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Leonardo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Globo encerra CDs de novela e dá uma facada na nossa memória afetiva

Trilhas de novela da Globo - Reprodução/Mercado Livre
Trilhas de novela da Globo
Imagem: Reprodução/Mercado Livre
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

27/09/2021 04h00

É o fim de uma era. Confirmando especulações, a Rede Globo informou que encerrará de vez o lançamento de trilhas sonoras de novela em formato físico, após cinco décadas de sucessos em uma das dobradinhas mais bem-sucedidas da cultura popular brasileira.

A decisão da gravadora Som Livre, vendida recentemente à multinacional Sony Music, vale tanto para os folhetins quanto para CDs de cantores que integram seu casting.

As últimas trilhas lançadas fisicamente foram "Amor de Mãe Vol. 2" e "Salve-se Quem Puder Vol. 1". De agora diante, para escutar as músicas do personagens mais amados —e odiados— do país, só recorrendo às versões do streaming. E olhe lá!

Mas o que isso significa de fato, você pode estar se perguntado?

Eis os meus cinco centavos sobre o assunto.

Centavo 1
CD deixou de ser uma mídia comercialmente viável

O encerramento não surpreende. Com a pirataria dos anos 90 e 2000, o MP3 e, mais recentemente, a hegemonia do streaming, CDs deixaram de ser vendidos massivamente.

O Grupo Globo, cujo setor artístico passa por uma das maiores reformulações da história, na verdade não está fazendo nada além do óbvio. Uma empresa vive de lucro, afinal.

Basta lembrar que as trilhas sonoras globais mais recentes receberam tiragens quase simbólicas de cerca de mil unidades, ante os mais de 2 milhões de cópias comercializadas com "O Rei do Gado" (1996), um dos discos mais vendidos de todos os tempos no Brasil.

Centavo 2
O Brasil é um país de indústria paupérrima

Se estivéssemos no dito primeiro mundo, com indústria pujante e economia estável, é certo que seria diferente. Lá fora, o suporte físico resiste como forte nicho de mercado e sem estar restrito apenas ao de usados, como ocorre no Brasil.

Os maiores estúdios de cinema e séries do mundo continuam lançando fisicamente, e com sucesso, edições especiais de suas trilhas, sejam em vinil, CDs e K7, como este lindíssimo de 'Stranger Things'.

Centavo 3
O papo de que a Globo miraria o público "geek" com série e novelas não é bem assim

Apesar de este ser o discurso adotado nos últimos anos, com alto investimento na Globoplay e presença em eventos como a CCXP, ele funciona só até a página 2.

Conservadora, a emissora demonstra ainda não entender quem é seu público mais devoto —vamos chamá-los genericamente de 'nerd'— e quais são seus novos hábitos de consumo, que vão além de assistir ao streaming e ouvir podcasts. Falta visão.

Editar —ou reeditar— trilhas em edições limitadas em LP para atender aos nerds de novelas, aproveitando o boom do vinil, traria bons frutos ao produto televisivo. E mostraria que a emissora está olhando para frente —e para trás, ao mesmo tempo, porque o tempo é cíclico.

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Centavo 4
Colecionadores ficarão órfãos

Quer uma demonstração da força das trilhas? Entre em qualquer sebo ou loja de usados ou consulte qualquer coleção de discos menos viciada e tenha certeza de que encontrará pelo menos um destes discos abaixo.

Mas nem tudo é tão doce quanto o final de "Amor de Mãe", segundo os próprios colecionadores. As trilhas entraram em crise.

Fico triste pelo fim do formato físico. Mas, ultimamente, elas não vinham atingindo a qualidade e inovação das décadas de 90 e 2000. Ficaram repetitivas, sempre com músicas antigas, com arte gráfica pobre. E nem temos mais trilhas separadas por músicas nacionais e internacionais.
Andre Cahecchia, colecionador e pesquisador em teledramaturgia

Centavo 5
A cultura popular brasileira está sendo golpeada

Como já bem escreveu o amigo jornalista Sérgio Martins, as trilhas de novela são termômetro do sucesso e retrato dos costumes e dos estilos musicais consumidos pelo povo brasileiro.

Ao longo das décadas, foram trampolim para a MPB, emplacaram cantores e hits internacionais e brilharam ao levar exclusividade à dramaturgia, transformando-as no mais bem acabado produto da nossa cultura pop.

O quiz a seguir não me deixa mentir

Toda essa riqueza de e curadoria foram se diluindo aos poucos nos últimos anos, sem que o grande público percebesse, concomitantemente à erosão do mercado musical e à queda do consumo de mídia física nos últimos 15 anos.

O resultado desse processo corrosivo é a era em que vivemos. Uma infinidade de informação e artistas disponíveis movidos a algoritmos, com uma música cada vez mais indistinta e descartável, taos quais a maioria das telenovelas.

Coincidência? Prefiro acreditar que não. E, infelizmente, esse parece ser um caminho sem retorno à vista

Você tem pitacos, críticas ou só quer contar qual é sua trilha de novela favorita? Então escreva no campo dos comentários ou envie uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo) ou Twitter (@hrleo_).

E até a próxima datilografada!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL