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Com violão nas costas, brasileiro conhece EUA e Europa como músico de rua

Felipe "Phill" Gorczeski, na Califórnia - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski, na Califórnia
Imagem: Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração para Nossa

27/01/2021 04h00

Música e viagem são duas coisas que combinam perfeitamente. E o brasileiro Felipe "Phill" Gorczeski (@gorczeski), de 29 anos, soube transformar a junção destas prazerosas atividades em um estilo de vida.

Talentoso violonista, ele se tornou um ás do blues ainda na adolescência e, depois de adulto, começou a percorrer lindos lugares do mundo impulsionado pelos seus dotes musicais.

Sua primeira grande viagem foi para a Irlanda em 2013, aos 22 anos.

Juntei dinheiro desde os 15 anos para fazer esta viagem. Queria me envolver com o cenário da música no exterior, em lugares onde há mais facilidade para fazer um som do que no Brasil".

Felipe "Phill" Gorczeski em Dublin - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski em Dublin
Imagem: Arquivo pessoal

Phill chegou a Dublin com visto de estudante, mas seu plano prioritário era outro: começar a tocar nas ruas da cidade para mostrar sua arte e, de quebra, ganhar uns trocados.

O início da empreitada, entretanto, não foi fácil.

"Nos meus primeiros dias em Dublin, levei meu violão para a Grafton Street. Eu estava apreensivo. Parei em um lugar por onde passava muita gente e comecei a tocar. Mas o barulho da área era muito alto e ninguém prestava atenção em mim. Não consegui um euro sequer neste dia".

O brasileiro percebeu que precisaria se postar em locais mais silenciosos, mas onde, ao mesmo tempo, houvesse circulação considerável de pessoas. "Comprei um amplificador e, certo dia, achei um lugar relativamente mais tranquilo para fazer meu som, na região de Temple Bar. As pessoas me escutavam melhor e pararam para me ver".

Empolgado, Phill começou a tocar e cantar para a plateia clássicos de monstros do blues, como Robert Johnson e Muddy Waters, além de canções de autoria própria e releituras de Jimi Hendrix. Dezenas de pessoas se aglomeraram à sua volta para escutá-lo. Euros choveram sobre sua caixa de gorjetas.

Neste dia, ganhei algumas dezenas de euros. E, a partir daí, isso virou minha rotina".

Nas semanas seguintes, outros músicos começaram a ver as performances do brasileiro na rua e a se oferecer para tocar com ele. De repente, Phill estava se apresentando junto com pessoas que tocavam guitarra e gaita, em uma verdadeira banda.

Felipe "Phill" Gorczeski (ao centro) tocando em Dublin - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski (ao centro) tocando em Dublin
Imagem: Arquivo pessoal

E portas se abriram: "fui convidado para tocar em bares de Dublin, com boa estrutura e bom cachê. E, com outros músicos, fiz até turnê pela Irlanda, me apresentando em cidades como Galway. O dinheiro não era enorme, mas era suficiente para pagar minhas contas.

Ao contrário de outros brasileiros que se mudam para a Irlanda, não precisei encarar empregos árduos. A música era meu sustento".

Roubado nos EUA

Depois de um ano em Dublin, o visto de Phill expirou. Após voltar ao Brasil, ele só pensava em reproduzir a ótima experiência irlandesa em algum outro canto do mundo.

E seu destino foi os Estados Unidos, lugar onde ele passou longas temporadas em três ocasiões.

Felipe "Phill" Gorczeski tocando seu violão em bar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski tocando seu violão em bar
Imagem: Arquivo pessoal

"Na primeira viagem, fui para Los Angeles com um visto de estudante e, ao chegar lá, para variar, comecei a caçar locais para tocar na rua", relembra.

Neste primeiro momento, porém, houve uma decepção:

Los Angeles é uma cidade feita para carros, muito impessoal. Tentei fazer shows na Sunset Boulevard, mas ninguém me escutava. E Venice Beach já tem uma cena estabelecida de artistas de rua. Foi difícil me inserir lá".

O brasileiro, entretanto, encontrou melhores cenários em outras cidades da Califórnia, onde ele tocou em parques, eventos de rua e em regiões lendárias, como o distrito de Haight-Ashbury, em San Francisco, polo da cultura hippie nos anos 1960.

Mas foi nos Estados Unidos que ele viveu um dos piores momentos de sua vida.

Phill tinha comprado um carro e, para sua alegria, havia sido chamado para fazer um show em um bar da cidade de Oakland, perto de San Francisco.

Em San Francisco, com o violão que foi roubado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Em San Francisco, com o violão que foi roubado
Imagem: Arquivo pessoal

"Algumas horas antes do show, parei o carro na frente do bar e entrei para falar com o gerente. Fiquei só cinco minutos lá dentro e, quando saí, a janela do carro estava quebrada. Arrombaram o veículo e levaram meu violão. O mundo caiu para mim".

Decepcionado com a perda do seu querido instrumento (que o impediria de fazer o show naquele dia) e com o prejuízo que aquilo acarretava (o violão custava cerca de US$ 600), Phill teve o impulso de ir embora dos Estados Unidos.

"Voltei para o Brasil alguns dias depois do roubo. Estava muito decepcionado".

Retorno aos EUA e turnê

Felipe "Phill" Gorczeski em show na Califórnia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski em show na Califórnia
Imagem: Arquivo pessoal

O brasileiro, entretanto, voltaria aos Estados Unidos alguns meses depois, com outro violão e novamente disposto a combinar sua arte com uma vida de viagens.

Logo de cara, ele fez amizade com um casal de músicos de San Diego cujo nome artístico é Nathan & Jessie.

Eles gostaram do meu jeito de tocar violão e me chamaram para fazer parte de suas apresentações. Embarcamos em uma turnê que percorreu toda a Costa Oeste americana, passando por Portland e indo até Seattle.

Tocávamos em bares, espaços públicos e festas. E a gente se apresentou, inclusive, na Norman's Rare Guitars, uma loja que vende guitarras e violões raríssimos e que é muito famosa na região de Los Angeles".

Ganhando um cachê que o ajudava a se sustentar nos Estados Unidos, Phill também vivia uma situação curiosa: os americanos ficavam surpresos ao saber que ele é um brasileiro especialista em blues.

"O pessoal lá acha que só sabemos tocar bossa nova e samba", conta ele, dizendo, porém, que também aproveitou sua presença no país de B.B. King para mostrar um pouco da música brasileira para os norte-americanos.

"Asa Branca", de Luiz Gonzaga, foi uma das canções que ele ensinou para a dupla Nathan & Jessie. "A gente começou a tocá-la em todos os shows", lembra.

Fuga da polícia em Barcelona

E, mais uma vez, Phill teve que ir embora por causa do fim de seu visto. A vida estradeira, contudo, não acabou naquele momento: em 2019, ele foi para a Europa continental e se estabeleceu em Barcelona.

Felipe "Phill" Gorczeski em bar na Espanha - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe "Phill" Gorczeski em bar na Espanha
Imagem: Arquivo pessoal

Na cidade catalã, criou uma rotina para tocar seu blues em acolhedoras ruas e praças que são um convite para apresentações musicais. E, mais uma vez, euros caíam com generosidade em sua caixa de gorjetas.

Os shows na rua, no entanto, sempre eram acompanhados por uma certa tensão. Isso porque, em Barcelona, é proibido o tipo de apresentações que Phill realiza em vias públicas, que exige permissão das autoridades locais. E ele foi até perseguido pela polícia por lá.

"Certo dia, parei embaixo do Arco do Triunfo e comecei a tocar lá mesmo. Diversas pessoas pararam para me assistir. Mas, lá longe, vi dois policiais vindo na minha direção. Subi no skate que carregava comigo e saí em disparada pelas ruas, com o violão na mão. E os policiais começaram a correr atrás de mim.

Fugi por diversos quarteirões, pois eles não desistiam de me pegar. E eu tinha de medo de que eles confiscassem meu instrumento. Quando consegui despistá-los, perdi o equilíbrio e caí com tudo no meio da rua, em cima do violão, que ficou amassado. Chorei com aquilo".

Depois de Barcelona, Phill ainda realizou uma grande jornada pela Europa, parando em cidades como Amsterdã e Budapeste para, logicamente, exibir sua arte musical nas vias públicas e bares destes locais.

No começo deste ano, ele havia acabado de se mudar para Londres, onde tentaria gravar um disco e se firmar na vibrante cena musical da capital inglesa. A pandemia, porém, interrompeu momentaneamente estes planos.

Hoje, este artista andarilho está com suas metas voltadas para a América do Sul. Seu objetivo é, em breve, passar uma temporada no Uruguai, mostrando para os vizinhos que brasileiros também entendem de blues.