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No Japão e Coreia do Sul, happy hour é para ficar bêbado - com seu chefe

Se o chefe bebe, todos bebem: estilo a brincadeira "O Rei Mandou" - Getty Images
Se o chefe bebe, todos bebem: estilo a brincadeira "O Rei Mandou"
Imagem: Getty Images

Gabrielli Menezes

De Nossa

11/03/2022 04h00

"Kampai!", entonam os japoneses na mesa de bar levantando copos após um dia de labuta. O gesto dá largada às famosas happy hours empresariais de grandes centros urbanos como Tóquio e Osaka.

Igual ao Brasil, o encontro etílico é uma prática que estimula a socialização e interação entre colegas de trabalho. Com um detalhe extra: lá, a hierarquia do escritório é um convidado invisível e inconveniente que sempre se senta à mesa.

"Toda hierarquia que tem na sociedade japonesa se representa também nesse momento. O chefe conduz o funcionamento e o movimento desse encontro", explica Roberto Maxwell, jornalista que mora no Japão há 16 anos e promove em São Paulo o evento The Shochu Week, dedicado a uma das bebidas mais consumidas no nomikai (happy hour em japonês).

Happy hour - Japão Coreia - AzmanL/Getty Images - AzmanL/Getty Images
Enquanto o chefe não chega, ninguém pode beber ou comer
Imagem: AzmanL/Getty Images

O gerente da repartição costuma chegar pontualmente ao ponto de encontro. Caso isso não aconteça, os funcionários devem esperá-lo para comer e beber.

"O assistente que trabalha próximo da pessoa mais 'importante' pede silêncio e chama a atenção de todo mundo. Depois, o chefe faz um discurso, agradece a presença e puxa o kampai, o primeiro brinde da noite".

A participação não é dita como obrigatória, mas está silenciosamente embutida na cultura corporativa. A necessidade de bebericar álcool fica na mesma situação.

"Num grupo onde não há abuso de poder, ninguém força ninguém a beber. Mas todos entendem que, se a ideia é beber, é para beber".

Happy hour - Japão Coreia - Getty Images - Getty Images
Costume é que um colega sirva o outro
Imagem: Getty Images

A ingestão de biritas está implícita ao ritual: os copos pequenos fomentam oportunidades de conversa e a "regra" é um funcionário servir o outro. Quando o líquido acaba, em vez de pegar a garrafa e encher novamente por conta própria, a etiqueta é esperar por mais um copo vazio.

Você fica atento para oferecer a bebida a alguém que acabou de beber e espera um colega pegar a garrafa e te servir também".

Colocar um ponto final na bebedeira sozinho é outra dificuldade. Enquanto o superior está na "função", todos o acompanham.

Happy hour - Japão Coreia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Churasquinho é requisitado nos izakayas (bares japoneses) e na Coreia do Sul
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A sul-coreana Lena Park, que dividiu a vida entre o Brasil e seu país natal, explica que a lógica é similar no hoesik (happy hour, em coreano). "Parece com aquele jogo de criança chamado 'o rei mandou'".

Ela conta que é comum o agito acontecer três vezes por semana sem ninguém questionar. E quando alguém acima na hierarquia da empresa está presente, não pega bem ir embora.

O código de conduta corporativo está com tudo no início do encontro e se esvai com o passar da noite. Ou melhor, da madrugada. Na Coreia do Sul, quanto mais o grupo emendar estabelecimento atrás de estabelecimento e soju atrás de soju, mais fama terá a happy hour daquele departamento na firma.

Já fui em até cinco lugares. Virei a noite bebendo e comendo muito. No dia seguinte, trabalhei normal".

Happy hour - Japão Coreia - Luknaja/Getty Images/iStockphoto - Luknaja/Getty Images/iStockphoto
Soju: bebida destilada típica da Coreia do Sul
Imagem: Luknaja/Getty Images/iStockphoto

Segundo Lena, a escolha dos lugares é baseada na comida. "No Brasil, é possível tomar cerveja por horas e não há a obrigação de escolher um prato principal. Aqui, é respeitoso pedir a comida por ocupar o espaço".

O costume é começar numa churrascaria, onde as grelhas ficam no centro da mesa e os clientes assam as carnes. A depender do clima, o destino pode mudar. "Em dias de chuva, é tradicional irmos a um bar tomar makkoli (vinho de arroz) e comer panquecas de frutos do mar". Depois, pode rolar boteco com petiscos ou restaurante de sopas.

Karaokê em Seoul: um clássico de fim de noite - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Karaokê em Seoul: um clássico de fim de noite
Imagem: Reprodução/Instagram

Para os sobreviventes, a última parada — e o ponto alto da noite — é em karaokês. "Os bares têm luzes claras e parecem mais restaurantes. No karaokê é onde todo mundo se solta e se torna um verdadeiro cantor".

Uma relação em decadência

A ampliação do debate sobre abusos dentro do ambiente de trabalho e a exposição de casos de assédio moral ao Rh das repartições está alterando o sistema de complacência dos funcionários em relação aos seus superiores em ambos os países.

"Com a internet e a atenção ao discurso da geração Z, as coisas vêm mudando. Uma palavra que resume essa divisão de mares é work-life-balance", diz Lena.

Happy hour - Japão Coreia - Davidf/Getty Images - Davidf/Getty Images
Hábito em transformação de acordo com as gerações
Imagem: Davidf/Getty Images

Pensando nisso, alguns líderes coreanos passaram a fazer os encontros com a equipe na hora do almoço. No Japão, como fatos ocorridos no pós-expediente estão levando à demissão, os chefes, receosos, buscam estabelecer limites claros e acabam confraternizando menos.

Para muitos subordinados, o início dessa mudança de comportamento é positivo. "Gostar ou não desses momentos depende de pessoa para pessoa. Mais do que o estresse de ter que ir à happy hour, o problema era não saber que horas acaba".

Roberto revela que não é fã de nomikai. "Se eu tivesse que participar o tempo todo, seria penoso para mim. É muita gente para lidar ao mesmo tempo".

Dicionário das bebidas

Happy hour - Japão Coreia - Gyro/Getty Images/iStockphoto - Gyro/Getty Images/iStockphoto
Saquê, shochu, awamori e...
Imagem: Gyro/Getty Images/iStockphoto
Happy hour - Japão Coreia - recep-bg/Getty Images - recep-bg/Getty Images
... cerveja!
Imagem: recep-bg/Getty Images

Cerveja não é paixão só dos brasileiros, não. No Japão e na Coreia do Sul, a "gelada" está entre campeãs de pedidos, ao lado de uísque e bebidas tradicionais orientais. Conheça as três principais:

  • Shochu (Japão): fermentado e destilado preparado a partir de arroz e outro ingrediente, como batata-doce, trigo-sarraceno cevada ou açúcar mascavo. Por passar por uma destilação leve, dá para sentir a matéria-prima no paladar. Pode ser consumido puro, com gelo, diluído em água (ressalta os aromas) fria ou em coquetéis. Boa parte da produção é artesanal;
  • Saquê (Japão): bebida fermentada, como o vinho, sempre de arroz e com teor alcoólico que chega a 16%. Ao contrário do que se acredita, é menos popular do que o shochu. É refinada, artesanal e servida geralmente em izakayas (bares japoneses).
  • Soju (Coreia): a matéria-prima varia entre batata-doce, trigo e cevada, mas pouco se sente o sabor do ingrediente pela destilação potente -- o teor alcoólico pode chegar a mais de 50%. As versões industrializadas levam saborizantes de maçã-verde, mirtilo, morango e mais.
  • Awamori (Japão): é produzido em Okinawa, arquipélago no sul do Japão, com arroz tailandês. Passa por fermentação, destilação e tem alto percentual alcóolico.