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REPORTAGEM

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Hoje extinta, planta para aborto deu fortuna a cidade da Grécia Antiga

Estátua de figura feminina do período greco-romano em frente a ruínas de Cirene, na Líbia - De Agostini/Getty Images
Estátua de figura feminina do período greco-romano em frente a ruínas de Cirene, na Líbia Imagem: De Agostini/Getty Images
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

03/07/2022 04h00

32º49'N, 21º50'L
Ruínas de Cirene
Shahat, Jabal al Akhdar, Líbia

A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de revogar a garantia ao aborto em nível federal é só mais um acréscimo a uma longa e excruciante lista de tentar controlar úteros ao longo da história. Assim como todas as outras, não vai mudar em nada o fato de que mulheres fazem, sempre fizeram e continuarão a fazer abortos.

O que vai mudar é a segurança médica e jurídica, especialmente das mais vulneráveis. Muito sobre isso tem sido escrito e falado por especialistas nos últimos dias.

Mas o aborto seguirá entre nós, para desespero dos ditos "pró-vida". Da mesma forma que sempre esteve, em qualquer sociedade, em qualquer época.

Ervas e métodos contraceptivos eram conhecidos e difundidos no Egito, na Grécia, em Roma e na Europa Medieval, isso para ficar apenas no Ocidente. Alguns não eram lá tão eficazes, como soluções de água salgada e vinagre (comuns até o início do século 20), espermicidas de óleo de cedro e talismãs de pão-porcino.

Baixo-relevo de 1150 ilustra massagem abortiva em Angkor Wat, no Camboja - Reprodução - Reprodução
Baixo-relevo de 1150 ilustra massagem abortiva em Angkor Wat, no Camboja
Imagem: Reprodução

Já outros funcionavam e eram receitados após observação, experimentação e acúmulo de conhecimento. Eram tradições essencialmente orais, mas que às vezes encontravam espaço para se preservar para a posteridade na segurança dos textos escritos.

Um deles de autoria de Pedro Hispano, um pensador medieval que deixou obras de lógica, farmacologia e outros campos da ciência. Escreveu um manual de medicina popular chamado "O Tesouro do Homem Pobre".

Pedro era também um homem da Igreja. Tão da Igreja que foi deão, arquidiácono, cardeal e, por fim, papa: João 21. Foram apenas oito meses, entre 1276 e 77. O suficiente para torná-lo o único papa português, o único papa médico e o único papa que escreveu um tratado sobre métodos contraceptivos.

Para João 21 - Joseolgon  - Joseolgon
Para João 21
Imagem: Joseolgon

Se algumas leis no mundo contemporâneo restringem o aborto seguro às elites, na Antiguidade não era assim. É um dos argumentos do historiador americano John Riddle no livro "Eve's Herbs: A History of Contraception and Abortion in the West".

Mulheres de diferentes camadas sociais tinham à disposição mecanismos para tentar controlar a gravidez. Isso não quer dizer que a prática era estimulada, pelo contrário. Mas que ela existia, existia.

Textos médicos egípcios listavam abortivos. Na Grécia, Aristóteles defendia o aborto para casais "férteis além do limite". O dramaturgo Aristófanes citou em algumas de suas comédias o poejo, planta medicinal de diversos usos, entre eles a interrupção da gravidez.

Em Roma, mesma coisa. Plínio, o Velho, em "A História Natural", elencou diversas plantas abortivas, o poejo entre elas. O naturalista do século 1º d.C. condenava a prática, mas o poejo seguiu na boca do povo.

Tanto que, 1.900 anos mais tarde, inspirou até o rock. Chá de poejo, em inglês, é "pennyroyal tea", título de uma música do Nirvana.

Seu compositor tinha uma visão mais amigável do aborto do que Plínio. Antes da fama que o atormentou, Kurt Cobain chegou a pichar uma clínica que induzia garotas adolescentes a não abortarem. A esses profissionais da saúde que diziam às jovens que a interrupção da gravidez as levaria ao inferno, Kurt deixou seu recado no muro: "Deus é gay".

A febre da erva

Ruínas de Cirene, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Ruínas de Cirene, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Havia outra planta abortiva na Antiguidade clássica cujo uso era tão disseminado que ela virou o motor da economia de uma importante cidade grega. Era o sílfio.

O sílfio era uma dádiva da natureza. Caule e raiz eram comestíveis, as flores viravam perfumes, a seiva dava um bom tempero e um xarope para tosse que era tiro e queda. Pastores que alimentavam suas ovelhas com essa planta obtinham uma carne mais macia.

A erva tratava mordida de cachorro, hemorroida e era afrodisíaca. Mas, segundo Riddle, o grande chamariz da planta eram suas virtudes de controle reprodutivo.

É uma história ainda cheia de lacunas, porque ela termina de uma forma cada vez mais comum nos tempos atuais. O sílfio foi extinto graças à ganância humana.

As propriedades da planta foram descobertas pelos colonos gregos que fundaram, no século 7º a.C., a cidade de Cirene. Localizada na costa sul do Mediterrâneo, na Líbia moderna, Cirene é, hoje, um imponente sítio arqueológico de ruínas greco-romanas. A situação caótica que o país vive a colocou na lista de patrimônios ameaçados da Unesco.

Cirene, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Cirene, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A Líbia, com um passado rico e um presente arruinado, só perde para a Síria em número de patrimônios da humanidade em perigo. Uma tragédia silenciosa.

Há 2,5 mil anos, a situação era oposta. Cirene era uma próspera cidade, com comércio firme e forte com todas as importantes pólis gregas.

Aqueles que colhiam e vendiam sílfio enriqueceram e comandaram Cirene, segundo os registros de Teofrasto, discípulo de Aristóteles. Arkesilas, rei da cidade, supervisionava pessoalmente a pesagem e o transporte de sílfio.

Essa imagem está registrada em um vaso grego do século 6º a.C. Além disso, a "cara" das moedas de Cirene era o sílfio, o que só evidencia que a planta era a galinha de ouro da economia local.

Moeda de Magas de Cirene, datada de?300?282/75 a.C - Classical Numismatic Group, Inc - Classical Numismatic Group, Inc
Moeda de Magas de Cirene, datada de?300?282/75 a.C
Imagem: Classical Numismatic Group, Inc

Outras moedas mostram uma mulher sentada, com um sílfio aos seus pés. Ela toca a planta com uma mão e com a outra aponta suas partes íntimas. Uma maneira clara e direta para indicar seu uso.

O médico Sorano de Éfeso, no século 2º d.C., receitava uma pequena quantidade, algo como uma colher de chá, de suco de sílfio com água uma vez por mês. "Previne uma concepção e destrói uma existente", afirmou. Sorano, que defendia o aborto em caso de perigo à saúde da mãe, reconhecia que o sílfio era um método mais eficaz do que o uso de pessários, aparelhos elásticos para conter os órgãos pélvicos.

Ptolomais, em Cirene, na Líbia - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Ptolomais, em Cirene, na Líbia
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A planta estava na boca do povo desde bem antes disso. O poeta Catulo, no século 1º a.C., se referia a ela como uma régua definidora do amor livre. Enquanto houvesse sílfio na costa de Cirene, o sexo sem preocupações estava garantido.

Mas uma hora a festa acabou. Cerca de 40 anos depois, estava mais difícil encontrar a planta. Os gregos tentaram domesticá-la e cultivá-la em outros lugares, mas fracassaram.

Só existia sílfio em Cirene, e na forma selvagem. Os colonos deviam colher na época certa e esperar a natureza agir. Mas a ansiedade e a demanda andavam de mãos dadas rumo ao precipício: o agro de Cirene era pop demais, a planta rareou e virou artigo de luxo.

Plínio, o Velho chegou a afirmar que o sílfio estava valendo mais do que seu peso em prata. Aqueles 50 quilômetros de encostas secas de montanhas voltadas para o mar não estavam mais dando conta do desejo das pessoas, e o que eles produziam de sílfio ficava cada vez mais inacessível.

Mosaico de Medusa, em Cirene, na Líbia - EMD/Then and Now Images/Heritage - EMD/Then and Now Images/Heritage
Mosaico de Medusa, em Cirene, na Líbia
Imagem: EMD/Then and Now Images/Heritage

Mesmo o controle rigoroso da extração não deu conta, porque paralelamente a ele a clandestinidade corria solta. No fim da Antiguidade Clássica, por volta do século 5º d.C., o sílfio já era considerado extinto.

Estudos mais recentes indicam que o aumento da desertificação no norte da África pode ter sido a principal causa, e não a colheita excessiva. Isso reaqueceu o debate sobre a suposta primeira extinção provocada pelos humanos.

Quanto a Cirene, ela teve alguns bons séculos sob domínio romano. Mas dois terremotos e a crescente concorrência com cidades como Cartago e Alexandria a detonaram de vez. No século 5º, já estava em ruínas. Cirene e o sílfio morreram juntos.

Alguns historiadores acreditam que a planta ainda pode existir no Mediterrâneo, como uma variação do sílfio que criou fortunas há mais de dois milênios. Se estiverem corretos, significa que o sílfio sempre esteve entre nós, esse tempo todo. Assim como o aborto.

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