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OPINIÃO

O que a 'esperança' quer dizer no mundo digital que mudou uso da linguagem

Imagem: Mahdi Dastmard/ Unsplash
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Christian Dunker

24/12/2021 04h00

O termo "esperança" foi escolhido por 17% dos brasileiros para representar o ano vindouro de 2022. Lembremos que em 2021 a palavra escolhida foi "vacina" e em 2020 o significante "saudade" foi eleito por 25% dos brasileiros para representar o ano.

Em 2019, segundo o dicionário Oxford, a instância que aparentemente introduziu ou deu visibilidade a este tipo de levantamento a palavra-chave foi "emergência climática", o que pareceu dar continuidade ao clima de 2018 no qual o vocábulo "tóxico" foi o escolhido.

Em 2017 tínhamos duas representantes "youthquake" (terremoto juvenil), para representar a chegada dos millenials ao poder e "fake news" para ilustrar a novidade trazida pela pós-verdade e pela força eleitoral da mentira digital.

Usando o método surrealista, desenvolvido por Breton e Soupault, para gerar poemas aleatórios, poderíamos criar uma epígrafe para o nosso último lustro, mais ou menos assim:

"Você tem saudade do tempo em que a vacina era sua grande esperança? Ou prefere os tempos tóxicos na qual a emergência climática começou a ser apresentada como uma fake news?

Assim posto o resultado é bem pouco surrealista. Contudo, para muitos foi nossa realidade, ela mesma que se tornou mais surreal do que o "encontro fortuito de uma máquina de costura com um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação", para retomar a definição proposta por Lautréamont.

Fato é que aprendemos a respeitar palavras em um sentido um pouco diferente do que tínhamos antes da experiência digital.

Palavras e não conceitos, ideias ou intenções exprimem cada vez com maior precisão nossas inclinações de compra e consumo, nossas definições morais e políticas, nossas inclinações subjetivas e psicopatológicas.

No final do século 19 a filosofia política se interessou pela misteriosa propriedade que algumas pessoas tinham de produzir em torno de si massas humanas obedientes. A eles se atribuía este misterioso flogisto teológico chamado "carisma".

Na primeira metade do século 20 o problema se transferiu para a capacidade que alguns tinham ou pelo menos alguns tinham mais que outros de serem percebidos como diferentes e singulares, destacados da massa. Eram aqueles que tinham "personalidade", "atitude" ou antes disso "caráter".

A segunda metade do século 20 assistiu ao problema migrar para a detecção de quais estímulos podemos mobilizar para controlar "comportamentos", especialmente os comportamentos coletivos.

De certa maneira a conversa mudou de figura com a chegada da experiência digital.

Não é mais necessário supor uma distância entre o agente da ação e a ação ela mesma, como se precisássemos de uma teoria da motivação ou da intencionalidade, que explicasse como nossos pensamentos determinam nossas atitudes, ou como os estímulos determinam nosso comportamento.

Agora parece que temos o contrário, apenas palavras. Palavras concretas, efetivamente empregadas, registráveis em escala massiva e individualizada. Palavras que formam constelações, mapas semânticos, dados estruturados, ou grandes tendências cognitivas e desejantes.

Decorre desta mudança de perspectiva uma série de mudanças em nosso uso da linguagem.

Desde clikbaits que anunciam coisas que você não encontrará no conteúdo clicado, mas só vai descobrir isso depois de ter clicado, e fornecido alguns pontos para a matéria, até pessoas usando palavras em sentidos completamente ou intencionalmente equivocado, apenas para aumentar o engajamento em sua mensagem.

Interdição no uso de termos ou prerrogativas de uso, disputas de autoridade e poder, deslocam-se para a criação, dissolução e propagação de novos termos.

Por sim, novas palavras estão realmente associadas com novas formas de vida. Por isso podemos tentar reverter formas de vida indesejáveis pela crítica de certos termos-chaves pelas quais podemos reconhecê-las.

Por isso tornou-se cada vez mais importante adquirir letramentos diferentes daqueles que sua identidade impõe como coercitivos e obrigatórios, a tal ponto que não reconhecemos como eles são marcadores de classe, raça, gênero, sexualidade e etnicidade.

Escrevo estas linhas aqui de Manchester, nordeste da Inglaterra, depois de visitar a mãe de uma querida amiga, uma adorável senhora de 81 anos, professora de inglês boa parte da vida.

Durante a conversa eu perguntei porque temos tantos escritores importantes, em língua inglesa, como Yates, Swift, Joyce e Beckett, provenientes da Irlanda? Afinal a Irlanda, como primeira colônia da Inglaterra, sempre foi um país pobre, com educação precária e população pequena, prestes a emigrar em função da fome iminente e da falta de liberdade política.

Ela me respondeu com naturalidade. É simples, eles desde sempre tiveram que pensar ao modo de uma dupla consciência, ou seja, em sua própria língua, com a secular tradição do gaélico, miticamente viking, e ao mesmo tempo na língua do outro, o inglês, invasor, tirano e opressor.

Quando você é obrigado a pensar tanto a partir de sua perspectiva, como a partir da do outro, sua consciência linguística cresce e você começa a olhar para as palavras com um pouco mais de respeito e criatividade.

Eu tive que concordar com a teoria de Berenice.

Lembrei então que esperança, a bola da vez para o próximo ano admite dois sentidos, conforme o letramento (literacy) que se pretenda usar.

Esperança pode remeter a espera, aquela atitude subordinativa, pela qual aguardamos que o Outro nos dê algum motivo para que possamos engajar nosso desejo. Neste sentido, esperança é um afeto conservador, que nos remete à paixão daqueles que acham que o poder só poderá vir do outro, que em sua potência nos libertará. São aqueles que estão esperando que algo mude para que eles possam mudar.

Mas ao contrário, no segundo sentido, esperança remete, como dizia Paulo Freire, ao verbo "esperançar", como ele mesmo definiu:

"É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo"

Portanto, independente do carisma, da personalidade ou do comportamento dos outros qual será a esperança que você tem para si?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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