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Ricardo Feltrin

Denúncias, greves e menos espaço nas TVs: inferno astral nas igrejas

"Olha, eu vou pregar o Evangelho na África. Vou sair por esse mundo para socorrer os sofridos, custe o que custar", escreveu o bispo brasileiro Edir Macedo em sua autobiografia - ALAN SANTOS/PR
'Olha, eu vou pregar o Evangelho na África. Vou sair por esse mundo para socorrer os sofridos, custe o que custar', escreveu o bispo brasileiro Edir Macedo em sua autobiografia Imagem: ALAN SANTOS/PR
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

19/11/2021 10h08

O Brasil é pródigo em igrejas e em poucos países elas florescem tanto como aqui —especialmente na TV. Só nos EUA há um fenômeno comparável.

A legislação difusa e confusa, misturada à complacência das autoridades, permite que qualquer pastor ou religioso com um mínimo de recursos ter uma espacinho na TV.

Quem diria que essa situação um dia poderia mudar? Infelizmente ela só mudou graças à pandemia de coronavírus, e não ao interesse das autoridades em disciplinar a lei de radiodifusão.

Afinal, alugar horário para igreja é vender espaço publicitário? E, se sim, essa venda não ultrapassa os limites de vendas comerciais definido na lei em 25%? Por enquanto a resposta é não.

Mesmo assim, a crise chegou.

Universal

A potência Igreja Universal, por exemplo, está enrolada em um escândalo sem precedentes em um de seus "mercados" até então mais promissores, a África.

Seus líderes brasileiros foram enxovalhados de lá e as denúncias contra a igreja vão desde lavagem e exportação ilegal de divisas de até US$ 120 milhões por ano, mais a obrigação de pastores em fazer vasectomia. Os angolanos tomaram literalmente posso da igreja. As duas emissoras de rádio e TV da Universal naquele país foram fechadas.

Mundial

por outro lado, a Igreja Mundial. de Valdemiro Santiago, enfrenta sua segunda pior crise na sua história.

A primeira foi na década passada, quando uma reportagem devastadora da RecordTV sobre compras de propriedades com dinheiro de fiéis jogou Valdemiro na jaula dos leões da Receita Federal (com trocadilho, claro).

Esta semana Valdemiro ameaçou demitir e terceirizar os trabalhos dos obreiros e funcionários. A fonte de doações secou. As contas estão atrasadas, como aluguéis e salários.

O pastor Silas Malafaia também não está bem das contas.

Embora milionário, dono de empresas de livros, os caraminguás de Malafaia também andam secando e perdeu espaço em emissoras de TV. Ele já fez pedido de recuperação judicial e foi um dos primeiros a correr a Brasília defender o perdão de dívidas milionárias de igrejas junto ao governo federal.

Nem mesmo o pastor R.R. Soares escapou de ser denunciado por más condições de trabalho em sua emissora, localizada no centro de São Paulo.

Igreja Católica

Temos ainda outros casos, inclusive na própria Igreja Católica, como o escândalo da Basílica de Goiás, que teve seu líder, padre Robson, afastado de suas funções —inclusive na TV— e agora está sendo duramente investigado. Ele se diz inocente.

E nem vamos falar de escândalos muito mais escabrosos como o de outros religiosos, como João de Deus.

Isso quando a tragédia não deixa de ser engraçada devido à ganância dos pastores. Recentemente o bispo Agenor Duque, da Igreja Plenitude do Trono de Deus aceitou de bom grado um carro de uma fiel.

Malfadado presente. O carro usado valia apenas R$ 7.000, mas qual não foi a surpresa do bispo ao descobrir que o veículo tinha uma dívida de mais de R$ 9.000. O carro agora é da igreja. Ela que pague. "Isso é má fé", bradou o pastor contra a doadora.

Qual será o fim dessa história?

Bem, já estamos assistindo aos primeiros capítulos: há cada vez menos pastores na TV, E cada vez igrejas menores fechando as portas. Pequenas e grandes também.

Se é positivo ou negativo, não é possível afirmar: mas, certamente, as pessoas devem começar a pensar mais por si mesmas —e menos pela cabeça de mercadores da fé.