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REPORTAGEM

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Como uma igreja "amaldiçoada" foi salva pelos fantasmas que moram nela

Igreja de São Jorge, Luková Manetín, Pilsen, Tchéquia - Reprodução/Instagram@milanriskyfotograf
Igreja de São Jorge, Luková Manetín, Pilsen, Tchéquia Imagem: Reprodução/Instagram@milanriskyfotograf
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

19/06/2022 04h00

50º01'N, 13º09'L
Igreja de São Jorge, Luková
Manetín, Pilsen, Tchéquia

As torres góticas sinistramente enevoadas à meia-luz no frio do outono de Praga, as esculturas de ossos humanos de Kutná Hora. O estranhismo lúgubre da vida e obra de Franz Kafka, a igreja que ostenta um braço mumificado pendurado, sem esquecer dos museus sobre tortura, as agruras dos tempos de comunismo e o monstro nazista Reinhard Heydrich. A Tchéquia é destino certo nos sonhos de qualquer fã de turismo obscuro.

Sim, o país outrora conhecido como República Tcheca é muito, mas muito mais que isso. A gente sabe.

Mas hoje fiquemos no lado obscuro da Tchéquia, e com uma boa notícia. A criatividade humana prevaleceu e a igreja "amaldiçoada" de uma vila praticamente abandonada está prestes a abrir as portas novamente, após décadas de abandono.

Graças aos fantasmas que a transformaram em um estranho ponto turístico, a igreja arrecadou dinheiro suficiente para o restauro. O que era um trabalho de conclusão de curso universitário virou curiosidade internacional — e uma homenagem à história local.

Traumas e abandono

A Igreja de São Jorge (Kostel svatého Jiri, em tcheco) era o centro da comunidade de Luková, vilarejo na cidade de Manetín, próximo à fronteira com a Alemanha. No século 19 tinha uns 500 habitantes — 542 em 1836, para ser exato. Mas que em meados do século 20 contava só com uns 100 habitantes.

A igreja foi fundada em 1352, durante a chamada idade de ouro tcheca. Um incêndio a devastou em 1796, deixando só a alvenaria medieval de pé. Ela foi reconstruída e reformada nas décadas seguintes: o altar foi consagrado em 1862.

Luková - Ludwig Förster  - Ludwig Förster
Luková
Imagem: Ludwig Förster

Frantisek Wonka, clérigo e decano de Manetín, manteve diários sobre a vida na região. Ele conta um pouco do dia a dia em Luková na primeira metade do século 20:

"As pessoas conversavam no bar sobre os afazeres do campo. Mulheres brigavam, homens eram um tanto calados. Os camponeses bebiam aguardente e cerveja de manhã e jogavam cartas à noite. Trabalhavam pesado, nos fins de semana dançavam. Às vezes as danças terminavam em brigas fatais."

"Os alemães da Boêmia estão se afastando dos tchecos. Fundaram o Partido Alemão Antigo e gostariam de se juntar ao Império Alemão e difundir o protestantismo, o que as paróquias católicas condenam."

Luková, como Praga e toda a Boêmia, pertencia ao Império Austro-Húngaro quando a igreja foi reformada e também depois, quando Wonka nasceu, em 1900. Era uma realidade duradoura, que só mudou quando os tchecos tiveram independência em 1918, após a Primeira Guerra.

Vinte anos mais tarde, mais reviravolta. Luková fica em uma região histórica fronteiriça que a gente sempre ouve falar nas aulas sobre a Segunda Guerra: os Sudetos.

Em 1938, os bacanas da Europa (ingleses, franceses, alemães e italianos) mandaram os tchecos entregar os Sudetos a Hitler. Não preciso dizer que a situação ficou ruim para os tchecos da região.

Sete anos depois, com os nazistas devidamente derrotados, agora era a vez de os cidadãos alemães de Luková sofrerem. Foram expulsos, perseguidos e trucidados (falei sobre essa consequência pouco conhecida da Segunda Guerra aqui na coluna mês passado).

Esvaziada e traumatizada, Luková virou uma sombra. O tempo carcomeu a São Jorge, que aos poucos foi abandonada. A pá de cal teria sido o colapso do teto em 1968, durante um funeral.

Os fantasmas se divertem

Nada mudou nas décadas seguintes além da inevitável decadência. As pessoas estavam convencidas de que a igreja era amaldiçoada. Ela foi roubada e vandalizada, deixara de ser um templo e era mais uma carcaça de outras eras.

Então, em 2012, Jakub Hadrava, um aluno da faculdade de artes da Universidade da Boêmia Ocidental, em Plzen (Pilsen), decidiu fazer uma intervenção na igreja. Ele convocou 32 colegas que posaram em diferentes poses no interior do templo em ruínas.

Hadrava os encapou em plástico e criou moldes de gesso. O branco do material e a forma de lençóis dos moldes passava uma mensagem rápida e universal. Fantasmas!

Instalados no interior de uma igreja decrépita, como se estivessem assistindo à missa em algum dia perdido da história, quando a cidade era mais viva e feliz, os fantasmas criaram uma imagem e tanto.

A obra virou notícia em tudo que é site gringo, e a Tchéquia ganhou mais uma atração fantasmagórica, com o diferencial de ficar em uma cidade com ares de abandono, sem tradição turística e com uma baita história por trás. Justamente aquilo que os fãs da tal "experiência autêntica" (seja lá o que isso signifique), gostam de fazer — e de mostrar que fazem, nas redes sociais.

A palavra correu, mais visitantes chegaram, o Ministério da Cultura abraçou a ideia e, entre doações de turistas e patrocínios, a igreja arrecadou dinheiro suficiente para começar a ser reerguida. Teve até um festival de música para angariar fundos.

As reformas já incluíram drenagem do terreno, reforço da estrutura, conserto do teto, do presbitério e da sacristia. Depois vieram o telhado, as janelas, uma nova porta e a fachada.

A última etapa das reformas exteriores está marcada para este ano. Em seguida, o interior será renovado, segundo a imprensa local. O restauro custou, até o momento, 8,3 milhões de coroas tchecas, o equivalente a cerca de R$ 1,8 milhão. Desse valor, 1,5 milhão de coroas tchecas vieram diretamente de doações de visitantes.

Segundo a agência de notícias tcheca CTK, somente umas cinco pessoas vivem hoje em Luková. Hadrava queria que seus fantasmas emulassem os alemães que viviam ali até serem expulsos. Sua obra trouxe as pessoas de volta a Luková: em alguns dias, a igreja já recebeu até 800 visitantes.

Resta saber se, com a reforma, as esculturas manterão seu poder de assombro, já que é o cenário de decrepitude que cria toda a atmosfera horripilante. Caso elas sejam removidas, Luková pode perder seu atrativo turístico, uma vez que a São Jorge será apenas mais uma igreja de interior, bonitinha, mas sem tanta capacidade de atrair visitantes de longe.

Talvez esse seja o destino. A comunidade volta a ter seu templo em bom estado. E os fantasmas poderão descansar em paz.

***

Detalhe importante se você estiver pela área e quiser conferir. A São Jorge só abre aos sábados, de maio a outubro, das 13h às 16h. A cidade fica a cerca de 2 horas de ônibus de Praga. De Pilsen, é apenas uma hora.

Cuidado ao se programar: existe uma outra Luková no país, em Pardubice, a leste da capital. A Luková dos fantasmas fica a oeste.

Há um site com prestação de contas, recheado de fotos, para quem quiser acompanhar as obras.

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