Pular, militar e fazer história: por que ver os shows do Primavera Sound

O público brasileiro, barriga cheia de tantos shows, tem transformado a reclamação sobre lineup em esporte nacional, mas seria injusto criticar a variedade dos headliners do Primavera Sound São Paulo, que acontece neste sábado (2) e domingo (3).

As décadas de 1980, 1990 e 2000 estão representadas. Os sons vão do punk clássico ao synthpop, do pop-rock ao gótico, do hardcore ao folk psicodélico. Tem nomes de reconhecimento instantâneo ao lado de figuras com perfil um pouco mais cult.

Splash preparou um guia rápido sobre as principais atrações dos dois dias. Ainda há ingressos à venda para os dois dias no site oficial do festival.

2 de dezembro

THE HIVES
Originários da Suécia, The Hives surgiram com a proposta de manter acesa a labareda do punk clássico, só que com ternos bem cortados. As guitarras entram como navalha no ouvido, os vocais oscilam entre angústia e petulância. O vocalista Pelle Almqvist conduz a baderna com olhos arregalados e energia no 220. Não à toa, seu disco de estreia se chama "Veni Vidi Vicious" (em alusão ao icônico baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious). Passados 20 anos de seu hype inicial e dez de um histórico show no Lollapalooza Brasil, os Hives não são do tipo que se escoram em glórias passadas. Com um novo álbum lançado em agosto, The Death of Randy Fitzsimmons (seu primeiro inédito desde 2012), haverá um bom quinhão de músicas que os brasileiros ouvirão ao vivo pela primeira vez

PET SHOP BOYS
Sobreviventes dos anos 1980, os Pet Shop Boys atravessaram as décadas com estilo e dignidade. A dupla inglesa imprimiu diversos refrãos e melodias de sintetizador no inconsciente coletivo do pop. Mesmo quando abordou questões da comunidade LGBTQIA+, como preconceito e o trauma da AIDS, o PSB sempre cantou para todo mundo. A cada geração posterior, há um refresh de seus clássicos, via inspiração ou citação, como prova o empréstimo não autorizado da música "West End Girls" feito pelo rapper Drake em uma faixa sua de 2023. Com isso, o show de Neil Tennant e Chris Lowe soa contemporâneo e bem encaixado em qualquer vitrine musical. Por meio de músicas atemporais como "Always On My Mind", "Being Boring" e "Domino Dancing", o PSB promove uma grande pista de dança afetiva em seu show.

THE KILLERS
Que deixem a arena aqueles que amam odiar a banda do vocalista Brandon Flowers. O resto do Brasil os adora. Estiveram aqui exatamente um ano atrás, para shows em São Paulo e Brasília. Sua vinda em 2023 será a sexta desde que estrearam nos palcos do país em 2007. Ninguém pode negar que The Killers é uma das principais bandas de rock do século 21, baseado em vendas de discos e execuções de streaming ("Mr. Brightside" está chegando em 2 bilhões de plays no Spotify enquanto você lê este texto). Quando hits como esta última, "Human" e "Somebody Told Me" surgem no show, Flowers pode inclusive aproveitar para descansar a garganta uma vez que o público canta as letras em uníssono do começo ao fim. A apresentação deve se concentrar nos quatro primeiros álbuns do grupo, lançados entre 2004 e 2012.

Pioneiros do punk de Los Angeles dos anos 1980, o Bad Religion volta ao Brasil
Pioneiros do punk de Los Angeles dos anos 1980, o Bad Religion volta ao Brasil Imagem: Reinaldo Canato/UOL

3 de dezembro

BAD RELIGION
Se não faltam bandas que abraçam causas de olho nos likes, a militância raiz e sincera do Bad Religion é o contraponto. Surgidos na cena de hardcore punk da Califórnia no começo dos anos 1980, o Bad Religion demonstrou que é possível fazer sucesso em seus próprios termos. Esperaram mais de uma década para estourar no mainstream, quando pegaram um jacaré perfeito na onda do grunge do início da década de 1990. Foi um pouco depois disso que vieram ao Brasil pela primeira vez, no festival Close-Up, em 1996. De lá para cá, foram outras dez vindas ao país. Ainda que, por essa recorrência, o nome do Bad Religion não cause frisson quando é anunciado em um lineup, pode-se esperar uma apresentação com guitarras aceleradas e queixas que seguem muito atuais, caso de "I Want To Conquer The World", de 1989, que diz "Hey man of science with your perfect rules of measure/Can you improve this place with the data that you gather?"("Ei homem da ciência com suas regras de medição perfeitas/Você consegue melhorar esse lugar com os dados que reúne?").

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THE BLESSED MADONNA
A americana é a única headliner internacional que não sobe ao palco com uma banda. É também a única mulher a encerrar um palco. Marea Stamper tem cacife para tal: sua mistura de referências novas e antigas na discotecagem e seu carisma de sorriso largo fizeram dela uma das maiores DJs do mundo da atualidade. Seus sets trazem dosagens precisas de hits bem conhecidos com material lado B. Ainda que formada nos clubes undergrounds de Chicago, Blessed Madonna sempre acreditou na importância de manter uma ponte com o pop. Em 2020, por exemplo, ela trabalhou junto com a cantora Dua Lipa no álbum de remixes "Club Future Nostalgia".

BECK
Ao combinar um rap de branco mal feito e um refrão derrotista, o americano Beck conseguiu fazer em "Loser" um dos hinos indie da década de 1990. "Eu sou um perdedor, querida, então porque você não me mata?", ele suplicava no refrão. Desde então, o cantor e compositor enfileirou uma discografia que, ainda que sem um hit do tamanho de "Loser", nunca deixou de ser interessante. Psicodelia, folk, electro-funk, country, sampleagem, cabe um pouco de tudo no balaio do Beck. No palco, isso se traduz em um show com muitas voltas, de momentos mais experimentais a riffs gordos que fazem o público pular feito pipoca.

THE CURE
Essa é a banda que fazia adolescentes usarem casacos pretos nos verões brasileiros dos anos 1980. A banda que sonorizou uma era ao navegar por praias distintas, do power pop de acordes simples ao rock gótico cavernoso, do electropop maroto a uma psicodelia fofa. No lineup do Primavera, não haverá nada mais historicamente grandioso que a banda liderada por Robert Smith. Aos 64 anos, o incansável músico retribui no palco a adoração mundial a sua banda: no Primavera Sound de Buenos Aires, Smith não arredou o pé antes de entregar 2h30 de show e 26 músicas. São clássicos como "Boys Don't Cry", "A Forest" e "Close To Me", mas também novas como "Endsong", que deve estar no próximo álbum da banda, prometido desde 2019.

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