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'Coração Satânico': Como Alan Parker uniu gerações e criou uma obra prima

Robert De Niro em "Angel Heart" - Divulgação
Robert De Niro em 'Angel Heart' Imagem: Divulgação
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

03/08/2020 14h45

"Por que o filme não pode ter um final feliz?" O escritor William Hjortsberg ouviu essa pergunta repetidamente de diversos chefões de estúdios em Hollywood, antes de ter mais uma porta fechada. Ele tentava vender para o cinema os direitos de seu livro, "Falling Angel", desde sua publicação em 1978.

John Frankenheimer e Robert Redford demonstraram interesse em uma versão para cinema do thriller neo noir, que não aliviava em momentos de ocultismo, sexo e violência, mas "Falling Angel" parecia destinado à pilha de "projetos jamais realizados". Até ele cair nas mãos de Alan Parker. E o filme, batizado "Coração Satânico" (ou "Angel Heart" no original), aos poucos deixou de ser apenas uma ideia.

Curiosamente revi "Coração Satânico" há algumas semanas, parte do "ritual" de manter a sanidade durante a quarentena. O filme continua tão poderoso e surpreendente quanto na época em que o descobri no cinema, aos 14 anos, quando lapidava uma paixão arrebatadora por filmes. Redescobrir "Coração Satânico" é sempre uma experiência transcendental.

Semana passada, também tornou-se uma espécie de elegia. Alan Parker deixou este plano aos 76 anos, legando pouco mais de uma dúzia de filmes com habilidade incontestável para experimentar os gêneros mais diversos. "Coração Satânico" sempre foi meu favorito, mas sua filmografia, às vezes irregular, é também fonte de brilhantismo inquestionável.

Não há outra palavra para descrever, por exemplo, "Quando as Metralhadoras Cospem", um híbrido de musical e filme de gângster, interpretado inteiramente por crianças (entre elas Jodie Foster, aos 13 anos). "O Expresso da Meia Noite", seu trabalho seguinte, é um pesadelo, a representação da fuga real de um jovem americano (Brad Davis) de uma prisão turca, mostrada como o inferno na Terra.

Os trabalhos seguintes com a assinatura de Parker flertaram com o musical ("Fama"), o drama familiar ("A Chama Que Não se Apaga"), a materialização de um álbum conceitual ("Pink Floyd - The Wall") e o sensível drama de guerra "Asas da Liberdade", sobre as consequências psicológicas do conflito no Vietnã em dois amigos de adolescência.

"Coração Satânico" veio em seguida. Alan Parker conseguiu financiamento independente por meio da produtora Carolco, atrelada a total controle criativo. Para o papel principal ele queria Robert De Niro, que desde "Amor à Primeira Vista", de 1984, colecionava papéis secundários em filmes como "Brazil", "A Missão" e "Os Intocáveis".

De Niro não topou encarar o detetive Harry Angel, mas sentiu-se confortável para interpretar Louis Cyphre, o homem misterioso que o contrata para encontrar um músico desaparecido. "De Niro não aceita mais papéis grandes", disse Parker à época, inclusive em um papo com o jornalista Mauricio Stycer, colunista do UOL. "Ele escolhe um papel menor, ganha o mesmo e trabalha por cinco dias."

Com De Niro à bordo, a tarefa seria encontrar um Harry Angel que estivesse à altura. Jack Nicholson conversou com Parker, mas perdeu o interesse ainda no meio do papo. O papel por fim terminou com Mickey Rourke, então com 30 anos e um dos atores mais interessantes a surgir na Hollywood dos anos 1980.

Depois de fazer sua estreia em um papel minúsculo na comédia "1941", de Steven Spielberg, Rourke chamou atenção como coadjuvante em "Corpos Ardentes" e em "O Selvagem da Motocicleta". Mas foi com "9 ½ Semanas de Amor", uma história de amor e abuso ao lado de Kim Basinger, que ele ganhou status de sex symbol. "Coração Satânico" seria o projeto que o catapultaria ao mega estrelato.

Mas não era para ser. Depois de filmagens em Nova York e Nova Orleans, o filme esbarrou nas regras da MPAA, que determina a classificação indicativa nos Estados Unidos. Por conta de uma cena de sexo intensa e assustadora com Lisa Bonet, "Coração Satânico" foi classificado "X", o que era reservado a produções pornográficas.

A batalha nos bastidores arrastou-se por semanas, com Parker irredutível em mexer no filme pronto, e o distribuidor, a TriStar, recusando-se a lançar um título X-rated - que não atingiria boa parte dos cinemas ianques. Por fim, dez segundos foram limados, "Coração Satânico" ganhou uma classificação mais branda, chegou aos cinemas... e sequer recuperou seu orçamento de US$ 18 milhões.

O resultado não arranhou a carreira de Alan Parker, que foi indicado ao Oscar de melhor diretor por seu filme seguinte, "Mississipi em Chamas". Mas teve efeito em Rourke, que voltou a ser boxeador profissional na década seguinte (e teve seu rosto desfigurado por cirurgias reconstrutivas), reencontrando um semblante de relevância já no novo século em filmes como "Sin City", "O Lutador" e "Homem de Ferro 2".

Nos anos seguintes, porém, o filme aos poucos foi sendo redescoberto (Christopher Nolan é um de seus fãs mais fervorosos). Louvado inicialmente por seu estilo visual, "Coração Satânico" passou a ser admirado por suas qualidades técnicas, como a edição fragmentada, em que só enxergamos o quadro inteiro ao final da jornada. A grande revelação do clímax (que obviamente eu não vou estragar) não perdeu um milímetro de seu impacto.

Boa parte dessa audiência acumulada ao longo do tempo vem do jogo complexo entre os personagens de Mickey Rourke e Robert De Niro. Como Louis Cyphre, o astro de "Taxi Driver" e "Touro Indomável" é um exercício em sutileza, fazendo com que pequenos gestos e olhares sutis aos poucos revelem camadas de alguém que é a encarnação do mais puro mal.

Mickey Rourke, por sua vez, é um achado. Até então ele não havia encontrado material para demonstrar sua entrega igualmente intensa e perigosa, ao mesmo tempo frágil e emocionada. Seu Harry Angel começa como o clichê do detetive dos romances noir dos anos 40 e 50, mas cresce como um enigma, e só abraçamos seu verdadeiro propósito narrativo porque Rourke carrega esse peso com louvor.

A morte de Alan Parker, como a passagem de todo grande artista, vai do lamento à celebração, porque torna-se motor para (re)descobrir sua obra. Emergindo da mesma geração de diretores britânicos advindos da publicidade, que revelou Ridley Scott, Adrian Lyne e Hugh Hudson, Parker deixa um legado eclético e corajoso.

Temos a música lúdica em "Quando As Metralhadoras Cospem", inspiradora em "Fama", celebratória em "The Commitments" e épica em "Evita". Temos pesadelos tão distintos quanto intensos em "O Expresso da Meia Noite" e "Pink Floyd - The Wall". Temos dramas arrebatadores em "Asas da Liberdade", "Mississipi em Chamas" e "As Cinzas de Ângela".

Mas sua obra máxima, tanto para o moleque nos anos 1980 quanto para o sujeito que agora traça essas linhas levemente desordenadas, continua sendo a espiral descendente para o absoluto terror, da mente e da alma, que é "Coração Satânico". Uma obra prima. Mesmo que o final não fosse feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL