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Em Moscou, estação de metrô celebra a amizade entre russos e ucranianos

Estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images/iStockphoto
Estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

13/03/2022 04h00

55º44'N, 37º34'L
Estação Kiyevskaya
Dorogomilovo, Moscou, Rússia

O metrô de Moscou é um dos maiores e mais extensos do mundo. São 287 estações (mais ou menos o triplo do que o de São Paulo) e mais de 400 quilômetros de extensão, o que faz dele o mais longo sistema metroviário do mundo fora da China (Xangai, Pequim, Guangzou e Chengdu lideram essa lista).

Mas não é por isso que o metrô moscovita é famoso. Ele é conhecido, e reconhecido como ponto turístico, como talvez o metrô mais bonito do planeta.

Há pelo menos uma dúzia de estações que são mais do que uma mera estrutura de transporte urbano, mais do que algo para te ajudar a ir de um lugar a outro. São um destino em si.

Uma delas, especificamente, celebra a longa relação de amizade histórica entre russos e ucranianos. Algo hoje esquecido pelos senhores da guerra, que não costumam andar de metrô.

A estação Kiyevzkaya na verdade são três estações, em linhas diferentes e inauguradas em épocas diferentes do período soviético. Então, elas acabam contando um bocado da história da finada União Soviética.

corredores da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
corredores da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

Na superfície fica o terminal Kiyevsky, que, em tempos de paz e pré-pandêmicos, oferecia trens de Moscou a Kiev. De lá partem também trens para o Aeroporto Internacional Vnukovo.

A primeira das estações de metrô Kiyevskaya foi aberta ao público em 1937, meses após a promulgação da nova Constituição da União Soviética, que marcou o fortalecimento dos bolcheviques e cimentou o poder de Josef Stalin. A estação, feita em homenagem à então República Socialista Soviética da Ucrânia, servia para "simbolizar o poder inviolável do país", segundo um artigo publicado no site russo da Unesco.

A decoração foi inspirada na Roma Antiga, com colunas de mármore claro e capitéis decorados com espigas de trigo e revestimento de cerâmica. O trigo era, e é, tão importante no então "celeiro da URSS", como a Ucrânia era conhecida, que estava até no brasão de armas da república.

A suntuosidade da primeira Kiyevskaya contrasta com a sobriedade da terceira, de 1972. Era a chamada Era da Estagnação, o linha-dura Leonid Bréjnev comandava a URSS, e o realismo socialista, estilo artístico que imperou nas estações da linha circular marrom (onde fica Kievskaya), já não tinha mais vez.

Mas, duas décadas antes, a situação era outra. A segunda Kiyevskaya abriu em 1954 e era uma das mais profundas estações de Moscou, recheada de afrescos narrando a amizade entre russos e ucranianos.

A estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
A estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

Dessa vez, quem liderava o país era Nikita Kruschev, que assumiu após a morte de Stalin, no ano anterior, e resolveu que a capital precisava de mais uma estação em homenagem à Ucrânia. Sua relação com a Ucrânia era intensa.

Kruschev nasceu em uma vila russa próxima à fronteira e viveu parte da juventude em Donetsk. Sim, a cidade que hoje é capital da república separatista reconhecida apenas pela Rússia de Vladimir Putin.

Kruschev foi o líder do partido comunista na Ucrânia durante a Segunda Guerra e comandou a reconstrução do país, completamente devastado na invasão nazista. Cerca de 7 milhões de pessoas, ou um em cada seis habitantes, morreram no conflito. Poucos lugares sofreram tanto o horror da guerra como a Ucrânia.

No mesmo ano em que a segunda Kiyevskaya entrou em funcionamento, Kruschev transferiu a península da Crimeia à Ucrânia. Era uma forma de comemoração aos 300 anos da conquista do leste da atual Ucrânia pelo Império Russo (o oeste ficou sob domínio polonês ainda um bom tempo). Por isso o leste ucraniano é, historicamente, mais pró-Moscou e o oeste, mais pró-Europa Ocidental.

Quanto à transferência da Crimeia, não se deu muita bola ao assunto enquanto Rússia e Ucrânia integravam o mesmo império. Mas virou um problema com a independência, em 1991. E depois virou uma guerra, em 2014, quando Putin anexou a península.

A estação

Interior da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
Interior da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

Um grupo de arquitetos de Kiev liderado por Eugene Katonin projetou a nova estação. Katonin havia feito importantes obras em Moscou e em São Petersburgo (então Leningrado). Artistas russos assinaram os mosaicos.

Kiyevskaya se tornou uma das mais luxuosas estações da cidade. É uma daquelas que "você-pre-ci-sa-ir" quando estiver em Moscou, é o suprassumo da arte política soviética.

"É o realismo socialista do Stalin, então é evidente que é propaganda. Isso nem se escondia, era proclamado", me explicou o historiador Rodrigo Ianhez, que vive na capital há 11 anos e toca o perfil Guia Rússia no Instagram.

É uma visão idealizada, que ressalta os laços entre russos e ucranianos, mas não é a única do tipo. A Belorusskaya homenageia Belarus, por exemplo."

Kiyevskaya tem colunas com capitéis coríntios, revestimentos com mármores de diferentes cores, pisos de granito, lustres, painéis e frisos decorados com estuques de motivos tradicionais ucranianos. O estuque, um enfeite de argamassa para decorar paredes, era típico da arquitetura ucraniana do século 17, segundo a Unesco.

A inauguração ocorreu pouco após a morte de Stalin. Então ela tinha uma quantidade excessiva de homenagens, algo como um quarto de adolescente cheio de pôsteres do mesmo artista. Só que quem colou os pôsteres não foi a menina, mas os pais dela.

Não durou muito. Em 1956, no 20º Congresso do Partido Comunista, Kruschev denunciou o culto à personalidade do finado ditador, então bustos e imagens foram retirados de tudo que é lugar. Na Kiyevskaya, sobrou somente um mosaico de Stalin. Mas as homenagens à Ucrânia continuam lá, e não só ao período soviético. Há uma cena de Kiev e uma menção ao acordo do século 17 que uniu os países pela primeira vez.

Mosaico da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
Mosaico da estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

A mudança mais significativa das últimas décadas ocorreu na Kiyevskaya mais nova, que em 2006 ganhou uma edícula em art nouveau. Foi um presente de arquitetos franceses em homenagem à clássica identidade visual do metrô parisiense, criada por Hector Guimard no começo do século passado.

Edícula em art nouveau na estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
Edícula em art nouveau na estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

Os russos retribuíram. Em 2009, a estação Madeleine, em Paris, ganhou um enorme vitral de Ryaba, a galinha dos ovos de ouro russa. A obra foi assinada pelo artista russo Ivan Lubennikov, morto no ano passado.

Kiyevskaya é um retrato dos tempos soviéticos sobre algo que durou muito mais tempo do que a própria URSS: a relação intensa entre russos e ucranianos. Ainda assim, a estação, pelo menos até o momento, não foi palco de protestos ou qualquer manifestação mais tímida contrária à atual guerra.

"Como as pessoas a usam diariamente [Moscou está, inclusive, entre os metrôs mais movimentados do mundo], elas não costumam se relacionar muito profundamente com as obras de arte", me disse Ianhez.

Não que o povo esteja parado, pelo contrário. Milhares de pessoas já foram presas, em Moscou e em outras cidades, por protestar contra a invasão.

Passageiros na estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia - Getty Images - Getty Images
Passageiros na estação de Kievskaya, em Moscou, na Rússia
Imagem: Getty Images

Enquanto isso, Kiev transformou a estação de metrô Arsenalna, considerada a mais profunda do mundo, 105 metros abaixo da superfície, em um bunker. Moradores se refugiaram nas plataformas e montaram acampamento. A estação tem esse nome por causa de uma fábrica no entorno, uma das mais antigas da Ucrânia, que começou no século 18 produzindo armamentos, justamente, para o Exército Imperial Russo.

É mais um capítulo nessa longa e tumultuada relação.

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