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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Combate ao buraco na camada de ozônio é exemplo de sucesso a ser seguido

Estudo da composição da atmosfera contribuiu para identificar buracos na camada de ozônio - Nasa/ Langley Research Center
Estudo da composição da atmosfera contribuiu para identificar buracos na camada de ozônio Imagem: Nasa/ Langley Research Center
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Daniel Schultz, Monica Matsumoto, Shridhar Jayanthi, Guilherme Pimentel, Luiz Gustavo Martins e Cristina Schultz

sobre os colunistas

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. É formada em engenharia pelo ITA, doutora em ciências pela USP e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi

Shridhar Jayanthi é agente de patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO). Tem doutorado em engenharia elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de engenheiro de computação pelo ITA. Atualmente, trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Guilherme Pimentel

Guilherme Pimentel é pesquisador no instituto de física da Universidade de Amsterdã na Holanda, onde trabalha com novas teorias para explicar a expansão acelerada do Universo. Possui graduação em engenharia eletrônica, mestrado em física pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e doutorado em física na Universidade de Princeton. Sua pesquisa é focada em cosmologia e física de partículas.

Luiz Gustavo Martins

Luiz Gustavo Martins é engenheiro químico, mestrado em física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é doutorando no MIT (Massachusetts Institute of Technology), na área de física do estado sólido experimental, onde trabalha espectroscopia óptica em materiais bidimensionais (com poucos átomos de espessura) e física de altas pressões.

Cristina Schultz

Cristina Schultz é oceanógrafa formada pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado em meteorologia pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e doutorado em oceanografia química pelo WHOI (Woods Hole Oceanographic Institution) e o MIT (Massachusetts Institute of Technology). Atualmente é cientista visitante na Universidade de Princeton, no NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) e no Geophysical Fluid Dynamics Laboratory (Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos). Sua pesquisa combina o uso de dados coletados em cruzeiros oceanográficos, dados de satélite e modelos climáticos para entender as consequências das mudanças climáticas na química do oceano e no ecossistema marinho.

Cristina Schultz

20/02/2022 04h00

Um dos argumentos mais utilizados contra ações que visam diminuir a quantidade de gases de efeito estufa é que que medidas de proteção ambiental restringem o crescimento da economia e podem levar à perda de empregos. Mesmo entre a população que reconhece a extensão dos danos causados pelas mudanças climáticas, ainda há quem argumente que mobilizar a humanidade para uma empreitada dessa grandeza é uma causa perdida.

É importante, portanto, falar sobre soluções para problemas ambientais que tiveram tanto sucesso que hoje em dia quase não se pensa a respeito. Um desses problemas é o buraco na camada de ozônio, que foi identificado na década de 1970 e levou ao Protocolo de Montreal e ao banimento de CFCs. Essas medidas levaram não só à diminuição do problema original como contribuíram para que o aquecimento global não fosse ainda pior do que é hoje em dia.

Para recapitular a história, é importante entender o que é o ozônio e para que ele serve.

Ozônio é uma molécula formada por oxigênio, mas que tem três átomos ao invés de dois, como o oxigênio que nós respiramos. É um gás altamente reativo que pode ser formado de forma natural ou por ação humana, e dependendo de onde está na atmosfera, pode ter efeitos bons ou ruins para a nossa saúde.

Na baixa atmosfera, a formação de ozônio geralmente ocorre pela reação de duas classes de poluentes: compostos orgânicos voláteis (COVs) e óxidos de nitrogênio (NOx), emitidos durante processos industriais e pela queima de derivados do petróleo em veículos.

Quando respirado, ozônio leva a uma sensação de queimação nas vias aéreas, inflamação no pulmão, e é associado a um aumento na hospitalização por causas respiratórias e a um aumento na mortalidade da população idosa.

Na alta atmosfera (acima de 10 km da superfície), no entanto, o ozônio tem um papel completamente diferente.

Nessa faixa (chamada estratosfera), o ozônio é formado pela reação da radiação ultravioleta com moléculas de oxigênio, compondo a chamada camada de ozônio, que nada mais é do que uma parte da atmosfera onde a concentração de ozônio é mais alta.

Ao contrário do que ocorre próximo à superfície, o ozônio estratosférico é extremamente benéfico, agindo como um filtro que diminui a quantidade de radiação ultravioleta que chega até nós e fornecendo uma camada de proteção contra problemas de visão como catarata e contra vários tipos de câncer de pele.

Durante a década de 1970, cientistas trabalhando na Nasa e na Universidade da Califórnia notaram que alguns compostos emitidos por aviões supersônicos e por ônibus espaciais reagiam com o ozônio na estratosfera, levando a uma série de estudos sobre possíveis efeitos globais de diversos compostos químicos na quantidade de ozônio.

Dois cientistas da Universidade da Califórnia em Irvine, Sherwood Roland e Mario Molina, descobriram que uma classe de compostos químicos chamados clorofluorcarbonos, ou CFCs, era tão eficiente em destruir moléculas de ozônio que poderiam constituir um risco global, trabalho pelo qual receberam um prêmio Nobel.

Nessa época, CFCs eram usados em diversos produtos tais como spray de cabelo, e a ideia de que esses produtos pudessem ser responsáveis por um dano ambiental em escala global foi inicialmente ridicularizada.

Em 1985, no entanto, foi descoberta na Antártida uma área na qual a concentração de ozônio na estratosfera era drasticamente mais baixa do que o normal, o que acabou sendo conhecido como o buraco na camada de ozônio.

Durante os próximos anos, uma série de estudos constatou que havia áreas consideradas buracos na camada de ozônio sobre a Antártida e sobre o Ártico, e que essas áreas também tinham uma concentração elevada de CFCs.

Dado que diversos estudos concluíram que CFCs eram diretamente responsáveis pela diminuição de ozônio na estratosfera, em 1988 foi ratificado o Protocolo de Montreal com o apoio de 197 países (ou seja, o mundo todo) que se comprometeu a erradicar a presença de CFCs em produtos domésticos.

A ratificação do Protocolo de Montreal, no entanto, não impediu que a ciência que motivou o acordo continuasse sendo atacada. De maneira similar ao que ocorre hoje em dia com o aquecimento global, não faltaram críticas de que proibir CFCs acabaria com a economia.

O que aconteceu, no entanto, foi uma competição tecnológica que levou a compostos menos danosos à saúde a ao meio ambiente, com custo de produção mais baixo, que rapidamente substituíram os CFCs.

Não só a economia não foi prejudicada e não houve uma redução na quantidade de empregos disponíveis, como todo mundo ganhou com produtos mais eficientes e seguros.

A estimativa é que o benefício ganho em saúde (em dinheiro não gastado), já que o banimento de CFCs evitou casos de câncer e cataratas, é cerca de 11 vezes maior do que o custo de implementação das mudanças requeridas pelo Protocolo de Montreal.

Hoje em dia a camada de ozônio na estratosfera está se recuperando, e é sabido que o Protocolo de Montreal também ajudou a mitigar os problemas causados pelo aquecimento global, dado que as substâncias banidas também agem como gases de efeito estufa.

Um estudo recente também adicionou o benefício da camada de ozônio para plantas na conta das proezas do Protocolo de Montreal. A estimativa é que, caso CFCs não tivessem sido banidos, o prejuízo causado pelo excesso de radiação ultravioleta na saúde das plantas faria com que elas acumulassem entre 325 e 690 bilhões de toneladas de carbono a menos do que acumulam hoje, o que faria com que a temperatura do planeta fosse entre meio e um grau maior do que é hoje em dia.

Mobilizações políticas em torno de causas ambientais, portanto, não só são possíveis como são necessárias e podem impactar de maneira positiva a economia e saúde humana por gerações.

Vale destacar que os EUA tiveram um papel essencial na descoberta e na solução do buraco da camada de ozônio sob a condução do conservador George Bush, sinalizando que mobilização política não quer dizer necessariamente partidária.