Joyce Pascowitch

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Ana Hickmann e Naiara Azevedo: isso é só o começo

Tem gente que até hoje acha que papo feminista é balela, que isso vem de mulheres insatisfeitas, etc, etc. Mas o fato é que, não é de hoje, que homens têm dificuldade de engolir uma relação diária de amor, afeto, sexo, parceria com mulheres que ganham mais do que eles, ou que têm mais projeção.

Isso deve vir do tempo das cavernas e, apesar de séculos e milênios, essa cultura continua vigente. Vamos ver o caso de Ana Hickmann. Linda, loura, alta, rica, mulher de sucesso na TV e nas redes, que teve a coragem de assumir que seu casamento era tóxico após procurar a polícia.

Logo em seguida, comecei a ler a opinião de várias mulheres defendendo a coragem de Ana Hickmann, demonstrando que isso abriria espaço para tantas outras que não têm coragem de denunciarem seus respectivos maus-tratos. Na verdade, nem sei se a palavra coragem se aplica aqui, porque é muito difícil uma mulher assumir que aquele mesmo homem por quem ela se apaixonou e amou durante um tempo, tenha se transformado justamente no seu algoz.

Parece clichê, e é mesmo. Essa história de Ana Hickmann mobilizou tanta gente, que todos os dias eu mesma me pego procurando na home UOL se tem alguma notícia nova. Briga de marido e mulher, todos nós sabemos como é, ou pelo menos a grande maioria sabe. Quando a gente compara o que tem em casa, com o que a gente vê nas redes sociais e no mundo das celebridades, é bom perceber que o telhado do vizinho é igual ao nosso, e que a grama dele não é mais verde do que a nossa.

Fico pensando o que é pra uma mulher conhecida dessas, se expor dessa maneira e assumir que aquele mesmo companheiro de vida há tanto tempo, e que aparecia tão incrível no Instagram, é o mesmo que agora virou um grande vilão, por justa causa.

Difícil pra Ana, mas bom pra tantas e tantas mulheres que não têm coragem ou possibilidade. Afinal, esse é o tipo de exposição que ninguém quer pra si. O incrível é que, dias depois, aparece Naiara Azevedo, cantora que já participou do Big Brother Brasil, com queixas e denúncias semelhantes, só que no seu caso, de um ex-marido e ainda sócio.

O que será que faz, nós mulheres, acharmos que pelo fato de estarmos apaixonadas e nos casarmos, esse homem seria também o ideal para ser nosso sócio ou comandar nossos negócios e vidas? Como a gente se mostra tão empoderada profissionalmente, e nos bastidores, em casa, e na vida real acontece esse tipo de cenário, a mulher dependendo do marido e sócio, e muitas vezes sendo enganada por ele, ou pelo menos não devidamente respeitada?

Com Madonna já foi assim, com Elis Regina também e com tantas outras que não tem nem espaço aqui pra citar. Fato é que quanto mais mulheres famosas e conhecidas e reconhecidas conseguirem mostrar as suas verdades, melhor para todas as mulheres do mundo. Sororidade não é papo aranha, sororidade é coisa séria, necessária e faz com que nós mulheres, nos sintamos mais pertencentes, mais protegidas.

Raros são os casais tipo Lázaro Ramos e Taís Araujo, onde aparentemente essas questões parecem mais equilibradas. Já é difícil encontrar alguém que dê match, mais difícil ainda é dar match e respeitar as conquistas do outro. Parece que mulheres sabem mais respeitar conquistas de seus homens.

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A recíproca está longe de ser verdadeira. Se eu nunca dei muita bola pra Ana Hickmann, ou pra Naiara Azevedo, mas me curvo agora e peço desculpas: vocês duas são dois mulherões. Essa coragem, não sei nem se eu teria, caso algum dia precisasse. Leio muito sobre isso e sinto o quanto sair desse armário é difícil.

Parabéns, Ana, parabéns Naiara. Que vocês inspirem tantas mulheres pobres, remediadas, ricas, empoderadas, outras nem tanto. Que todas se sintam parte desse time que não quer vencer exatamente o campeonato, mas apenas ter o direito de dar certo na vida.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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