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Luciana Bugni

Será Paulo Gustavo o ícone que vai fazer o Brasil mudar a rota finalmente?

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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

04/05/2021 22h12

Eu tinha seis anos de idade em abril de 1989 e não queria subir para o segundo andar do sobrado onde eu morava porque sabia que "a revista daquele moço" estava na escada. A famosa capa da Veja com um Cazuza agonizando me assustava. Não sei se pela seriedade da imagem, ou pelo impacto que devo ter visto ela causar em algum adulto por perto.

Anos depois, aprendi o que era Aids, a doença que mudou os hábitos sexuais daquela geração e ditou como as gerações futuras se comportariam em relação ao sexo. Na infância, tinha medo do rapaz magro que me olhava na revista. Na adolescência, tive medo da Aids.

Minha geração aprendeu o perigo da doença após ver os heróis morrendo. Iniciamos nossa vida sexual de maneira tortuosa, combatendo o negacionismo dos "sem camisinha é mais gostoso". Perdemos alguns ídolos nesse período, mas hoje nossos amigos HIV positivo já podem viver bem: a imagem de um soropositivo não assusta criancinhas porque o mal não mata mais como naquela época.

Cazuza em foto de 1989: a capa foi polêmica, mas ninguém esquece - Reprodução/ Revista Veja - Reprodução/ Revista Veja
Cazuza em foto de 1989: a capa foi polêmica, mas ninguém esquece
Imagem: Reprodução/ Revista Veja

A capa de Cazuza, fotografada por Sergio Zalis, me veio à cabeça ao acompanhar a agonia de Paulo Gustavo nas últimas semanas, que lamentavelmente culminou em sua morte. Pensamos no comediante como um homem forte, cheio de vida, que fazia rir. Os posts de seus amigos durante o período em que ele ficou no hospital eram cheios de esperança. Jovem, Paulo seria o oposto do que se chama por aí de grupo de risco.

Sua morte vem para contrariar a coragem dos destemidos sem máscara que insistem em expor pessoas como eu e você ao risco de morte pela doença.

O fim da risada de Paulo Gustavo pode nos comover verdadeiramente?

A morte de Cazuza, ídolo nos 80, se somou à de Freddie Mercury, pela mesma doença. Sensibilizou pessoas e ainda colaborou com a estigmatização dos gays como pecadores contaminados. Por anos, casais hétero acreditaram que estavam livres da doença, enquanto transmitiam o vírus pela falta de proteção. Mas mesmo assim, a Aids matou menos, em 30 anos, do que a covid-19 em 12 meses. Está certo transar sem camisinha? Não. Igual botar o nariz para fora sem máscaras potentes.

Paulo Gustavo desaparece entre outros tantos mil corpos hoje. A gente não consegue mais computar. Superamos 400 mil mortes. Corpos empilhados no sol. Transporte de cadáveres em vans escolares. Sacos pretos no telejornal. Enquanto isso, aglomerações ilegais pela "saúde mental". O que mais falta acontecer para que a gente se compadeça como nação e se isole o máximo possível?

Quando a gente vai se unir e cobrar do governo que nos dê condição para viver sem risco de morrer sem ar nem sem comida?

Enquanto isso, aqui no Brasil

A doença fica mais letal enquanto o nosso egoísmo insiste em apostar no novo normal que nos convém, sem máscara nem respeito. Enquanto o Brasil chorava a convalescência de Paulo, se abraçava em encontros que expõe quem a gente gosta ao mesmo risco. O mantra da "minha saúde mental" soa vazio enquanto enterramos milhares de pessoas todos os dias.

Os cientistas temem que o livre arbítrio do brasileiro possa criar em algumas semanas uma variante resistente à vacina. Chegamos num ponto do desgraçamento em que nem os parentes mais velhos vacinados apaziguam o coração. Pelo contrário: "Vô, o senhor pode continuar usando máscara depois de vacinado para proteger todos nós?"

O zelo pela vida dos idosos, que nos acompanhou durante todo o ano passado, virou um medo pela nossa própria vida. No jornal, a gente procura alguma notícia boa que reforce uma ou outra esperança que nossa teimosia insiste em agarrar. Nem isso aparece em dias assim. Paulo Gustavo está morto. Como é que se poderia rir?

Costumo dizer que a arte salva, o riso também. Hoje fiquei infinitamente triste pelo apagamento das duas coisas. Triste por Paulo Gustavo, triste pelas outras mil e tantas vidas. E por mim. Ando triste de Brasil. A covid-19 é uma doença injusta, como tem sido o comportamento do brasileiro que ainda acha que se abraçar pela saúde mental é mais importante do que evitar o luto. Está todo mundo doido? Estamos um pouquinho mais a cada dia. Mas a cabeça se cura mais rapidamente se a gente não tiver que conviver com o vazio da morte.

Uma esperança vazia de que o calar do riso de Paulo Gustavo faça com que a gente se sensibilize. Não dá para piorar para sempre: um dia a gente cai na real e muda a rota. Para poder rir de novo.

Minha música favorita dos Novos Baianos compara o doído e o doido. Acho que tanto faz hoje em dia no Brasil.

Eu lamento profundamente que tenha de ser assim.

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