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Luedji Luna e o magnetismo do afeto em 'Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água'

Luedji Luna lançou o disco "Bom Mesmo É Estar Debaixo D"água" - Divulgação
Luedji Luna lançou o disco "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água" Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

17/10/2020 13h53

Ouça Luedji Luna

  • Clipe de 'Banho de Folhas' foi assistido mais de 5 milhões de vezes no YouTube
  • Novo disco três anos depois do álbum 'Um Corpo no Mundo'
  • Trabalho gravado em Salvador, São Paulo e Nairóbi (no Quênia)
  • Um disco com muito jazz e MPB, coproduzido por Luedji e Kato Change
  • Também foi lançado um videoalbum com uma narrativa única dirigida por Joyce Prado

Três anos se passaram de "Um Corpo no Mundo". E vieram dois partos de uma vez só. Primeiro, Luedji Luna teve o primeiro filho, Dayo, em julho. Depois, no dia 14 de outubro (quarta-feira), o segundo álbum, "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água".

Atravessada pela maternidade, Luedji Luna cria uma narrativa que dá continuidade ao álbum de 2017, "Um Corpo no Mundo", um disco dos melhores daquele ano, uma narrativa de mulher preta em um mundo que diferencia cada um pela cor da pele e pelo gênero.

E escrevi que Luedji foi "atravessada" pela maternidade ali em cima, mas quem atravessa é ela. Passa pela gente, ouvinte, sem permitir que sigamos iguais depois do primeiro play.

Capa do disco da Luedji Luna - Divulgação - Divulgação
Capa de "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água", de Luedji Luna
Imagem: Divulgação

"Transformadora" também é uma ótima palavra pra ser usada aqui

Uma das mais importantes novas vozes da música brasileira contemporânea, ao lado de Xenia França, Liniker e Letrux, Luedji Luna é baiana, deixou Salvador com palavras de encorajamento da mãe há cinco anos. O amargor de uma vivência uma São Paulo, sem se ver em lugares que frequentava, foi o estopim pro primeiro álbum.

Agora, chega "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água", com uma narrativa que é mais uma continuidade do que uma ruptura. Afetividade é a palavra-chave desse trampo.

"Como a sociedade enxerga as mulheres pretas no campo da afetividade?"
Luedji Luna

"Como as mulheres pretas expressam essa afetividade?", ela pergunta também. O álbum responde e discute às questões de Luedji.

Gravado entre o Brasil (em São Paulo e Salvador) e o Quênia (em Nairóbi), o disco tem a coprodução do guitarrista queniano Kato Change, com quem Luedji já havia colaborado no primeiro trabalho dela. Agora, eles assinam juntos a produção álbum.

Ao se descobrir grávida, Luedji cancelou as férias e partiu para o Quênia

Kato Change formou uma banda com músicos locais, Madagascar e de Burundi, para que trabalhassem lá as canções. Com liberdade, esses incorporaram a linguagem sonora do jazz à "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água". Um álbum solto, sem amarras. Jazzístico, solado, coletivo e individual, com brilhos de cada um dos instrumentos.

E na voz, claro, de Luedji Luna.

Luedji Luna - Helen Salomão / Divulgação - Helen Salomão / Divulgação
Luedji Luna lança o disco "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água"
Imagem: Helen Salomão / Divulgação

Na onda dos reencontros (são vários artistas que voltam a colaborar com ela neste trabalho), Luedji trabalhou novamente com a diretora Joyce Prado, quem assina o clipe de "Banho de Folhas", hit do primeiro álbum da artista, com mais de 5 milhões de visualizações no YouTube.

Agora juntas, elas criam um videoalbum para "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água". Joyce, vencedora do importante prêmio WME (sigla do Women's Music Event), na categoria de melhor diretora de clipe, e cofundadora do APAN (Associação dos Produtores do Audiovisual Negro), cria uma história visual única com 7 faixas do álbum mais dois dos poemas declamados no álbum. Luedji Luna chora, ri, nada, mergulha, olha fixamente para a câmera. É bonito e hipnotizante.

Tire 20 minutinhos do seu dia para assistir essa belezinha aqui:

Solitude e solidão se misturam ali. Ambas se ligam no afeto tratado pela artista. É o caso de "Retrato", uma canção que tem um grito de independência, mas também de saudade:

"Hoje vou me fingir de morta
Não vou tirar retrato /
Não vou lavar o prato /
Nem procurar ninguém /
Vou dormir sem roupa /
Sonhar com a sua boca"

Amor e desamor, também se unem. Um amor que rasga, que arranha e que machuca. Dói, como dói. "Qualquer gota de amor afoga", canta Luedji em "Goteira", música que encerra o disco e é uma composição inteirinha dela.

Em "Ain't I a Woman?", composição de Luedhi e Ravi Landim, a artista despeja outra pedrada:

"Eu sou a preta que tu come e não assume /
E não é questão de ciúmes /
Tampouco de fé /
Por acaso eu não sou uma mulher?"

Vou colocar a música para você ouvir aqui, também:

Inundando todo o álbum está a água. Ela, que preenche todos os espaços, lava, limpa, purifica. Ela se apresenta na fluidez instrumental, no diálogo entre cada uma das 12 faixas ouvidas sem perceber ou pensar demais na mudança de cada uma das músicas.

Sob o espírito libertário e brigador de Nina Simone, Luedji recria "Ain't Got No", uma versão de "Ain't Got No - I Got Life". Além emular Nina, Luedji traz a poetisa Conceição Evaristo para recitar o próprio texto "A Noite Não Adormece nos Olhos das Mulheres", que é embasbacante.

Outro poema mexe com a gente neste disco e está em "Lençóis", música escrita por Luedji e Cidinha da Silva. De autoria da brasiliense Tatiana Nascimento, quem também declama frases de um amor lascado, frágil, mas brilhante, o poema é de cair o queixo e doer o coração:

Acho que você já entendeu, mas se dê esse presente de ouvir a música inteirinha, com o poema:

"Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água" é um disco sobre o magnetismo do afeto. De como gravitamos em torno disso. E de como a falta dele afeta-nos, afeta a cabeça, o coração, afeta uma sociedade que vive no ódio do outro, da pele, dos traços, das origens díspares. Quando mais distante desse afeto, mais sem órbita ficamos.

Luedji Luna, inundada por esse afeto, diz:

"Na minha canção, a mulher negra é musa"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.