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Brasileiro vai da Europa à Ásia de carona e gasta só R$ 21 por dia

Guilherme pede carona em estrada no Irã, um dos países mais cordiais que visitou - Arquivo pessoal
Guilherme pede carona em estrada no Irã, um dos países mais cordiais que visitou Imagem: Arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Nossa

01/09/2021 04h00

O programador Guilherme Heimbecker (@campodegelo) é conhecido por amigos e viajantes como "caroneiro". O apelido ganhou força desde que ele começou a viajar o mundo pegando carona e tomando gosto pela modalidade.

A prática começou muitos anos atrás durante sua viagem ao Vietnã. "Eu conheci dois amigos que me contaram que estavam viajando de carona desde a Polônia e queriam chegar na Nova Zelândia. Na época, eu até menti falando que já havia pegado carona", relembra. A partir daí, ele experimentou dias de carona com esses amigos e ficou um mês viajando pelo Camboja e Tailândia.

Como tinha planos de chegar até Mianmar, ele pensou que poderia ir até o país pegando carona com locais.

Eu pensei que conseguiria fazer isso sozinho e fui. Concluí meu estágio com eles", brinca

Guilherme caroneiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Depois de um "estágio" com amigos, ele partiu para as aventuras solo
Imagem: Arquivo pessoal

O gosto por entrar em carros e caminhões de motoristas desconhecidos foi crescendo e, depois de voltar para Alemanha, país em que morava na época, ele começou a fazer esse tipo de deslocamento pelo continente europeu.

Para ajudar no processo, ele usava o aplicativo Hitchwiki, uma plataforma colaborativa, que mostra onde há postos de gasolina, resume experiências de viajantes e contém dicas de pessoas que estão na estrada.

Gulherme - caroneiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O viajante na Polônia, ainda em território europeu
Imagem: Arquivo pessoal
Guilherme caroneiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
E pedindo carona em rodovia na Ucrânia
Imagem: Arquivo pessoal

Da Alemanha à Ásia

Depois de concluir sua graduação na Alemanha, ele resolveu que faria uma nova viagem, só que agora saindo de Berlim e chegando até a Ásia — tudo por meio de caronas.

Eu olhei o nome Berlim e rimou com Pequim. Foi aí que decidi que iria até a China", conta rindo.

O plano era gastar bem pouco: máximo de cinco dólares por dia. Para isso, a hospedagem iria ser sempre em couchsurfing e, por precaução, ele levava uma barraca de camping com ele. "Tinha vezes que gastava até menos. Gastava uns 3,50", conta.

Só que nem sempre organizar uma viagem sai como os planos iniciais. Como existiam algumas áreas proibidas entre as fronteiras, não seria possível chegar até o território chinês usando apenas carros ou caminhões.

Segundo Guilherme, para alguns tipos de trajeto é necessário entender um pouco de geopolítica, justamente para evitar zonas de risco. Como estava no sul da Ucrânia, precisou voltar para alguns países e escolher uma nova rota.

No vídeo abaixo, um passeio pela rota traçada. Em azul, os pontos nos quais ele pegou carona:

O visto também foi um dos problemas durante todo o deslocamento. O programador acreditava que poderia tirá-lo em qualquer país, mas depois soube que o ideal era ter emitido o documento quando estava na Alemanha. "Eu tive que aceitar que não chegaria na China, mas não estava disposto a encerrar minha viagem", diz.

Guilherme caroneiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Guilherme com o motorista que deu carona para ele no Cazaquistão
Imagem: Arquivo pessoal

Foi aí que ele decidiu cruzar a Ásia Central, passando pelo Uzbequistão e Cazaquistão. Os planos foram ainda mais ambiciosos e como não iria conseguir chegar até o país que desejava por meio das caronas, Guilherme comprou uma passagem de avião barata e voou até o Irã.

A gente tem uma visão deturpada do islã. Mas lá eles me deixaram mal acostumado. Nunca vi tanta gente hospitaleira quanto o Irã"

De carona com uma família nas estradas do Irã: "Nunca vi tanta gente hospitaleira" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
De carona com uma família nas estradas do Irã: "Nunca vi tanta gente hospitaleira"
Imagem: Arquivo pessoal
Guilherme caroneiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
E em mais uma experiência de carona no Irã
Imagem: Arquivo pessoal

Histórias curiosas e emocionantes durante as viagens

Quando perguntado quantas caronas já pegou na vida, ele não sabe o número ao certo. Foram 168 e 19 mil quilômetros só na viagem mencionada acima.

Durante todos os trajetos, ele conta que aprende um pouco e sai transformado ao ouvir cada história. "Eu não tenho horário, não tenho que passar na fila de nenhum raio-x. Posso acordar de ressaca e se quiser vou para a estrada. Depende mais de mim mesmo. É uma liberdade".

Ele reforça que mesmo em viagens de ônibus, não é possível extrair tanto das pessoas quanto nas caronas de um local para o outro.

Guilherme caroneiro - Uma - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Uma carona joinha no interior do Cazaquistão: a camiseta do Brasil facilita o contato
Imagem: Arquivo pessoal

Uma vez na Rússia, o viajante percebeu que o motorista estava "pescando" os olhos. Ao avisá-lo, ele se surpreendeu com a reação do homem, que perguntou se Guilherme sabia dirigir um caminhão. "Eu falei que não e quando fui ver estava dirigindo o veículo. Passou dois minutos, ele dormiu", relembra.

No Quirguistão, com a mochila forrada de patches dos lugares pelos quais passou - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
No Quirguistão, com a mochila forrada de patches dos lugares pelos quais passou
Imagem: Arquivo pessoal

Outra vez, durante seu mochilão pela Ásia, ele e seus amigos poloneses estavam em um caminhão na Tailândia. Guilherme estava no banco da frente quando percebeu que o motorista tinha muitas latas de cerveja no veículo e não se importava em beber enquanto dirigia. Foi aí que ele teve a ideia de ingerir toda a bebida com os amigos, evitar que o motorista ficasse embriagado e provocasse um acidente.

Mas foi no Quirguistão que ele teve uma das melhores surpresas durante suas viagens. Ele se hospedou em um couchsurfing em um vilarejo que era bem pequeno e quase não tinha contato com o mundo externo. Uma moradora o convidou para jantar na casa dela e disse que sua avó queria conhecê-lo.

A idosa era deficiente visual, queria tocar o rosto dele e a neta dela disse: "Você é o primeiro estrangeiro que ela conhece". Até hoje, a história o emociona e ele relembra de forma saudosa a estadia no vilarejo.

A senhora deveria ter uns 80 anos e foi o primeiro estrangeiro que ela conheceu pelo toque"

Guilherme carineiro -  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A carona dá a chance de conhecer lugares e pessoas diferentes. Aqui, Guilherme no Irã
Imagem: Arquivo pessoal

Carona não é para todo mundo

Desde o início da viagem, o programador viu que pegar carona não era tão fácil para todos, principalmente para as mulheres. "Não posso vender essa ideia de que a carona é para todo mundo. Eu entendi os privilégios que eu tinha".

Em alguns países, ele chegou a conhecer mulheres que tinham muita vontade de experimentar a modalidade, mas por causa do medo deixavam de fazer. Uma vez ele conheceu uma turista alemã no Irã e ela disse que gostaria de viajar pelo país dessa forma, mas tinha muito receio por estar sozinha. Foi então que ele ofereceu para que os dois viajassem juntos de carona.

Foi aí que comecei a perceber melhor a questão de gênero"

Guilherme e a amiga de Hong Kong que queria viajar de carona no Irã: às vezes, eles tinham que dizer que eram um casal - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Guilherme e a amiga de Hong Kong que queria viajar de carona no Irã: às vezes, eles tinham que dizer que eram um casal
Imagem: Arquivo pessoal

Ainda no mesmo país, ele ofereceu para uma turista de Hong Kong para que os dois viajassem de carona pelo país do Oriente Médio. Em algumas situações, os dois tinham que falar que eram um casal para conseguir viajar. "Era engraçado que a gente inventava uma história diferente para cada pessoa, contando como nos conhecemos", brinca.

Ele também conheceu uma polonesa que veio para o Brasil e começou a viajar pelo país só pegando caronas. Guilherme reforça que não pretende romantizar esse estilo de viagem, mas afirma que é muito possível se locomover desta maneira e que, muitas vezes, a maioria das pessoas que fala que é perigoso nunca experimentaram viajar dessa forma.

O viajante também usa o método para circular pelo Brasil - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O viajante também usa o método para circular pelo Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

O programador conta ainda que é possível conhecer muitas pessoas boas na estrada e viajar de forma segura, inclusive no próprio país.

Ele ainda desmistifica a ideia de que pegar carona é só para pessoas desleixadas. "Você não precisa ostentar que tem recurso, mas não precisa estar com o melhor tênis. Eu tentava me vestir da maneira mais simples, mas não precisa estar de qualquer jeito", conclui.