Conteúdo publicado há 2 meses

'Monster' entre os melhores do ano e o cinema brasileiro contemporâneo

O Plano Geral desta semana destaca dois dos filmes que já estão nas listas dos melhores do ano: "Monster", de Hirokazu Kore-Eda, e "Folhas de Outono", de Aki Kaurismaki. Nesta edição, Flavia Guerra e Thiago Stivaletti também fazem uma análise do cinema brasileiro pelo olhar de dois festivais importantes da região nordeste: A Mostra de Cinema de Gostoso, no Rio Grande do Norte, e o Festival Aruanda, na Paraíba.

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Roteiro do Festival de Cannes 2023, "Monster" (monstro) traz uma narrativa surpreendente, que revela o quanto a verdade pode ter muitos lados e como o silêncio diante de situações de crise pode ser perigoso. Na trama, o garoto Minato (Soya Kurokawa) um dia volta para casa e a mãe dela fica muito preocupada porque ele está visivelmente transtornado.

Ele, então, diz à mãe que descobriu que tem um cérebro de porco. E a mãe, transtornada, vai à escola tomar satisfação e tentar entender o que aconteceu. Ao longo do filme, o espectador vai acompanhar três versões da mesma história. (Ouça a partir de 5:00).

Thiago Stivaletti: "Para mim, "Monster" é o filme do ano. Foi o que mais me impactou. Cinéfilos do mundo todo acompanham há mais de 20 anos a obra deste diretor de filmes como "Depois da vida", "Ninguém Pode Saber", "Assunto de Família" e tantos outros". É um diretor de altos e baixos, mas este com certeza é um ponto alto."

Flavia Guerra: "Assunto de Família" levou a Palma de Ouro em Cannes 2018, quando Cate Blanchett presidiu o júri do festival. "No entanto, há quem prefira "Monster". Já era meio previsto que Kore-Eda não levaria a Palma este ano porque levou há pouco tempo, mas o prêmio de roteiro também é muito justo porque é exatamente a forma como a história é contada o grande trunfo do filme, uma verdadeira aula de roteiro."

Thiago ainda reforçou que é importante a gente lembrar que Kore-Eda empresta a estrutura de "Rashomon", um dos grandes clássicos do cinema japonês, de Akira Kurosawa, filme que traz três versões diferentes da mesma história: "As três podem ser verdadeiras, ou não. Isso se aplica um pouco a "Monster". Em cada camada deste filme a gente vai entender que pode haver um culpado, outro culpado ou talvez nenhum culpado."

Efeito Rashomon

Flavia explica que há a expressão "Efeito Rashomon" é justamente quando há várias versões da verdade em um filme.

"Efeito Rashomon, em linhas gerais, chama-se assim porque em "Rashomon", o filme, há um julgamento de um crime. Uma jovem foi violentada e três pessoas dão suas versões: o acusado pelo crime, a vítima e seu marido. Cada um deles tem uma visão do ocorrido. Vamos acompanhando a verdade de cada um."

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Em "Monster" vemos a realidade que a mãe vê, a de Minato, a do colega e amigo Eri (Hinata Hiiragi), a da diretora da escola. E vamos entendendo a grande verdade e também o mal entendidos". O filme trata também do fato de que não se falar sobre um assunto não resolve este assunto. Muitas vezes não discutir, não falar de um assunto só vai piorar a situação, complementa Flavia. (Ouça no minuto 6:30)

A diretora da escola, a propósito, no início do filme, parece querer por panos quentes, mas, aos poucos, ela se revela um personagem rico e complexo. "A gente vai vendo que o ser humano tem muitas camadas. É o oposto da superficialidade do mundo de hoje, de redes sociais. É para se ver que toda história tem dois lados, duas versões, dois pontos de vista, duas formas defensáveis de se pensar e de se viver", continuou Thiago. (Ouça no minuto 15:00)

"Folhas de Outono"

Também premiado no Festival de Cannes 2023 com o Grande Prêmio do Júri, "Folhas de Outono" é uma história de amor nada óbvia em tempos em que o cinismo toma conta das relações, sejam elas de trabalho, amizade ou românticas.

"Como costumo dizer, desde que vi o filme pela primeira vez, em maio, é a comédia romântica menos romântica que já vi", brincou Flavia sobre o longa, que é estrelado por Ansa (Alma Pöysti) e Holappa (Jussi Vatanen). (Ouça a partir de 22:40)

"Folhas de Outono" conta a história de Xc e Holappa, duas pessoas solitárias da classe operária finlandesa. Ela trabalha em várias frentes, de um supermercado a uma obra, mas se orgulha de se sustentar sozinha e não depender de ninguém. Ao mesmo tempo, sente uma profunda solidão.

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Já Holappa trabalha em uma construção e é um operário talentoso. Também solitário, ele sai com o colega de trabalho e amigo Huotari aos finais de semana para ir ao bar. Lá conhece Ansa e se encanta. Seu único, e grande, problema é o alcoolismo. A dependência vai atravessar seu caminho e ele vai ter de vencê-la se quiser estar ao lado de Ansa.

Flavia Guerra: "O que surpreende em "Folhas de Outono" é justamente como o filme, bem ao estilo de Kaurismaki, consegue contar uma história de amor com extrema economia de diálogos. Nada é dito por acaso. Há um humor e um descompasso que nos desconcertam e, ao mesmo tempo, encantam. É uma evolução do estilo do cineasta, mas, mesmo para quem já acompanha seu cinema, é uma bela surpresa."

Já Thiago aponta que Kaurismaki dirigiu outras obras como "O Porto" e "O Outro Lado da Esperança" e que filma muito uma certa solidão, um estranhamento dos personagens. "Eu amei este filme e tive a sorte de conversar com a Alma, atriz que protagoniza o filme, por Zoom. E o papo foi muito bom. Conversamos que nunca pensamos que Kaurismaki fosse fazer um filme romântico nada romântico. É um filme que não é exatamente uma comédia, mas a gente ri da forma como as situações são colocadas. Não é um romance típico e clichê, mas é uma história de amor", completou Flavia. (ouça a partir de 27:30)

Há um humor esquisito, quase desconcertado, o filme quase que escapa do tom realista Flavia

Melhores do ano

O longa está em primeiro lugar na lista da conceituada revista Time de Melhores Filmes de 2023, à frente de favoritos como "Assassinos da Lua das Flores" e "Maestro".

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Thiago Stivaletti: "As listas de melhores do ano já estão saindo. A grande Cahiers du Cinema, revista francesa, já publicou sua lista. Em primeiro lugar, um filme argentino que ainda não estreou no Brasil, "Trenque Lauquen", de Laura Citarella. Três filmes de Cannes 2023 estão nesta lista: "Anatomia de uma Queda" (Palma de Ouro) em terceiro lugar, "Folhas Mortas", em quinto lugar, e "O Último Verão" em nono lugar. Em quarto lugar, "Os Fabelmans", de Steven Spielberg, entre outros".

Cinema Brasileiro - Mostra de Gostoso e Festival Aruanda

O cinema brasileiro também tem destaque no Plano Geral desta semana. Dois festivais que movimentam a região nordeste, ao lado do Cine Ceará, a Mostra de Gostoso e o Festival Aruanda trazem, cada um a seu modo, um panorama do cinema brasileiro contemporâneo.

Realizada de 26 de novembro a 24 a 28 de novembro em São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, a Mostra de Gostoso premiou os longas "Saudade Fez Morada Aqui Dentro", de Haroldo Campos, com o Prêmio da Crítica (escolhido por profissionais da imprensa que acompanham o festival), "O Dia Que Te Conheci", de André Novaes Oliveira, com o Prêmio do Público, e "Estranho Caminho", de Guto Parente, com uma menção honrosa. (Ouça a partir de 30:00).

Entrevista de semana

Na entrevista da semana, Lúcio Rodrigues e Amilton Pinheiro, diretor fundador e diretor artístico do Festival Aruanda, que completa 18 anos em 2023, contam mais sobre a história do evento e falam da importância de se mostrar o novíssimo cinema brasileiro sem esquecer sua história e o legado. (Ouça a partir de 30:00)

"É um Festival que começou de forma muito modesta, dentro da Universidade Federal da Paraíba e foi crescendo. No início, tivemos 70 pessoas de público. Foi uma caminhada de formiguinha. Foi ganhando musculatura através dos anos, mas sempre com uma identidade muito própria e uma afirmação de um festival que tem dimensão nacional. Já em seu segundo ano tinha uma dimensão nacional, críticos do Brasil como Maria do Rosário Caetano e Luiz Zanin Oricchio, duas figuras importantes da cobertura de festivais e da crítica", contou Lúcio sobre o evento, realizado de 30 de novembro a 6 de dezembro.

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Neste ano, "Nada Será como Antes", de Ana Rieper, abriu o Fest Aruanda. O documentário conta a história do Clube da Esquina por meio de entrevistas com seus criadores, como Lô Borges, Márcio Borges, Wagner Tiso, Flavio Venturini. E Milton Nascimento.

Outros destaques do Fest Aruanda 2023 foram as exibições e o debate sobre "Amazonas, o Maior Rio do Mundo", de Silvino Santos, e "O Cineasta da Selva", de Aurélio Michiles, com a presença do pesquisador Sávio Luis Stoco, da Faculdade de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará.

"O Festival tem um perfil muito eclético. A gente consegue abarcar a diversidade do cinema brasileiro, abrindo um espaço para esta construção do cinema nacional. Temos filmes que tratam da questão das pautas identitárias, mas a gente não esquece um ponto que é muito importante para o Aruanda, que é a memória", acrescentou Amilton Pinheiro.

"Exibimos filmes que tratam de temas atuais, mas também filmes de memória, como "Othelo, O Grande", "Pereio, Eu te Odeio", além das mostras especiais, como o próprio "Aruanda" (exibido na abertura do festival)", acrescentou o diretor artístico.

Amilton e Lúcio também ressaltaram que o tema do Aruanda 2023 é "O Cinema que ensina o Mundo a enxergar o Brasil". "Neste sentido, é também um cinema que ensina o Brasil a se enxergar. Os filmes que estão na programação falam muito do Brasil do passado e o Brasil do presente", finalizou Amilton.

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