está acontecendo com frequência".

O entregador foi se adaptando com os desafios impostos também pela tecnologia de geolocalização dos aplicativos, que em muitos casos é imprecisa. "Muitos estabelecimentos têm a localização diferente da que mostra no app, daí até eu me acostumar com certos restaurantes passei alguns perrengues".

Ao contrário de Augusto, Henrique utiliza um plano de internet bom, pois nunca teve problemas durante a entrega. "A internet está sempre disponível em todos os lugares", afirma.

Mas quando se trata da recepção dos clientes em territórios da periferia e centro, as vivências dos entregadores não são muito diferentes.

"Bairro rico mal olha na minha cara, enquanto na periferia sou bem acolhido pelos clientes. O rango chegou? Aí eles ficam felizes e são bem legais, dão boa noite, boa tarde", diz.

Henrique conta uma dinâmica comum na rotina do motoboy e que representa mais um desafio imposto pelos aplicativos. "Às vezes quase não tem pedido em alguns aplicativos, e é comum o motoboy trabalhar para mais de uma plataforma. Eu mesmo faço entregas para o iFood, Uber e, às vezes, para o Rappi. Isso é bom porque assim são três vezes mais chances de eu ter entrega para fazer. Mas o ruim, é que alguns aplicativos não autorizam o mesmo motoboy trabalhar para o concorrente, então já até ouvi casos de motoboys serem bloqueados em certas plataformas por terem mais de um aplicativo de entrega", diz.

Durante o seu tempo livre, o morador de Taboão da Serra se dedica a desenvolver seu conhecimento com o audiovisual e a música. "Quero ser artista rico e famoso, mas até lá, preciso desenvolver muito minha arte. Por enquanto, vou focar nas entregas", diz o motoboy.
E finaliza com um recado para as empresas de aplicativo: "aumenta nosso salário, poxa".