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Luciana Bugni

Stones no Rio em 2006: assistimos grandes shows querendo ver o próximo

Charlie Watts: compenetrado e elegante sempre - Andrew Cowie/AFP Photo
Charlie Watts: compenetrado e elegante sempre Imagem: Andrew Cowie/AFP Photo
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

24/08/2021 15h13

No dia 18 de fevereiro de 2006, às 7h15 da manhã, Jair, dono de uma barraca de praia no Leme, no Rio, andava até um grupo de turistas que se acomodou perto do mar. Distribuiu as cadeiras, montou os guarda-sóis. Voltou uns segundos depois com um balde de cerveja e gelo. O grupo reclamou: "Pô, Jair, está muito cedo". "Sem compromisso, para esperar os Stones", ele respondeu.

Uns dois minutos depois, eu já tinha aberto a primeira lata. Faltavam ainda umas 14 horas para os quatro Rolling Stones chegarem ao palco montado em frente ao Copacabana Palace, a alguns quilômetros dali. Seria um dia longo de espera na praia, no auge do verão carioca. Não só para mim e meus amigos, que havíamos passado a noite dentro de uma van a caminho do Rio de Janeiro. 1.3 milhão de pessoas estaria lá naquela noite.

A apresentação fazia parte da turnê A Bigger Band World Tour. Os caras rodaram o mundo com esse show por dois anos e, segundo me contou a Wikipedia, foram vistos por mais de 4.6 milhões de pessoas. Mais de um quarto delas estava na praia naquele dia.

Em 2006, no Rio de Janeiro, já era impressionante que os Rolling Stones estivessem juntos no palco ainda. Keith Richards e Mick Jagger na frente, Ron Wood ali para o lado e o elegante Charlie Watts atrás. Charlie, uma dessas figuras simpáticas que a gente acha que conhece bem só por conhecer há muito tempo.

Charlie era diferente dos outros Stones. Sua aparência de elegante senhor inglês não ornava completamente com a maluquice de Keith, o gingado de Mick e (não me matem) o charme de Ron. De longe, com uma guitarra na mão, todo mundo tem seu charme, ué.

Será que é o último?

Shows de bandas emblemáticas sempre trazem uma sensação estranha de despedida. "Será que vou conseguir vê-los ao vivo de novo?", é o que sempre penso quando estou lá fazendo exatamente isso.

A tarde caiu, a noite veio e com ela uma enxaqueca poderosa — a combinação de 12 horas de sol na cabeça com a cerveja do Jair e alimentação equivocada não deu muito certo. Quando os Titãs estavam abrindo o show, eu estava pertinho do palco: na enfermaria tomando remédio na veia.

Saí da tenda medicada ao som de Satisfaction: os médicos faziam "air guitar" imitando os acordes do clássico na frente na porta, sem parecer se importar com os ensanguentados que entravam no lugar. Já tinha perdido todos os amigos, exceto uma fiel escudeira que foi comigo andando de volta até o Leme para tentarmos ver o show com mais tranquilidade. Usamos os últimos cinco reais para alugar duas cadeiras de praia.

Crianças brincavam ali do lado, os navios de cruzeiros faziam fila no mar e enfeitavam tudo com suas luzes. Mick Jagger cantava. Keith e Ron com visual verão carioca no palco. E Charlie pelo telão, seu olhar acolhedor e um sorriso que não sorri, chique, de jaqueta. Foi uma das cenas mais bonitas que já vi. Eu relaxei. E dormi. Acordei na última música do show (Wild Horses? Angie?). Minha amiga sorriu para mim e disse que tinha sido lindo. Voltamos andando pelo túnel até o Flamengo, onde pegamos a van e voltamos para São Paulo.

A frustração seria maior se não tivesse ganho a segunda chance. Por sorte, pude vê-los de novo no Morumbi, em 2016, em uma noite chuvosa. De novo, aquela sensação: será que dá tempo de mais um show? A gente sempre quer mais.

Na auge da pandemia, em 2020, a banda gravou "You can't always get what you want", cada um na sua casa. Mick Jagger estava ali orquestrando a parada, Keith Richards tinha um copo de uísque ao lado, Ron Wood num mezanino, com seu (olha lá eu de novo) charme. E Charlie Watts era a porção de deboche: sem bateria, de fones de ouvido, ela fazia suas viradas com baquetas no ar.

Simbólico, o que Watts fazia era bem o que estávamos tentando fazer em abril de 2020: fingir levar uma vida normal que nem existiria mais.

Tocar o nada. Charlie, sempre tão escondido atrás dos pratos e caixas, era o protagonista nos representando na tela.

Eu me emocionei: olha eles aí outra vez, quem sabe não passa logo a pandemia e a gente vai num show dos Stones com todos eles de novo? O rock existe para isso, para fazer a gente acreditar que pode tudo.

Mas a gente não pode sempre ter o que quer.

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