Beck faz 'mistureba sonora' de qualidade no Primavera após cancelar show

Depois de deixar o público paulista angustiado com o cancelamento do show que faria no Rio no sábado à noite por motivos de saúde, Beck subiu ao palco do Primavera Sound para a performance mais difícil de antecipar entre as atrações do festival. Com 14 álbuns gravados, e cada um deles apontando para horizontes musicais diferentes, Beck é uma incógnita. Mas, em Interlagos, o resultado foi empolgante.

Essa primorosa mistureba sonora começou com o rock de guitarras pesadas em "Devil's Haircut", o pop sacolejante de "Mixed Bizness" e o funk solto de "The New Pollution". Depois, com "Girl" e "Qué Onda Guero", as estruturas musicais caíram no inclassificável. É o som experimental de Beck, totalmente sem freio.

Houve também um momento de eletropop desconstruído, quando cada integrante da banda pegou um teclado diferente para erguer o som computadorizado de "Wow", outro ótimo vocal de Beck. E ele caiu no rock rapidinho em "Gamma Ray", o mais cru que um cara sofisticado como ele consegue soar.

De volta aos números inclassificáveis, ele apresentou "The Valley of the Pagans", canção que escreveu para o Gorillaz, a banda virtual que é projeto paralelo de Damon Albarn, do Blur. Mentes inquietas e almas gêmeas nessa urgência musical, Beck e Albarn combinam bem demais seus dons musicais.

Beck reviveu sua fase trovadora de muitos anos atrás ao pegar o violão para uma belíssima versão de "Lost Cause". A canção só prova que, mesmo se fosse um artista mais comedido em experimentações, Beck ainda seria genial. Ele expande esse momento baladeiro emendando "Everybody's Gotta Learn Sometimes", música de James Warren que Beck gravou na trilha do filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças".

O show volta ao som sacolejante com "Dreams", que foi seguida de uma canção também para balançar o esqueleto, "Up All Night", mas que não é tão comum no repertório dos shows de Beck. Antes de tocar a roqueira "E-Pro", ele disse à plateia que não fazia um show no Brasil há 11 anos, mas que ama o país e sua música. Contou que o primeiro show que viu na vida foi um concerto de Tom Jobim nos Estados Unidos.

Beck quebrou mais uma vez o ritmo do show ao tocar ao violão, sentado, uma espécie de introdução em estilo country para "Loser", seu primeiro e maior hit mundial. Esse quase rap, de 1994, ainda parece uma das coisas mais modernas que o pop pode apresentar. Sensacional, com o público cantando o refrão junto. Depois, encerrou o show com a sacudida "Where It's At", acrescida de uma versão de "One Foot in the Grave" com Beck fazendo voz e gaita. Ele pediu, e recebeu, gritos e palmas da plateia. Missão cumprida.

Beck não é o artista mais popular desta edição do Primavera Sound nem é aquele que mais consegue levantar o público, mas com certeza é a usina de sons mais diversificados e inesperados na programação do evento. O que é muito bom para quem gosta de música além de pura diversão.

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