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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Humor, violência e super-heróis: 'Invincible' é o Snyder Cut que deu certo

Mark Grayson é "Invincible", série em animação da Amazon - Amazon Prime
Mark Grayson é 'Invincible', série em animação da Amazon Imagem: Amazon Prime
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

27/03/2021 15h32

"Invincible", adaptação em animação da série em quadrinhos bolada por Robert Kirkman ('The Walking Dead'), começa como boa parte das histórias de origem. Nosso herói, Mark Grayson, é agraciado com superpoderes e, depois da euforia inicial, descobre que grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

A pegadinha vem em seguida. O que aparenta ser a criação de mais um universo de super-heróis coloridos em sua eterna luta contra o mal logo se torna uma aventura mergulhada na ultraviolência, nas consequências físicas e psicológicas de um quebra-pau entre seres quase divinos. É como o final de 'O Homem de Aço', ilustrada por vísceras, sangue e corpos arrebentados.

A comparação com a visão de Zack Snyder para super-heróis não poderia ser mais oportuna, já que sua versão para "Liga da Justiça" dominou o zeitgeist sobre como personagens de fantasia são retratados fora das páginas dos quadrinhos. A diferença é que Snyder não tem uma fração da inteligência e do talento de Robert Kirkman.

invincible familia - Amazon Prime - Amazon Prime
'Invincible' é, no fim das contas, uma história sobre pais e filhos
Imagem: Amazon Prime

Criado há duas décadas, "Invincible" foi a forma de Kirkman, então em alta com o sucesso de "The Walking Dead" nos quadrinhos, explorar o universo dos super-heróis fora do domínio das duas grandes editoras, DC e Marvel. Ele explorou todos os arquétipos do gênero, para depois desconstruí-los de forma brutal.

Em um mundo em que super-heróis e supervilões se enfrentam publicamente de forma rotineira, Mark Grayson é filho do Omni-Man, um dos maiores campeões do planeta. Seu pai é um alienígena do planeta Viltrum enviado à Terra para usar seus poderes à favor da humanidade. Sua herança genética dispara na adolescência, e Mark passa a lidar com poderes enormes da noite para o dia.

A versão animada, que traz um elenco vocal absurdo, de Steve Yeun a J.K. Simmons, passando por Seth Rogen, Sandra Oh e Mark Hamill, também é escrita por Kirkman e rearranja os eventos das primeiras edições da série em quadrinhos sem fogir de seu tema principal: quais as consequências da presença de seres superpoderosos na Terra, e que linha moral os impede de usar seu poder quase ilimitado para impor sua vontade.

A desconstrução dos arquétipos dos super-heróis não é novidade. Alan Moore e Dave Gibbons criaram o que talvez seja a maior obra dos quadrinhos com "Watchmen" nos anos 1980, concentrando-se justamente no aspecto psicológico da influência do poder absoluto. Recentemente Garth Ennis mostrou uma visão ainda mais niilista com "The Boys", que revela a natureza amoral e fragmentada de super-heróis quando olhamos por trás das cortinas.

"Invincible" dá um passo além, porque é apresentado em um mundo colorido e brilhante, com personagens de trajes extravagantes e codinomes que beiram o ridículo. É uma mistura do estilo da DC e da Marvel.

A editora do Superman criou super-heróis vistos pela população quase como deuses. Já a Marvel concentrou-se em relevar o que move estes mesmos personagens de forma "realista" quando não estão salvando o planeta. Tudo é embalado com uma animação simples e eficiente, que emula o traço dos quadrinhos e aumenta o choque quando o sangue começa a brotar.

invincible comics - Image Comics/Reprodução - Image Comics/Reprodução
'Liga da Justiça' é violento? Sei, segura aqui minha cerveja....
Imagem: Image Comics/Reprodução

Mas a violência e a brutalidade não são gratuitas como na "Liga da Justiça" de Zack Snyder, que conseguiu transformar personagens tão distintos como Superman, Batman e Mulher-Maravilha em sociopatas sem distinção. Em "Invincible", a violência é necessária como ferramenta narrativa e tem consequências devastadoras em quem a pratica e em que a sofre.

Existe uma grande trama que aos poucos é desfraldada em "Invincible", intercalada com histórias sobre invasões alienígenas, conspirações governamentais e regimes ditatoriais "para o bem maior". Ao acompanhar do ponto de vista de Mark Grayson, experimentamos também seus dilemas morais e sua luta para manter o controle ante um mundo que parece só fazer sentido na força.

São qualidades que amplificam seu status de super-heróis. Que solidificam o lema "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". Em "Invincible" aprendemos o custo de exercer essa responsabilidade. Sem sacrificar o espetáculo ou o desenvolvimento de seus personagens.

E ainda temos miolos arrebentados, globos oculares pipocando de crânios, pescoços quebrados, fraturas expostas, muita pancadaria e muito bom humor. Ah, e sem uma cena sequer em câmera lenta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL