PUBLICIDADE
Topo

Para onde o mundo vai

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que tem mais gás do efeito estufa no ar se a emissão caiu na pandemia?

Gerhard G./ Pixabay
Imagem: Gerhard G./ Pixabay
Conteúdo exclusivo para assinantes
Daniel Schultz, Monica Matsumoto, Shridhar Jayanthi, Guilherme Pimentel , Luiz Gustavo Martins e Cristina Schultz

sobre os colunistas

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. É formada em engenharia pelo ITA, doutora em ciências pela USP e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi

Shridhar Jayanthi é agente de patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO). Tem doutorado em engenharia elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de engenheiro de computação pelo ITA. Atualmente, trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Guilherme Pimentel

Guilherme Pimentel é pesquisador no instituto de física da Universidade de Amsterdã na Holanda, onde trabalha com novas teorias para explicar a expansão acelerada do Universo. Possui graduação em engenharia eletrônica, mestrado em física pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e doutorado em física na Universidade de Princeton. Sua pesquisa é focada em cosmologia e física de partículas.

Luiz Gustavo Martins

Luiz Gustavo Martins é engenheiro químico, mestrado em física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é doutorando no MIT (Massachusetts Institute of Technology), na área de física do estado sólido experimental, onde trabalha espectroscopia óptica em materiais bidimensionais (com poucos átomos de espessura) e física de altas pressões.

Cristina Schultz

Cristina Schultz é oceanógrafa formada pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado em meteorologia pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e doutorado em oceanografia química pelo WHOI (Woods Hole Oceanographic Institution) e o MIT (Massachusetts Institute of Technology). Atualmente é cientista visitante na Universidade de Princeton, no NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) e no Geophysical Fluid Dynamics Laboratory (Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos). Sua pesquisa combina o uso de dados coletados em cruzeiros oceanográficos, dados de satélite e modelos climáticos para entender as consequências das mudanças climáticas na química do oceano e no ecossistema marinho.

Cristina Schultz

27/06/2021 04h00

Durante o ano passado, por conta das limitações impostas pela pandemia de covid-19, a demanda global de energia diminuiu 4% em relação a 2019 (último ano pré-pandemia), e algumas atividades altamente poluentes também diminuíram drasticamente. Tráfego aéreo, por exemplo, diminuiu 50% no mesmo período.

Seguindo na mesma linha, a emissão global de gás carbônico, principal causador do aquecimento global, também caiu 5,8%. Paradoxalmente, no entanto, a concentração desse gás na atmosfera continuou aumentando e atingiu 419 ppm (partes por milhão), uma quantidade não observada há mais de 3 milhões de anos. Se as emissões diminuíram, por que a concentração de CO2 continuou batendo recordes?

Um conceito importante em estudos ambientais que ajuda a entender o baixo impacto da pandemia em reduzir a quantidade de gás carbônico é o chamado tempo de residência, que é uma estimativa de quanto tempo um composto permanece em um determinado reservatório.

Esse conceito é utilizado para estudar quanto tempo um poluente permanece num rio, por exemplo, ou, nesse caso, quanto tempo o gás carbônico permanece na atmosfera.

Para entender o tempo de residência, imagine uma piscina de bolinhas. Agora imagine que uma criança dentro da piscina comece a jogar as bolas para fora, e que uma pessoa fora da piscina reponha as bolas que foram retiradas.

Se a velocidade com que as bolas são repostas for a mesma com que elas são retiradas, a quantidade de bolas na piscina é considerada em estado estacionário, o jeito científico de dizer que essa quantidade é constante.

A quantidade de tempo que cada bola permanece na piscina vai variar para cada bola: uma bola pode ser retirada assim que entrar na piscina, enquanto outra fica "esquecida" por um bom tempo. Mas, na média, a quantidade de tempo que uma bola passa dentro da piscina (o tempo de residência) vai depender do tamanho da piscina e da velocidade com que as bolas são retiradas ou repostas.

Usando essa analogia e considerando que a piscina de bolinhas representa a atmosfera e que cada bola representa uma certa quantidade de gás carbônico, num estado estacionário a pessoa que repõe as bolas representa todos os processos naturais que adicionam gás carbônico na atmosfera, como respiração por (quase) todos os seres vivos, e a pessoa que retira as bolas representa processos que transferem esse gás para outros reservatórios, como fotossíntese (que transfere CO2 para plantas).

O tempo de residência do gás carbônico na atmosfera é estimado entre 3 e 5 anos, uma quantidade de tempo relativamente baixa já que esse gás é muito utilizado por estar envolvido em reações essenciais para a vida.

Esse tempo de residência relativamente baixo é o equivalente a ter tanto a pessoa que retira quanto a pessoa que repõe as bolas na piscina trabalhando rapidamente, o que não altera a quantidade total.

Com a queima de combustíveis fósseis, no entanto, um reservatório de gás carbônico que não estava envolvido nas trocas passa a ser considerado, e há um aumento na quantidade que é adicionada na atmosfera sem que haja um aumento semelhante na quantidade retirada, o que é equivalente a duas pessoas adicionando bolas enquanto apenas uma as retira da piscina.

Diminuir a quantidade de gás carbônico emitida, portanto, faz com que a quantidade de gás carbônico na atmosfera aumente mais lentamente, mas não diminui a quantidade que já está lá.

Os dois grandes fluxos que retiram CO2 da atmosfera são fotossíntese e dissolução no oceano. Atualmente, por conta de desmatamento, o balanço fotossíntese/respiração pode até contribuir para o aumento da concentração na atmosfera.

É verdade que desde o início da revolução industrial, o oceano absorveu uma quantidade considerável do excesso de gás carbônico emitido pela queima de petróleo (cerca de metade), aumentando o fluxo de gás retirado da atmosfera.

Esse excesso de carbono transferido para o oceano tem consequências importantes, já que o gás carbônico age como um ácido em contato com a água. Assim, o oceano tem se tornado mais ácido e mais saturado com CO2, diminuindo a quantidade extra de gás que pode ser absorvida.

Além disso, para que o carbono dissolvido na água seja considerado de fato retirado da atmosfera, seria necessário que fosse transferido para o fundo do oceano. Esse processo depende da circulação oceânica e levaria de 500 a mil anos, o que não resolve o problema imediatamente.

Para que a concentração atmosférica diminua, portanto, são necessárias ações que aumentem a quantidade de carbono em outros reservatórios, como reflorestamento.

Atualmente, diversas tecnologias de captura e armazenamento de carbono têm recebido mais atenção e investimento, mas por ora nenhuma delas tem eficiência ou custo baixo o suficiente para ser implementada em larga escala.

Até lá, nossa melhor opção é investir em energias renováveis e outras tecnologias que diminuam a emissão de gases de efeito estufa o suficiente para que a concentração desses gases na atmosfera pare de aumentar.

Enquanto frear totalmente o aquecimento global não é um objetivo possível, diminuir o tamanho do problema certamente é uma possibilidade.

Um outro problema ambiental que diminuiu consideravelmente com a diminuição da queima de combustíveis fósseis foi a poluição.

Tanto a atmosfera quanto os rios e o oceano próximo à costa tiveram uma diminuição notável na quantidade de poluentes, o que melhora a qualidade de vida de muita gente de maneira imediata e mostra que combater o aquecimento global pode trazer melhorias imediatas para nossas vidas por outras vias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL