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Leonardo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A pior entrevista de Jô Soares: o dia em que ele falou sobre disco de vinil

Divulgação/TV Globo
Imagem: Divulgação/TV Globo
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

13/09/2021 04h00

Antes de mais tudo, parafraseando Carlinhos Avelar, deixo a ressalva: adoro Jô Soares, suas entrevistas e todo o entretenimento fornecido por ele durante décadas. Trata-se de um gênio da comédia e comunicação. Sinto falta de ir para cama com ele. Mas o ser humano Jô também cometia equívocos em seu programa.

E um dos maiores ocorreu na Globo, no dia 26 de agosto de 2010, quando recebeu João Augusto e Rafael Ramos, pai e filho donos da fábrica de LPs Polysom, que havia acabado de reabrir após longo inverno. Pior entrevista em 28 anos de talk show? Muito provavelmente.

Explico

Em vez tirar o melhor dos entrevistados com informação e humor sapiente como de costume, Jô, orgulhoso defensor do CD e do digital, preferiu minimizar o trabalho da dupla por não enxergar muita utilidade nele. Faltou respeito. Com convidados e público.

Tire suas próprias conclusões: a entrevista está disponível na íntegra na Globoplay e YouTube

Antes de prosseguirmos, vamos a um pouco de contexto

Músico e colecionador dedicado, Jô Soares havia se desfeito de seus antigos discos e repassado dezenas deles aos integrantes de seu grupo Sexteto, cujos integrantes —nem todos— defendiam a superioridade sonora do analógico.

Acontece que o apresentador nunca concordou com eles. E não seriam os pobres João e Rafael, reféns da situação, que o fariam mudar de ideia.

A ideia da entrevista, no entanto, era ótima: demonstrar as diferenças de som entre LP, CD e MP3, três formatos que conviviam em 2010, quando o revival do vinil já começava a fazer barulho.

Com intuito de atenuar as limitações do som transmitido via TV, os convidados ainda trouxeram um aparelho osciloscópio para exibir gráficos de frequência de cada um dos formatos em uma tela.

Tinha tudo para dar certo. Mas deu absolutamente errado. Por culpa do apresentador, o que se viu ali foi um verdadeiro show de horrores.

Aliás, temos uma demonstração ali totalmente inútil ao meu ver. O que interessa é que você não vai ter uma parafernália dessa no seu automóvel, no quarto.
Começou Jô, já deselegante

Sem conhecimento no assunto e despejando sarcasmo nos convidados, ele chegou a imitar uma pessoa com deficiência auditiva ao inferir que só ela conseguiria notar qualquer diferença pró-vinil. Um erro.

Rafael Ramos, circunspecto e incólume, precisou intervir, mas sem sucesso.

A gente não está aqui para falar que o som do vinil é melhor. Foi uma ideia que se teve para fazer uma brincadeira sobre essas três gerações de mídia. O grande lance é que...
Disse ele antes de concluir o raciocínio, já que foi interrompido por Jô Soares

A demonstração

O teste então foi realizado para a plateia com um MP3 player, um CD player e um toca-disco, que, nessa ordem, tocariam a música "Me Adora" da cantora Pitty.

Assim que o vinil começou a rodar, o público imediatamente percebeu a diferença e o aplaudiu fortemente. Nenhuma surpresa. Mas para Jô não era o bastante. "Pra mim, continua igual", bateu o pé, brioso.

Então foi a vez de João Augusto tentar argumentar

"[No som do vinil] Você enxerga as pontas dos extremos dos gráficos [de frequência], Jô. Em cima e embaixo. Isso mostra mais dinâmica [sonora]", esforçou-se o ex-diretor artístico da gravadora EMI, que já produziu Legião Urbana, Erasmo Carlos e Marina Lima.

Efeitos sobre nosso host? Zero. A birra sobrou até para o engenheiro de som da Polysom, que daria uma explicação mais técnica, mas preferiu não aparecer na TV por ter vergonha da tela.

No lugar dele, eu também teria
Brincou Jô Soares, passando de todos os limites e criando uma das maiores tortas de climão da história da TV Globo.

Em clima de total constrangimento, a entrevista então foi encerrada de forma melancólica, com elogios à dupla e ao pioneirismo da Polysom. Eu só pergunto: precisava? Deveria ter havido ao menos um pedido de desculpas.

O que dá para salvar daquele dia desastroso?

Delete tudo e foque apenas em uma reflexão lançada involuntariamente por Derico. Em dado momento, Jô perguntou aos músicos qual era a mídia preferida de cada um, e um dissonante Derico falou de seu amor pelos CDs.

Na visão dele, os disquinhos prateados têm som perfeito, são portáteis e podem ser ouvidos enquanto realizamos tantas outras atividades. O que é uma imensa verdade.

Mas também é real que muita coisa mudou desde 2010

Nos últimos 11 anos, conhecemos os smartphones e ficamos ainda mais atarefados no dia a dia. O tempo se tornou praticamente um artigo extinção na vida moderna. E já percebemos como é importante tentar fluir na direção oposta: desacelerar, nos concentrar em algo.

Em nome da nossa combalida saúde, nada como, ao menos vez ou outra, não fazer nada além de meditar, ler um bom livro ou ouvir um extasiante LP, apreciando sua arte gráfica e a experiência envolvente que só ele proporciona.

Porque, diferentemente do que acreditava Jô Soares, mídia física vai muito além do sentimento normalmente raso da nostalgia.

Concorda? Até a próximo giro!

PS 1: a coluna entrou em contato com Jô Soares para comentar o episódio, mas não recebeu retorno até o momento de publicação deste texto. Ainda há tempo.

PS 2: como estou datilografando? Se você tem alguma crítica ou sugestão para esta coluna, não deixe de enviar uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo) ou Twitter (@hrleo_).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL