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Death Stranding: Entrevista com o dublador Silvio Giraldi, o Sam Bridges

Death Stranding - Sam (Norman Reedus) - Divulgação
Death Stranding - Sam (Norman Reedus) Imagem: Divulgação

Amanda Santos

Do START, em São Paulo

28/12/2019 04h00

"Death Stranding", primeiro game desenvolvido pela Kojima Productions foi, de longe, um dos jogos mais esperados - e comentados - de 2019. Produzido por Hideo Kojima, o título venceu três em nove categorias no The Game Awards, a maior premiação do mundo: Melhor Direção, Melhor Trilha Sonora e Melhor Atuação com Mads Mikkelsen como Cliff, um dos vilões da franquia.

Nesta semana, a Famitsu, famosa revista japonesa, lançou seu Top 30 dos melhores jogos do ano que, devido ao alcance e importância da revista, equivale a um "Game of The Year Japonês". Death Stranding emplacou o título de melhor game do ano. O game, que chegou ao PlayStation 4 em novembro (e ao PC para 2020), trata sobre reconstruir o mundo após um misterioso cataclisma. Death Stranding conta a história de Sam Porter Bridges (Norman Reedus), e sua jornada da Costa Leste até a Oeste dos antigos Estados Unidos, destruídos por um misterioso evento.

Na versão brasileira, Sam Bridges é dublado por Silvio Giraldi, o mesmo dublador que dá voz a Norman Reedus em The Walking Dead e tantos outros personagens conhecidos dos games e do cinema.

START: Como foi o convite, a preparação, a dublagem e a recepção do público ao dublar Sam Bridges de Death Stranding?

Silvio Giraldi: Eu já dublo o Norman Reedus no seriado mais importante da sua carreira, que é o The Walking Dead. Já havia dublado ele em alguns longas-metragens e até uma participação dele num reality show. Os responsáveis por Death Stranding no Brasil tiveram a preocupação em manter a voz do Norman do seriado, o que é louvável, pois nem sempre acontece.

Por exemplo, quando produziram o desenho animado do Chaves, trocaram a voz do Nelson Machado, que sempre dublou o Kiko, só porque ele sugeriu a possibilidade de um cachê diferenciado. Nem quiseram conversar! Aconteceu também quando o Tatá Guarnieri, que dublou o Jim Carrey no Máscara, perguntou se poderia receber um valor diferenciado para que dublasse o mesmo ator em "O Mentiroso". Nem conversaram, trocaram e pronto.

Silvio Giraldi, dublador  - Divulgação
Silvio Giraldi, dublador
Imagem: Divulgação

Eu não impus nenhuma condição, pois não quis correr o risco de não dublar o Norman. Não tiro a razão dos meus colegas, mas não quis correr o risco. Penso que a dublagem no Brasil poderia ser mais respeitada. God of War vendeu mais de três milhões de cópias em três dias! Então você vê que o valor gasto na dublagem e na localização de games é "dinheiro de pinga", se comparado ao faturamento dos produtos. No caso dos meus colegas, acho que faltou respeito, não só com eles, mas com o público.

Temos que considerar também que eu já havia participado da localização de outros games de muito sucesso, sempre com bons trabalhos, que me credenciaram também. Cheguei a ser eleito como a melhor voz de vilão por God of War, numa votação entre o público de games. Também fui muito elogiado pela localização do Far Cry 5, fazendo a voz do John Seed e também pelo JD Fênix em Gears of War... Acho que tudo isso me credenciou para fazer Death Stranding.

Uma das mecânicas de Death Stranding que mais surpreendeu a comunidade envolvia "ninar o bebê" - Reprodução
Uma das mecânicas de Death Stranding que mais surpreendeu a comunidade envolvia "ninar o bebê"
Imagem: Reprodução

START: O que você achou de Death Stranding? Chegou a jogar o game? Se não, tem vontade de testar um dia?

Silvio Giraldi: Um dia eu convidei meu filho pra assistirmos um filme na TV e ele me respondeu: "porque vou assistir um filme se eu posso estar dentro do filme? Vem ver eu jogando!".

É exatamente isso! Em Death Stranding a interatividade é elevada ao quadrado! Achei fantástico o jogador ter que, literalmente, ninar o joystick para acalmar o bebê que tem no jogo! Eu não tenho tempo de jogar... Em alguns dias chego a trabalhar das 8h até as 23h... Antigamente eu utilizava alguns jogos no celular, mas tive que apagá-los pois eles vão se tornando uma compulsão e acabam tomando um tempo precioso da minha vida? Prefiro assistir o meu filho jogando.

Sinto um p... orgulho de ter um espectador do meu trabalho dentro de casa! Alguns amigos dele ficam contentes em me conhecer pessoalmente, pois são admiradores do meu trabalho. Isso não tem preço!

Arthur Darvill como Rory Williams, Matt Smith como o 11º Doctor e Karen Gillan como Amy Pond - BBC America/Divulgação
Arthur Darvill como Rory Williams, Matt Smith como o 11º Doctor e Karen Gillan como Amy Pond
Imagem: BBC America/Divulgação

START: Você tem afinidade por games e o universo geek? Se sim, o que você joga/mais gostou de jogar (ou assistir, no caso de uma saga ou franquia favorita)?

Silvio Giraldi: Eu vivi boa parte do material que engloba o universo Geek, começando pela família "Ultra" (ultraman, ultraseven), Robo Gigante, Super Dínamo, Os Thunderbirds... Eu dirigi, para a Globosat, a dublagem de uma animação que é considerada o primeiro anime da história "As Aventuras de Alakazan", que conta a história de um príncipe macaco, que com certeza, inspirou Dragon Ball!

Adoro a saga Star Wars, Dublei o K2SO em Rogue One. Adoro Senhor dos Anéis, onde dublei o hobit Pippin! Tenho uma verdadeira paixão por Doctor Who, em especial o décimo primeiro, onde tive o privilégio de dublar Matt Smith. Não podemos esquecer de The Walking Dead. Não dá pra olhar a minha carreira, sem citar essa série! Sou do tempo dos primeiros jogos Atari e eles eram viciantes! Esse aspecto dos jogos me assusta. Quando ouço que alguns jovens coreanos, literalmente, morrem jogando porque negligenciam a própria saúde em função dos games, isso me preocupa e muito!

Em Far Cry 5, Silvio Giraldi emprestou a voz a John Seed - Divulgação
Em Far Cry 5, Silvio Giraldi emprestou a voz a John Seed
Imagem: Divulgação

START: Existe diferença em dublar filmes/séries e games?

Silvio Giraldi: Várias! Primeiro que raramente temos a imagem. Temos que obedecer e confiar cegamente no áudio original. Na dublagem normal, temos sempre os dois (áudio e imagem) o que nos permite uma riqueza maior de detalhes.

Outro fator muito diferente é a linearidade, que no game inexiste! Num filme a gente acompanha a história cronologicamente e nos emocionamos mais facilmente. No game é praticamente impossível! O nosso cachê também chega a ser mais que o dobro do valor, por hora de trabalho, até por exigir muito mais técnica e fisicamente dos dubladores. Eu mesmo cheguei a ir para o hospital por conta de um problema na coluna depois de passar 10 horas em pé gravando game.

Dublador foi umas das principais vozes em God of War - Divulgação
Dublador foi umas das principais vozes em God of War
Imagem: Divulgação

START: Você também emprestou a voz para Baldur em God of War, quais outros jogos você dublou?

Silvio Giraldi: Eu fiz a voz do Capitão América na versão Lego. Mas o Cristiano Prazeres da Maximal me convidou pra participar da localização de Quantum Break, por causa de um ator que eu havia dublado em X-Man e isso deu o gancho para games mais conhecidos como Far Cry, Gears of War, God of War e Death Stranding (cuja localização foi feita pela Audioman).

Muita gritaria para dublar em Gears of War - Divulgação
Muita gritaria para dublar em Gears of War
Imagem: Divulgação

START: Dos games com sua dublagem, quais foram os mais marcantes para você?

Silvio Giraldi: Cada um foi um desafio diferente. No Capitão América, procurei um timbre próximo ao do cinema, com a voz mais leveza. Em Gears of War, a quantidade de gritos foi absurda, o que exige mais gogó. Em Far Cry 5, fiz um vilão que deveria ser perspicaz e eloquente. Em God of War 4 havia um desafio enorme no Baldur, ele era mais debochado, irado, todas os traços psicológicos eram ampliados e tive que utilizar quase todos os meus recursos vocais!

Já em Death Stranding, eu quis fazer jus ao Norman Reedus, que coloca sua irreverência em tudo que faz. Ao mesmo tempo eu trabalho num tom de voz mais baixo, que combina mais com ele e com o personagem Sam Porter Bridges. O tema é denso e ao mesmo tempo ele é meio desbocado. Ou seja, não existe "zona de conforto" com Norman, preciso estar sempre atento a essas sutilezas.

Norman Reedus, irreverente até dentro do jogo - Reprodução
Norman Reedus, irreverente até dentro do jogo
Imagem: Reprodução

START: Como está sua agenda para 2020? Irá dublar mais joguinhos?

Silvio Giraldi: Por enquanto, agenda livre para os Games! Fico na expectativa de que haja algumas sequências, como Gears of War, onde o enredo permite isso. O Hideo Kojima já admitiu que gostaria de fazer um Death Stranding 2, mas a gente sabe que pode demorar... No caso de God of War, o Baldur fez tanto sucesso que já especularam que ele poderia ganhar um filme da Sony, contando sua história, assim como já especularam que ele poderia aparecer em alguma outra edição de God of War?Eu iria adorar!

De certo mesmo, tenho uma novela turca para dirigir, com muitos capítulos, o que me garante trabalho até, pelo menos, o meio do ano. Uma coisa que também adoro fazer é dirigir a interpretação dos meus colegas na estante, pois muitas pessoas desprezam esse trabalho que é tão importante na dublagem! Os bons diretores não são chamados por questões financeiras. Os clientes acham que estão fazendo um ótimo negócio quando economizam no preço, sem saber que o diretor de dublagem provavelmente será um incompetente, mau pago, que vai fazer um trabalho medíocre.

Adoro meu trabalho e os games são a cereja do bolo! Obrigado pela oportunidade de falar um pouco mais sobre um tema ao qual dedico a minha vida. Feliz 2020!

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