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Ar-condicionado na rua e asfalto azul: como o Qatar lida com o calorão

Ruas azuis de Doha - Facebook/Ministério do Interior do Qatar
Ruas azuis de Doha
Imagem: Facebook/Ministério do Interior do Qatar

Colunista de Nossa

12/06/2022 04h00

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25º17'N, 51º32'L
Rua Abdullah Bin Jassim
Al Jasrah, Doha, Qatar

Em 2010, logo que foi anunciado como sede da Copa de 2022, o Qatar virou debate e polêmica por uma série de razões. A lista de controvérsias é enorme e bem sabida, de escravidão a questões políticas, de transporte a corrupção, passando por direitos humanos e a relação com Israel. Só o tamanho do verbete da Wikipedia a respeito já ajuda a dar uma noção — en.wikipedia.org/wiki/2022_FIFA_World_Cup_controversies

Uma delas tratava do clima. Copa do Mundo é um evento de verão (no Hemisfério Norte). Uma ou outra edição começou em fins de maio, mas a maioria rolou entre junho e julho. Porém, uma vez que a sede escolhida é um país de clima árido tropical do Oriente Médio, o verão é, sabidamente, impraticável para uma série de coisas.

Se as pessoas já evitam andar na rua ao meio-dia, imagine como fica o esporte de alto rendimento. Um evento multibilionário como a Copa poderia ficar seriamente comprometido.

Então, após muito bafafá, em 2015 a Copa 2022 foi adiada para novembro. Será a primeira vez em que uma nação do Hemisfério Norte sediará a festa no outono.

Não que isso vá resolver todos os problemas referentes ao calor, mas certamente dá uma amenizada. Se a temperatura máxima média em Doha é de 42ºC em junho, em novembro ela é de 30ºC. Ufa.

Doha vs. termômetros

Doha, Qatar - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Doha, Qatar
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Nos últimos anos, o pequeno país árabe vem experimentando algumas medidas para mitigar os efeitos diários dos termômetros nas alturas. A mais emblemática delas, ligada diretamente à Copa, é o sistema de resfriamento do ar nos estádios.

Basicamente, é assim: turbinas movidas a energia solar resfriam o ar do entorno da arena. Em seguida, um mecanismo canaliza esse ar para o campo. Ele circula pelo estádio, é sugado de volta, resfriado mais uma vez, filtrado e enviado de novo.

Todos os estádios terão a tecnologia, inclusive o único que existia antes de o Qatar ser escolhido como sede, o Khalifa. Se funcionar para valer, esse ar-condicionado ao ar livre pode virar tendência para competições futuras.

Cada um deles terá algumas particularidades. No belo Al Thumama, por exemplo, o exterior do estádio é todo branco, emulando a touca árabe conhecida como gahfiya. A cor vai refletir mais luz solar e dar uma mãozinha extra na hora de o sistema refrigerar o ar debaixo dos assentos, reciclá-lo e jogá-lo de volta ao estádio, segundo o site "Doha News".

Outras ideias estão mais distantes das arenas. A mais curiosa foi o experimento da rua azul. Em 2019, uma rua nas proximidades do mercado tradicional Souq Wakif, em Doha, foi pintada de azul-claro. Ela foi feita em quatro camadas com microesferas cerâmicas ocas, criadas para absorver o calor, e por fim pintada nessa cor, que esquenta muito menos que o escuro tradicional. As autoridades locais disseram que o projeto-piloto reduziu em até 20ºC a temperatura do asfalto.

A rua azul já voltou à cor "normal" de asfalto, mas reforçou uma curiosa tradição urbanística que parece estar crescendo no país. O Qatar já tinha uma rua vermelha, com bloqueios automatizados para dias de festa, e uma rua roxa, em um parque da capital.

Vista aérea de Doha, capital do Qatar - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista aérea de Doha, capital do Qatar
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Península desértica às margens do tórrido Golfo Pérsico, o Qatar sempre foi um caldeirão. Mas o país tem sofrido mais que outros com o aquecimento global. A temperatura média subiu mais de 2ºC desde o fim do século 19, e a urbanização radical do emirado nas últimas décadas só piorou a situação. Em 2021, uma nova lei entrou em vigor, ampliando o período em que é proibido trabalhar na rua: de 1º de junho a 15 de setembro, das 10h às 15h30, nenhum trabalhador deve se expor ao sol.

Mas, com um dos maiores PIBs per capita do mundo e sentado no petróleo, o Qatar tem o luxo de, como descreveu uma reportagem do "Washington Post", lidar com o aquecimento global não como um problema existencial, mas como uma questão de engenharia. Desde 2019, shoppings abertos, restaurantes, mercados e outros pontos chiques contam com um sistema de ar-condicionado exterior. Você pode ir às compras e tomar um cafezinho ao ar livre sem derreter.

Por mais eficientes e verdes que sejam as tecnologias das arenas, muitos ambientalistas aguardam mais resultados para ver se elas podem mesmo ser uma solução. Ar-condicionado externo movido a energia suja é uma temeridade, porque funciona, para o planeta, tanto quanto um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Só que a energia solar também tem seu lado negativo: a demanda por painéis novos é muito alta, bem como seu custo de reciclagem.

O Qatar está na incômoda situação de ser um dos líderes globais em emissão de gases de efeito estufa por habitante. Um qatari polui, em média, 16 vezes mais que um brasileiro. Com os holofotes do mundo sobre o país este ano, ele tem a oportunidade de realmente buscar soluções. Aguardemos.

Calor na Copa: caso antigo

Preocupação com o clima não é uma novidade na história da Copa do Mundo. Mas as atitudes da Fifa em relação a isso mudaram com o tempo. Veja a inesquecível edição de 1970, que foi realizada em pleno verão mexicano, com jogos ao meio-dia, para satisfazer o fuso horário europeu.

Ainda tinha o agravante da altitude. Para se preparar, os então campeões ingleses passaram uma temporada na Bolívia e na Colômbia antes do Mundial. Caíram nas quartas-de-final diante da Alemanha Ocidental, com o craque do time, Bobby Charlton, no banco, poupado justamente por causa do calor.

Nas oitavas de 1986, de novo no México, enfrentar a Polônia na quente e úmida Guadalajara foi uma mão na roda para o Brasil: 4 a 0. Mas o calor da cidade não ajudou na fase seguinte, quando a seleção perdeu para a França nos pênaltis.

Thomas Dooley, da seleção norte-americana, passa mal com o calor em partida contra a Romênia, na Copa do Mundo de 1994 - Shaun Botterill/ALLSPORT - Shaun Botterill/ALLSPORT
Thomas Dooley, da seleção norte-americana, passa mal com o calor em partida contra a Romênia, na Copa do Mundo de 1994
Imagem: Shaun Botterill/ALLSPORT

Em 1994, além do desinteresse dos americanos por futebol, o calor e a umidade das cidades-sede era uma questão relevante às vésperas da Copa dos Estados Unidos. A Fifa foi criticada por manter os horários pensando no conforto dos telespectadores europeus, não no dos jogadores, argumentando que o sol a pino não afetou as edições de 1970 e 1986 — quase uma explicação apelativa se lembrarmos que essas Copas tiveram Edson e Diego no auge, respectivamente.

As altas temperaturas foram uma preocupação constante, e não só para os atletas. Na vitória da Bélgica sobre Marrocos, em Orlando, cerca de 160 espectadores foram parar na enfermaria por causa do calor, e 12 acabaram no hospital.

Em campo, os europeus achavam que latino-americanos levariam vantagem. O capitão da Itália, Franco Baresi, disse que seus companheiros estavam preparados para sofrer.

Ainda assim, seu time chegou à final. Transpirava galões no verão californiano até que um exausto Roberto Baggio isolou a bola nos pênaltis, adiou o sonho do tetra italiano e fez o Galvão gritar na sua cabeça até hoje.

Em 2014, Manaus roubou a cena ao deslumbrar os estrangeiros — e sufocá-los em seu próprio suor. Na primeira fase, os italianos bateram os ingleses, mas seus jogadores reclamaram. Pirlo disse que o clima era infernal e Marchisio falou que quase teve alucinações. O técnico, Cesare Prandelli, explicou que o problema não era a cidade, que proporcionou uma "recepção ótima", mas a falta de parada técnica.

Pirlo em jogo contra a Inglaterra, em Manaus, na Copa de 2014 - AMA/Corbis via Getty Images - AMA/Corbis via Getty Images
Pirlo em jogo contra a Inglaterra, em Manaus, na Copa de 2014
Imagem: AMA/Corbis via Getty Images

Dias depois, o empate entre Estados Unidos e Portugal na Arena da Amazônia foi o primeiro jogo da história das Copas em que o árbitro precisou fazer uma pausa de descanso. A parada da aguinha se fez necessária em Manaus.

Não foi só nas Copas no Novo Mundo que os gringos sofreram. O verão europeu também teve seus momentos de interferência no esporte.

Em 1982, o bafo quente de junho em Gijón deu uma força para a Argélia desbancar a Alemanha Ocidental em um dos jogos memoráveis da Copa da Espanha. Em 2006, na Alemanha, David Beckham vomitou na linha lateral, sofrendo com a sauna que era Stuttgart naquele dia. Isso não o impediu de marcar contra o Equador e se tornar o primeiro inglês a fazer gol em três Copas diferentes.

David Beckham sofre com o calor na Copa da Alemanha em partida contra o Equador - Getty Images - Getty Images
David Beckham sofre com o calor na Copa da Alemanha em partida contra o Equador
Imagem: Getty Images

Também não é só o calor que já interferiu na história das Copas. O Canadá, que em 2022 fará sua segunda participação, classificou-se pela primeira vez a uma Copa ao bater Honduras nas Eliminatórias, em 1985, em uma partida marcada por frio e chuva.

Dias quentes de verão podem interferir no desempenho de atletas, o que é normal, até certo ponto, em um esporte praticado ao ar livre e com jogadores vindos de todos os cantos do globo. Mas uma Copa no deserto é outra coisa.

Com o aumento de eventos extremos no planeta, a Copa do Qatar simboliza o início de uma preocupante era em que as condições climáticas deixam de ser notas de almanaque para se tornar questões de saúde pública. O fato curioso que marcou o primeiro gol da história das Copas pode se tornar algo corriqueiro e preocupante.

Em 13 de julho de 1930, Lucien Laurent, funcionário de uma fábrica da Peugeot, fez o primeiro gol do primeiro jogo da primeira Copa do Mundo, em uma época em que os atletas eram amadores. A França ganhou do México por 4 a 1.

Neve é algo muito raro no Uruguai. Mas, naquele dia, Montevidéu estava branca.

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