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Luciana Bugni

Claudia Leitte e a resposta certa que só vem 48 horas depois: quem nunca?

Claudia Leitte durante participação no "Altas Horas" neste sábado: a ficha caiu - Reprodução/TV
Claudia Leitte durante participação no "Altas Horas" neste sábado: a ficha caiu Imagem: Reprodução/TV
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

25/05/2021 14h50

Você é confrontado no sábado à noite e sai pela tangente porque não sabe muito bem que resposta dar sobre o assunto.

Aí você desce a escada do lugar onde estava já indo embora e tcharan... a resposta inteligente vem. Tarde demais, o interlocutor já foi embora. Tem variantes do momento em que a resposta brilhante chega. Geralmente é quando o bar já fechou, o celular não dá sinal no metrô, você já encerrou a reunião no zoom, já bloqueou o inimigo no Whatsapp (imagina desbloquear só pra dar a resposta final?).

O fenômeno é antigo e tem até nome em francês: L'esprit de l'escalier. Ou, o Espírito da Escada. É ali nos degraus da saída que vem a resposta perfeita junto com um fantasminha cruel (você pode imaginá-lo como um emoji batendo a mão na testa) cheio de arrependimento: como é que não pensei nisso antes? Quem usou a expressão pela primeira vez foi o filósofo francês Diderot, lá no século 18. Chique demais.

Aconteceu com Claudia Leitte essa semana. Ela foi confrontada no Altas Horas, no domingo de madrugada. Se quiser ser fiel aos fatos, foi uns dias antes — Serginho Groismann não faz ao vivo. Ali perguntaram como ela se indignava a respeito do que vinha acontecendo no Brasil. Claudia não esperava ser confrontada daquela maneira: no país polarizado em que vivemos, a resposta pode render cancelamentos de ambas as partes.

A cantora tentou sair pela tangente. Falou da gratiluz, de ver o lado positivo da coisa, de tentar enxergar o que há de bom. Estranho que Claudia não veja o lado negativo da pandemia: além do meio milhão de mortes evitáveis que coloca o país entre os piores lugares do mundo para se viver, a doença abala especialmente o setor de trabalho dela.

Com a COVID-19, os shows deram uma estacionada. Ela é uma estrela do axé que tem investimentos e margem de lucro, além de seguir fazendo publicidade, para não ficar pobre. Mas tem músico passando fome, sim.

Se viver no Brasil em 2021 não é motivo para se indignar, eu não sei o que seria. O país continua morrendo de uma doença para a qual já há vacinas.

O mundo está se imunizando enquanto a gente espera a boa vontade externa já que, na hora de assinar os contratos com os laboratórios, lá em março de 2020, o presidente estava dizendo que vacina não prestava.

O presidente, aliás, continua com um discurso parecido. Até hoje não se vacinou em público para incentivar mais gente a ser vacinada. Essa é a única maneira de proteger a todos. Inclusive a própria Claudia, os filhos dela e seu marido. Não há torre no alto de um castelo de princesa que proteja o brasileiro da doença. Só estaremos seguros quando todo mundo estiver seguro.

A escada de Claudinha

Pois nada disso passou na cabeça de Claudinha na hora em que foi perguntada sobre o assunto. Ela preferiu falar sobre as coisas boas.

Mas, é aquilo: passa um tempo e a resposta vem. No caso dela, dois dias depois. Quando a mídia já tinha caído em cima, quando a classe artística estava mais indignada que Gil do Vigor, quando todo mundo estava com cara de "não pode ser" há 48 horas, ela decidiu se desculpar em seu Instagram.

E aí, sim, lembrou na crise no setor cultural, da falta de incentivo às máscaras, da falta de vacinas. É bom quando acontece de a resposta certa vir. Claudia pediu perdão por ter demorado tanto.

A cartunista Laerte tem uma tirinha clássica que mostra a ficha caindo — infelizmente tarde demais, como um meteoro que vai destruir a Terra. Ficha, para quem nasceu na era mobile, era o que a gente usava nos orelhões, telefones públicos de antigamente, para ligar da rua. A ligação demorava para completar porque a ficha metálica estava fazendo seu percurso dentro do aparelho até finalmente cair e completar a chamada. Quando cai a ficha é bom.

a grande - Laerte/ Reprodução - Laerte/ Reprodução
A grande ficha vai cair?
Imagem: Laerte/ Reprodução

Às vezes a ficha demora para cair e não encontra mais ninguém na linha para atender a ligação. Ou o só vem quando o espírito da escada traz essa luz com um debochezinho "mas você nem para pensar em falar isso, hein?".

O problema mesmo é quando ela vem em forma de meteoro, pegando fogo, e destrói tudo. A julgar pelo apoio que o governo ainda recebe da população, estamos mais perto da previsão de Laerte do que imaginamos. Aí vai ser pouca escada para tanto Brasil perceber que é hora de se indignar, sim.

Você pode discordar de mim no Instagram.