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Como nossa vida digital ajudou a suspender o debate político nas eleições

Debate com candidatos à prefeitura de São Paulo realizado pela Band - Kelly Fuzaro/Band
Debate com candidatos à prefeitura de São Paulo realizado pela Band Imagem: Kelly Fuzaro/Band
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

16/10/2020 04h00

Já se disse que com a chegada da linguagem digital a política tornou-se guerra híbrida. A noção aparece no filósofo Gilles Deleuze para descrever a combinação de ataques e defesas convencionais com táticas de desinformação (como o negacionismo), métodos de influência (como fake news e falsas denúncias) ou lawfare (uso do ordenamento jurídico para criar efeitos retóricos, bloquear ações ou criar suspeita).

Suspendendo permanentemente o que está em disputa e a própria configuração das oposições relevantes, a guerra híbrida explora afetos como o medo, a indignação e o ódio para marcar pontos contextuais com públicos diversos.

Um soldado preparado para a guerra híbrida, assim como um político interessado neste tipo de estratégia, deve estar preparado para mudar sua posição ou suas teses, conforme a situação: paraquedismo, táticas anfíbias ou franco-atirador, tudo se adequa ao momento exigido pelo conflito.

Vale dizer, as regras clássicas que regulam conflitos bélicos são suspensas: vestir o uniforme do inimigo, fazer reféns entre civis, disfarçar-se de agente da Cruz Vermelha ou agir à paisana, tudo vale em contexto de guerra híbrida, pois ela mistura elementos do conflito de opiniões, a concorrência econômica, disputa jurídica, adversidade política se valendo até mesmo de oposições estéticas, religiosas ou científicas.

Mas há algumas coisas que a guerra híbrida enfrenta com maior dificuldade e entre elas está o debate ao vivo e em cores de ideias entre protagonistas de campos concorrentes.

Com a chegada da linguagem digital temos a impressão que estamos discutido política por toda a parte e nas horas menos esperadas, aliás: no Natal entre família, nas decisões sanitárias, nas opiniões sobre produtos culturais, nas pequenas decisões íntimas entre casais ou entre pais e filhos.

Por outro lado, este excesso de política corresponde a uma falta objetiva de espaços onde se pode aprender como funciona a política, quais são suas regras clássicas, quais são suas questões históricas. Isso permitiria entender melhor o que significa o debate público, bem como qualificar nossa participação nele. Isso poderia ser feito pela estimulação da prática do debate como método pedagógico em nossas escolas e universidades.

Tente se lembrar da última vez que você viu um debate realmente significativo entre candidatos? Bolsonaro foi eleito sem participar de nenhum. Seu principal intelectual, Olavo de Carvalho, fugiu de todos os desafios publicamente propostos, por gente como a antropóloga Deborah Diniz ou por este articulista.

Depois do último debate entre os candidatos a prefeito em São Paulo, todos os outros debates foram suspensos. Ou seja, todos os canais de televisão, rádios, sites, jornais de grande ou pequena circulação, todas as instituições que se interessam pelo debate público como universidades, Ordem dos Advogados do Brasil, institutos internacionais e observatórios do terceiro setor, em ação conjunta, renunciaram a promover um simples encontro presencial entre candidatos?

Poder-se-ia argumentar que o debate entre Biden e Trump, como modelo mundial para o gênero, ficou abaixo do sofrível ou que a audiência teria sido pequena. Mas como psicanalista, engajado nesta tradição oral, presencial e pessoal de transformação de pessoas e formas de sofrimento, só posso entender como sintomático este declínio da forma debate em nossa cultura política.

Americanos acompanham, pela televisão, ao debate tumultuado entre Donald Trump e Joe Biden - Mario Tama/ Getty Images North America /Getty Images via AFP - Mario Tama/ Getty Images North America /Getty Images via AFP
Americanos acompanham pela televisão ao debate tumultuado entre Donald Trump e Joe Biden
Imagem: Mario Tama/ Getty Images North America /Getty Images via AFP

Em tese se pode dizer que aquele que está à frente nas pesquisas deve, por dever de estratégia, ainda mais em guerra híbrida, fugir do debate porque ele só tem a perder. Isso significa, indiretamente, que "só participo do debate se ele me convém".

Quem está à frente nas pesquisas será o adversário a ser batido, receberá mais críticas e terá que defender seu posto. Normal, natural e vale até para o futebol. Mas na política o mundo parece funcionar de ponta cabeça. Até mesmo Trump, conhecido por ignorar regras da guerra híbrida e fazer declarações sistemáticas que desabonam a si mesmo, e posicionado em segundo na corrida eleitoral americana, renunciou a oportunidade de "virar o jogo" por meio da sua palavra em ato.

Debates servem para tornar candidatos menos conhecidos acessíveis para a população, mas eles punem severamente aqueles que não sabem falar muito bem, que não tem presença retórica, boa oratória ou sabem fazer jogo de cena.

Qualquer aluno de escola ou de universidade vai tremer como vara verde na hora do seminário. Qualquer executivo sabe que sua carreira dependerá de apresentações orais e de sua capacidade de convencer seus pares de que suas ideias e números são bons. Qualquer desempregado tem que se deparar com a temível entrevista de emprego, na qual tantas vezes não conseguimos encontrar as boas palavras, nem criar aquela impressão que gostaríamos. Qualquer apaixonado sabe que em algum momento chegará o momento crítico de declarar seu amor ao seu amado.

Mas quando se trata da política, esta arte que nasceu na pólis grega, como trabalho de solução de nossos conflitos pela palavra e pelos melhores argumentos, parece que concordamos em estabelecer uma trégua. Um desconto merecido (ironia) porque afinal alguns candidatos vão passar vergonha, como vimos no último (último mesmo) debate à prefeitura de São Paulo. Alguns vão cometer atos falhos, outros vão deixar claro que só sabem ler teleprompter (o que farão se chegarem ao poder?), outros ainda vão mostrar coragem, competência ou capacidade crítica.

Em São Paulo, Guilherme Boulos foi o único candidato que cresceu expressivamente nas pesquisas depois do debate. Isso significa que a imprensa, o judiciário e os demais guardiões do debate público estão contra ele? Não creio, aliás como candidato melhor posicionado entre as redes sociais a evitação de debates públicos presenciais e institucionais poderia lhe ser conveniente.

Ocorre que debates deste tipo se ajustam muito mal ao princípio da guerra híbrida. Isso acontece porque dado a sua pequena extensão e muitas variáveis em jogo, eles têm muitas regras. Eles têm uma coisa que a internet não consegue instituir, ou seja: mediadores. Eles dão direito a réplica, independente da lacração. Eles vetam ofensas, que dão direito de resposta imediata. Eles expõem quem usa dados e faz afirmações incorretas a checagem direta, o que é irrelevante quando temos um Zé Mané gritando e xingando por você nas redes sociais. Eles fazem quem está no governo pagar a conta por seus atos.

Como se pode ver por estes argumentos, o debate é conceito-chave para a recuperação da política, ele é o antídoto mais básico e mais simples para a avalanche de antipolítica que tomou conta da nação.

Por antipolítica entenda-se o que Zizek chamou de formas pelas quais a política, como campo da discórdia, do conflito e da divergência entre os interesses das pessoas, que se resolve pela palavra e pela representação, é substituído por outra coisa: religião de resultados, administração de empresas, retórica de celebridades, fascismo de ocasião ou qualquer outro tipo de caminho para resolver as diferenças, que no fundo deveriam nos unir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.