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Opinião

'Deus digital', demônios e viagem espacial: uma viagem pela cabeça de Musk

O cancelamento de uma tarde de autógrafos da banda Restart em uma livraria na Avenida Paulista, em 2010, gerou revolta no público jovem que acampava no local desde cedo. Uma equipe da Folha de S.Paulo entrevistou vários fãs que, ao expressar a sua frustração, criaram memes que se eternizaram nas redes sociais.

Uma menina apontou que tudo aquilo era uma "p* falta de sacanagem", enquanto outro disse que iria xingar muito no Twitter. De lá para cá não faltaram xingamentos no —e em razão do— Twitter (que agora se chama "X").

A última adição na lista de xingamentos proporcionados pelo Twitter veio do próprio dono da rede social. Em longa entrevista concedida em evento organizado pelo New York Times, Elon Musk disse que os anunciantes que abandonaram a plataforma poderiam "ir se f*der". O xingamento, repetido várias vezes, foi seguido de um aceno ao CEO da Disney, que mais cedo no mesmo evento havia dito que não queria ver a empresa associada a Musk.

Boicote pode matar a rede social X?

A fuga de anunciantes do X veio depois de Musk amplificar um conteúdo antissemita na plataforma. O empresário comentou na publicação dizendo que "isso é a verdade". Mais tarde, ele reconheceu que a publicação foi um erro e fez uma viagem para Israel, onde se encontrou com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Na visão de Musk, o boicote dos anunciantes à plataforma poderia até mesmo inviabilizar as finanças da rede social. Segundo o empresário, "todo mundo vai saber que foram eles que mataram a empresa".

Ao ser questionado se não teria sido a sua conduta (e seus comentários) que poderiam levar a esse desfecho, Musk disse que essa narrativa não colaria "com o planeta Terra".

Civilização de um planeta só

Por falar no planeta azul, ao longo da entrevista Musk falou muito sobre os seus planos para a SpaceX e como a humanidade precisa deixar de ser uma civilização que habita apenas um planeta. Segundo o empresário, nossas chances de sobrevivência a longo prazo estão diretamente relacionadas à capacidade de explorar e habitar novos lugares no espaço sideral.

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Musk acredita que a exploração espacial é a chave para estender a vida humana além da Terra e superar o que ele chama de um dos "grandes filtros", que é o risco de se tornar uma civilização de um único planeta que eventualmente morre. Sabe aquela história de que não existe planeta B? Musk está de olho em outras opções.

Tempestades mentais e demônios

Entre os debates sobre o futuro da rede social e o da espécie humana, o empresário revelou que constantemente se vê inserido em uma tempestade mental, com várias ideias lutando por espaço. Nessas horas, segundo Musk, é necessário lutar contra demônios internos e fazer o bem.

Segundo o empresário, os seus demônios internos acabam impulsionando as suas ações para fins produtivos. Musk descreveu a sua filosofia como sendo uma filosofia de curiosidade, e que sua motivação vem do desejo de expandir o escopo e a escala da consciência e encontrar o significado da vida.

Curiosamente, um dos campos de pesquisa que permite ao empresário viver plenamente o seu propósito é a rede social X. Segundo Musk, a rede social é o melhor lugar para coletar dados e entender a experiência humana.

"Dados são mais preciosos do que ouro", disse Musk, completando que Google e Microsoft podem ter muitos dados, mas que a rede X propicia a melhor janela para entender o que está acontecendo no mundo em um dado momento.

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OpenAI nem tão open assim

Outro ponto marcante da entrevista de Musk foi a sua percepção sobre toda a controvérsia envolvendo a demissão e o retorno de Sam Altman do cargo de CEO da OpenAI. Musk disse que possui sentimentos conflitantes sobre Altman e essa relação tem uma certa história.

Musk foi um dos cofundadores da OpenAI. Ele teria inclusive batizado a empresa a partir da noção de software aberto. A sua missão inicial, lembrou, seria garantir o desenvolvimento seguro da mais avançada inteligência artificial, compartilhando com o público seus achados em prol de uma evolução controlada.

Segundo Musk, o nome OpenAI ("inteligência artificial aberta") deveria ser mudado para "inteligência artificial superfechada voltada ao lucro", dado os rumos tomados pela empresa.

Nesse pacote de críticas sobre o estado da OpenAI, Musk disse que não sabia os motivos que haviam levado à demissão de Altman pelo board da entidade, mas que ele suspeitava que alguma descoberta importante havia sido feita e que Altman teria falhado nas suas comunicações sobre o fato para o conselho.

Como falamos aqui na coluna, uma explicação recorrente para os desentendimentos entre Altman e o conselho da OpenAI seria a existência de visões diferentes sobre segurança no desenvolvimento de novas aplicações.

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"De que lado você está?"

Inclusive, Musk revelou na entrevista que o impulso para criar a OpenAI teria vindo como reação à posição que a Google ocupava na época com o desenvolvimento do DeepMind, o principal projeto de inteligência artificial da empresa. Em conversa com Larry Page, cofundador da Google, Musk teria entendido que Page não estaria "do lado da segurança da IA".

Ao defender que o futuro da IA deveria passar por valores humanos, Page teria dito que Musk era um "especista" ("specist"), ou seja, alguém que compreende que uma espécie é superior à outra e que por isso pode explorá-la sem limites. O termo é usado mais frequentemente no debate sobre direitos dos animais, como forma de frear maus-tratos e extermínio de espécies.

No diálogo entre Page e Musk, a discussão colocada seria se a espécie humana deveria ser considerada superior às máquinas e assim legitimada a explorá-las a partir de seus valores. Elon disse que perguntou para Larry Page: "de que lado você está?"

O deus digital chega em três anos

Esse momento "Exterminador do Futuro" só perde para a previsão, feita por Musk, de que o surgimento de uma inteligência artificial que seja mais inteligente do que o mais inteligente dos humanos está mais perto do que se imagina. Segundo Elon, chegaremos nesse ponto em menos de três anos e que aí já poderemos dizer que nasceu um "deus digital".

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Nesse ponto da entrevista, Musk refletiu sobre o que significa viver em tempos interessantes e que, se ele pudesse escolher entre viver em tempos monótonos ou viver em tempos animados, mesmo que eles fossem apocalípticos e perto do que ele chamou de "aniquilação", a sua escolha seria por viver nesses tempos derradeiros, porém movimentados.

Essa visão de final dos tempos aparece em muitas das filosofias por trás da inteligência artificial, notadamente naquelas vindas do Vale do Silício. Em certa medida, essas escatologias também se nutrem de impressões sobre o papel do Ocidente em um cenário de ascensão de potências asiáticas. O mundo está mudando, mas assim como Filipe Ret em "Corte Americano", queremos crer que ele também está "nessa a vários ano [sic], muito longe do fim".

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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