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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Run Lady Gaga, Brasil needs your help!

Lady Gaga por favor, atenda o telefone! - Reprodução
Lady Gaga por favor, atenda o telefone! Imagem: Reprodução
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Renata Corrêa

Renata Corrêa (Rio de Janeiro, 1982) é roteirista, escritora, dramaturga. Com forte presença nas redes sociais (@letrapreta, no Twitter, e @recorrea, no Instagram), seus trabalhos têm foco no humor e no protagonismo feminino. Autora do livro ?Vaca e Outras Moças de Família? (Ed. Patuá), da peça ?A Fábrica de Cachorros?, e do documentário ?Clandestinas?, sobre aborto no Brasil. Apresenta com Carla Lemos, colunista de Universa, o Podcast Primas, sobre cultura produzida por mulheres, e a série de vídeos ?Como Não Ser Um Machista Babaca?. Escreveu a série ?Perrengue? (MTV) e foi roteirista dos programas ?Greg News? (HBO), ?Tá no Ar? (Rede Globo) e ?Fora de Hora? (Rede Globo). Atualmente é contratada da Rede Globo, onde escreve o quadro ?Mulheres Fantásticas? e uma nova série de humor para o Globoplay.

Colunista do UOL

09/08/2021 04h00

O cancelamento randômico é uma arte que domino. Desde que o termo se popularizou já fui cancelada por

Uma amiga diz que meus cancelamentos são tão aleatórios que eu posso marcar uma cartela de bingo. Dessa vez cometi o pecado de não gostar de uma roupa que a Lady Gaga usou em Nova Iorque. Os little monsters ficaram muito ofendidos.

Segundo eles usei a fama da Mama Monster para engajar minhas redes sociais ao reclamar da moda "athleisure" que nada mais nada menos é usar roupa de ginástica como se fosse alta costura. Infelizmente para mim e para meus pobres seguidores, eu poderia ter usado a foto de qualquer ser vivente, mas ousei dar RT numa foto da cantora para exemplificar minha opinião.

O que parece uma história boba na verdade explica como as redes sociais moldaram o nosso afeto. E olha que essa palavra está desgastada, mas não tem outra para o caso - afeto, como o ato de se afetar - é a chave de como funcionamos emocionalmente. É aquilo que nos faz reagir, é aquilo que nos move, e é também o ouro do engajamento.

Sou da última geração que teve uma infância e adolescência livres da internet e que já era uma jovem adulta quando as redes sociais se popularizaram. Os conflitos no geral tinham que ser resolvidos cara a cara (ou no máximo por telefone) e a minha comunidade de relações era limitada geograficamente e pelos ambientes de convívio - escola, trabalho, família. Logo, se a treta estourasse, o caminho era um mínimo entendimento comum ou a tolerância. Afinal aquela garota insuportável da sua classe só iria embora, com sorte, no fim do ano letivo. E, até lá, o jeito era gerenciar ou ignorar.

Pela primeira vez as redes sociais recebem pessoas (me recuso a falar usuários. Somos pessoas, mesmo quando nos recusamos a agir com um mínimo de civilidade) que não tiveram essa experiência, que tem o seu afeto mobilizado de maneira diferente, e as relações construídas de maneira diferente do longínquo passado offline. E isso é maravilhoso. É bom não ter a limitação geográfica, e poder encontrar pessoas parecidas conosco em qualquer lugar, com as mesmas paixões e que olham a vida por um ponto de vista semelhante. Por outro lado, ao contrário da bermudinha biker Marc Jacobs xexelenta que provocou essa crônica - o debate saiu de moda. E quando estamos em um ambiente onde o diálogo morre a única coisa que sobra é o ódio.

O tema é importante para mim há anos, e já escrevi sobre ele anteriormente. O ódio traz alguns ganhos secundários - gera lucro, ajuda na manutenção do status quo, mas principalmente é a cola que une subjetividades num mundo tão fragmentado. O que isso quer dizer?

Que o ódio traz conforto emocional para grupos de pessoas que não sustentam estar em um mundo diverso.

Freud cunhou o termo "narcisismo das pequenas diferenças" - prática onde um grupo coloca uma lupa superlativa nas discordâncias e com isso reforça os laços com quem pensa igual; mas também legitima ações violentas de eliminação do outro. Claro que para uma mulher adulta como eu, com a saúde mental mais ou menos em dia e com uma vida gostosa, foi quase engraçado ser chamada de horrorosa, burra, recalcada ou ler pedidos que eu sumisse. Mas nem sempre os alvos estão aptos a sustentar essa tranquilidade.

No último dia 03 de agosto o jovem Lucas Santos, de dezesseis anos tirou a própria vida após ataques homofóbicos online. Recentemente, a pequena filha de Manuela D'ávila sofreu com fake news e ameaças de estupro utilizando imagens capturadas por um pai da escola onde Laura frequenta. As coisas que fazemos online tem consequências muito graves na vida real.

A própria Lady Gaga constrói sua carreira com uma posição forte contra violência nas redes, bullying, assédio, homofobia e racismo. Sendo crítica a esse tipo de violência que parece inofensiva mas que pode machucar de verdade. Os monstrinhos brasileiros não seguem os ensinamentos da mama porque ela não é um exemplo a ser seguido, ela se torna um pretexto para o narcisismo; pouco importa a artista e a pessoa, ou o que ela diz, mas sim que ela foi o produto escolhido pelo grupo como catalisador desse narcisismo. Ser fã, seguidor ou eleitor legitima uma performance de violência. Violência que não está no seu ídolo, mas sim dentro de cada um de nós.

Digo nós, pois não me tiro dessa equação de reação impulsiva, muito pelo contrário. Já falei muita coisa horrorosa, já perdi a cabeça, e já bati boca e não prometo que não farei de novo - mas nunca me falou a curiosidade de ouvir quem não se parece em nada comigo, e isso muitas vezes me salva de mim mesma.

Uma das soluções para secar a fonte desse ódio seria ter regras mais rígidas sobre bullying e assédio online vinda das próprias plataformas e legislação específica que mediasse essas relações de maneira mais eficiente. Acontece que esse comportamento acrítico de manada nunca tem uma resposta satisfatória, pois redes sociais ensinam esse comportamento e mais que isso: o premiam. Ser infame e agressivo, stalker, e ter um comportamento online tão tóxico que na vida offline te expulsaria de qualquer ambiente ou grupo social é exatamente a práxis que aumenta vertiginosamente o número de seguidores, engajamento e de interações. Não há como resistir a esse apelo, se muitas dessas pessoas muito muito jovens medem o próprio valor por esses indicadores.

Ser alvo de machismo e ataques virtuais é uma rotina que já aprendi a lidar, pois não vou abandonar o espaço de diálogo e humor que tanto prezo. Ou seja, a feia aqui não vai a lugar nenhum. Mas talvez a gente precise pensar para onde estamos indo coletivamente, humanamente, quando o ataque, a mentira, o assédio, e a brutalidade se tornam uma maneira legítima de estar no mundo - e o único que sabemos.

A autora desse texto não se responsabiliza se mudar de ideia e for flagrada usando bermudinha ciclista aqui e aqui também.