Pet Shop Boys entrega união perfeita entre comoção e animação no Primavera

É apropriado que os Pet Shop Boys terminem o show no Primavera Sound São Paulo, no sábado (2), com uma música cujo refrão é "We were never being boring" ("Nunca estávamos sendo chatos"). Parte do hit de 1991, "Being Boring", a frase define bem a trajetória de um grupo que entrou na quinta década se mantendo digno e interessante.

Pode-se dizer o mesmo do show que a plateia paulistana presenciou, sem espaço para momentos mais mornos que faixas menos conhecidas ou divagantes podem provocar. Em uma hora e meia de show contado no relógio, a dupla mandou ver no seu repertório mais consagrado, de álbuns dos anos 1980 e 1990 (as únicas músicas do setlist gravadas depois dos 2000 foram "Vocal", de 2013, e "Dreamland", de 2019).

Desse patrimônio musical, contam-se pelo menos sete sucessos de grande porte, do tipo que a plateia canta alto e se apressa em registrar nos stories do Instagram, incluindo "Always On My Mind" (a melhor cover de Elvis Presley já gravada, diga-se), "West End Girls" e "Domino Dancing".

Esta última música é anunciada por Tennant com sorrisinho: "Acho que vocês conhecem essa". A segurança proporcionada pelos estoque de hits permite que questões de performance que poderiam ser pontos negativos no caso de outros artistas não sejam problema algum para os Pet Shop Boys: as interações com o público são pontuais e Tennant não é um frontman do tipo que fica aos pulos no palco. Lowe então passa o show prostrado atrás do teclado com cara de poucos amigos.

Esse "anti-carisma" sempre foi um elemento central no charme do grupo. Projetando uma atitude blasé bem britânica, os Pet Shop Boys sempre se mostraram avessos ao populismo fácil e à animação forçada. Qual outro músico você conhece que aparece bocejando na capa de um álbum (Tennant na capa de "Actually", de 1987)?

O roteiro do show obedeceu uma dinâmica de ir se revelando aos poucos. Se o The Killers, headliner no mesmo dia, colocou logo seu maior hit ("Mr. Brightside") para abrir o show, os Pet Shop Boys optam por tocar um single menos conhecido de 1986, "Suburbia". Emendam com outra canção pouco celebrada, "Can You Forgive Her?". Os dois artistas permanecem estáticos, rostos escondidos atrás de máscaras metálicas que lembram diapasões, corpos sob pesadas roupas que desafiam a opressão do calor brasileiro.

Na terceira faixa, "Opportunities", Tennant remove a máscara e nos lembra que, por trás do look vanguardista e das imagens futuristas no telão, está um amável senhor de 69 anos. A plateia urra, Tennant sorri. O show começa seu primeiro momento de subida. Em seguida, o mash-up "Where the Streets Have No Name (I Can't Take My Eyes Off You)" (sobreposição de versões de música do U2 com Boys Town Gang, lançada em 1991) acende o público de vez.

A disco sinfônica de "Left To My Own Devices", com sua letra existencialista, traz um Tennant arriscando uma certa teatralidade ao interpretar versos como "Would I write a book? Or should I take to the stage?" ("Eu escreveria um livro? Ou deveria subir no palco?"). Em seguida, a arejada "Love Comes Quickly" aparece mais contemplativa que na versão do álbum de estreia "Please". Em momento inspirado da parte visual, o painel de LEDs atrás da dupla é tomado por um degradê vermelho, resultando em um dos momentos mais bonitos e elegantes do show.

Depois de impressionar o público com sua aparente resistência ao calor sob pesadas vestes, o vocalista dobra a aposta e ressurge com um trench coat em tecido sintético... com um suéter preto de gola rolê por baixo! Inabalável, Tennant conduz o espetáculo com habilidade e simpatia contida, encadeando música atrás de música, sem espaço para "ser chato".

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Com boa parte de seu show acontecendo durante um hiato de 40 minutos nos dois outros palcos maiores (apenas o espaço com DJs funcionou sem interrupção), a dupla teve durante um tempo o festival praticamente para si, com fileiras de gente a perder de vista. Com uma curadoria que este ano escalou artistas mais antigos (o Primavera São Paulo de 2022 apostou em headliners dos anos 2010, como Lorde, Travis Scott e Charli XCX), o festival falou ao coração e ouvidos de um público mais maduro. Com sua longa fila de sucessos, os Pet Shop Boys conseguiram uma união perfeita entre animação e sentimento, de hits dançados em fases mais despreocupadas da vida.

No bis, é a vez de virem à tona dois dos maiores sucessos da dupla, "West End Girls" e "Being Boring". Vale notar que não é um encerramento de show lá no alto, como muitas bandas costumam fazer. As duas músicas escolhidas pelo Pet Shop Boys tem uma pegada mais cool, convidando a uma dança menos agitada e, talvez por isso, mais calorosa e afetiva. As pernas podem doer um pouco, mas o coração está aquecido. E o mais incrível de tudo: lá no palco, Chris Lowe está sorrindo.

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