O que a Bodega Garzón, atual 6ª melhor vinícola do mundo, tem de especial

Ela é uma das melhores vinícolas do mundo para se visitar. Ao menos, é o que dizem as listas. Mais notadamente, o júri de World's Best Vineyards, ranking que coloca a uruguaia Bodega Garzón entre as dez mais desde sua primeira edição, em 2019.

Na lista mais recente, encabeçada pela argentina Catena Zapata e divulgada no ano passado, Garzón está em sexto lugar. Esteve em segundo nas de 2019 e 2020. Para quem se acostumou a rodar a América do Sul e o mundo caçando vinícolas de fazer cair o queixo, nenhuma grande novidade.

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O enoturista brasileiro bem viajado também está careca de saber, mesmo aquele que não dá bola para listas. Dependendo da época do ano, nossa presença chega a bater os 80% entre os visitantes da Garzón. Quem não a conhece —ou teve apenas a chance de provar seus vinhos à distância— faz a pergunta: o que ela tem de tão especial?

Há quatro pontos básicos como resposta: a beleza natural do lugar, a arquitetura elegante que conversa com a paisagem, a estupenda gastronomia capitaneada pelo chef argentino Francis Mallmann e, claro, a qualidade dos vinhos.

Sonhos de riqueza

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Há outras razões subjetivas que levam os turistas até lá. Visitar o imponente projeto do bilionário argentino Alejandro Bulgheroni, o "colecionador de vinícolas" que parece ter começado a fazer vinhos por hobby, é uma delas — o irresistível charme das grandes fortunas grudado no imaginário de muita gente.

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A Garzón está entre os dois principais destinos de luxo do Uruguai, no departamento de Maldonado. De um lado, Punta del Leste, com seus prédios imensos e lustrosos, cassinos, hotéis cinco estrelas e vida noturna sacudida. De outro, a singela praia de José Ignacio, coalhada de mansões, com um charme bem diferente, tipo pé na areia - estilo que parece estar desprovido de ostentação, mas não menos caro de veranear.

Quem vai com a cabeça "luxo e conforto" tem seus desejos atendidos imediatamente ao chegar à Garzón: o lugar é mesmo chique. A construção ampla, moderna e arejada, projetada pelos arquitetos Eliana Bórmida e Mário Yanzón, nos descortina a visão das suaves colinas da propriedade, repletas de vinhas.

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A sede abriga a vinícola, as salas de barricas, o restaurante, um lounge espaçoso e largas varandas para quem quer devanear olhando a paisagem, salas para degustações e eventos, loja e outros ambientes. Alguns secretos, como o clube privado para membros endinheirados escolhidos a dedo por Bulgheroni.

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A reportagem de Nossa visitou o clube escondido, com a promessa de não fazer fotos. Há salas para socializar, jogar, tratar de negócios, ler ou simplesmente relaxar. Uma magnífica cozinha aberta para um salão de refeições serve aos membros que querem levar até lá seus personal chefs. Os sócios do clube também têm adegas particulares para guardar seus vinhos mais raros.

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Cozinha estrelada de Francis Mallmann

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Seja qual for o estilo de visita (veja algumas modalidades no final), é fundamental provar algo que venha da cozinha de Francis Mallmann, chef celebridade, dono de uma dezena de restaurantes e estrela de programas culinários na televisão. Com alguma sorte, você terá a chance de esbarrar com Mallmann por lá, mas quem bate o ponto diário é o chef residente Nicolás Acosta.

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Há dois tipos de cardápio, o Menu Garzón, bastante variado em opções, e o Menu Fuegos, que privilegia os grelhados e algumas das empanadas mais suculentas que se pode provar na vida. Apesar de Mallmann ser famoso pelas carnes, há opções vegetarianas e veganas nas duas cartas. Quem não quer optar pelos menus completos, pode pedir pratos à la carte ou petiscos no bar.

A cozinha funciona em ritmo sazonal e local. Os menus mudam a cada estação, privilegiando o que houver de mais fresco na região, incluindo pescados. Para cada escolha, haverá um vinho indicado pelos sommeliers da casa. Aí mora a história de diversidade da Bodega Garzón.

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Terroir privilegiado

Em meados dos anos 2000, quando Alejandro Bulgheroni decidiu investir em terras na região de Maldonado, não tinha muita certeza do destino que daria à sua nova propriedade. Já havia iniciado a produção de azeite de oliva no pedaço e foi advertido de que a zona também era própria para o cultivo de vinhedos.

Alejandro Bulgheroni
Alejandro Bulgheroni Imagem: Divulgação

Chamou o enólogo italiano Alberto Antonini, consultor de mais de 40 vinícolas pelo mundo, para avaliar o potencial de suas terras. Ouviu a resposta de que, além de se tratar de um terroir bastante propício, ali era possível fazer múltiplas experiências.

O solo de balasto, misto de granito meteorizado e areia, logo detectou o enólogo, funciona como um filtro bastante poroso para a água das chuvas, abundantes na região. As vinhas não ficam "empapadas", o que colabora para a saúde das uvas e evita enfermidades e fungos.

O enólogo italiano Alberto Antonini
O enólogo italiano Alberto Antonini Imagem: Divulgação

A proximidade do oceano e suas brisas constantes resfriam os vinhedos, especialmente à noite, o que costuma se traduzir, no vinho, em maior acidez e frescor. Por fim, os declives do terreno permitem múltiplas exposições das vinhas ao sol, o que interfere na maturação das frutas e aporta características diferentes em cada pedacinho de terra.

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Bulgheroni ordenou que Antonini fizesse todas as experiências que pudesse imediatamente. Alegou que já estava com mais de 60 anos e, portanto, não teria tempo de conferir o resultado de pesquisas e apostas longevas. Queria saborear os resultados.

Outras uvas, novas expressões

Com carta-branca e verba folgada, o enólogo não economizou ideias. Começou com foco na tinta tannat —até aqueles idos, a única uva com que o Uruguai era reconhecido. Mas foi muito além na escolha de cepas que, acreditava, pudessem se desenvolver e render bons vinhos na região.

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A uva branca Alvarinho (ou Albariño), natural da região portuguesa dos Vinhos Verdes e da espanhola Galícia, foi uma das que despontou como nova estrela uruguaia. Seu sucesso na América do Sul, aliado a um eficiente trabalho de marketing por parte da Garzón, atraiu a atenção de outras vinícolas do país e também do Brasil, que passaram a cultivá-la e vinificá-la.

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Hoje a Garzón tem 21 variedades de uvas, todas presentes nos rótulos da vinícola. Germán Bruzzone, enólogo chefe e diretor de produção da casa, destaca tannat, cabernet franc, marselan e Alvarinho como algumas das mais expressivas.

Descobrindo um Uruguai diverso

A Garzón foi uma das responsáveis pelo grande salto de diversidade que o vinho do Uruguai viveu nos últimos anos, processo que segue em andamento. Se antes o país era famoso apenas pela potente tannat, uva introduzida no país no século 19, hoje o conhecedor de vinhos tem outra visão da produção uruguaia, bem mais ampla.

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A propriedade de 2.220 hectares foi obsessivamente escaneada pela equipe de Antonini e Bruzzone, que dividiu a terra em mais de mil microlotes. Cada parcela tem seu potencial estudado e, das mais especiais para cada variedade de uva, saem os melhores vinhos da bodega. O topo da hierarquia são os vinhos Petit Clos, elaborados a partir de parcelas ínfimas, seguida pela linha Single Vineyard, de vinhedos únicos.

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E tem o vinhão. Balasto, nomeado a partir do tipo de solo do lugar, não é produzido todos os anos. Em safras consideradas excepcionais, são feitas assemblages dos melhores vinhos tintos da casa para compor sua receita. Tannat, cabernet franc, petit verdot, merlot e marselan já fizeram parte dos cortes, cuja história começa em 2015.

Bugheroni não parou mais. Tomou gosto pela vida de dono de vinícolas e comprou terras na França, nos Estados Unidos, na Itália, na Argentina, na Austrália. Somam-se à Garzón mais 16 vinícolas de sua propriedade.

O que conhecer e desfrutar na vinícola

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Quem quiser visitar a Garzón no modo "tudo o que tenho direito", pode optar pela Garzón Premium Experience. O pacote inclui visita à vinícola, acompanhada de um especialista, uma degustação de vinhos, almoço harmonizado com rótulos das linhas Reserva e Single Vineyard e um chef exclusivamente dedicado ao grupo.

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Há outras modalidades de passeios, como Tour Garzón Single Vineyard: visita guiada pela adega, com degustação de dois vinhos da linha Reserva durante o percurso, passeio de trator pelos vinhedos e degustação de azeites de Colinas de Garzón. O gran finale traz três vinhos da linha Single Vineyard servidos com queijos, pães produzidos pela equipe de Francis Mallmann, presunto cru, nozes e azeitonas.

Tour Garzón Reserva leva os turistas às bodegas, degustação de quatro vinhos e passeio pelos jardins da propriedade. Viagens de balão e outas aventuras ao ar livre também são programadas, de acordo com as condições do tempo.

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