PUBLICIDADE
Topo

Terra à vista!

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Beleza e destruição de Arecibo: a cidade do telescópio arruinado em 2020

Radiotelescópio no observatório de Arecibo, em Porto Rico - Getty Images/iStockphoto
Radiotelescópio no observatório de Arecibo, em Porto Rico Imagem: Getty Images/iStockphoto
Conteúdo exclusivo para assinantes
Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

05/12/2021 04h00

18º, 20'N, 66º, 44'O
Observatório de Arecibo
Esperanza, Arecibo, Porto Rico

Um ano atrás, o mundo assistiu estupefato à destruição do telescópio de Arecibo, em Porto Rico. Mas um desastre assim não vem de uma hora para outra.

Em agosto de 2020, um cabo da formidável estrutura suspensa se rompeu. Em novembro, outro. Estava mais que evidente que seu estado de conservação era uma lástima, então em 19 de novembro a Fundação Nacional da Ciência (NSF, na sigla em inglês) anunciou que o telescópio seria desativado e desmontado.

Não deu tempo. Doze dias depois, em 1º de dezembro, vários cabos arrebentaram e o telescópio foi destruído. Um espetáculo triste e impressionante. Nenhuma imagem dizia com tanta veemência "acaba logo, 2020!".

Arecido, a cidade

Cueva Ventana, em Arecibo, Porto Rico - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Cueva Ventana, em Arecibo, Porto Rico
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Arecibo tem um longo histórico de destruição. Seu nome é uma referência ao cacique Arasibo, chefe da aldeia de Abacoa quando os conquistadores espanhóis chegaram, em 1556. Sessenta anos mais tarde, fundaram a cidade, uma das mais antigas da ilha.

Praia de Arecibo, em Porto Rico - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Praia de Arecibo, em Porto Rico
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em 1702, os espanhóis escorraçaram uma tentativa de invasão britânica. Mas a sorte que Arecibo teve com guerras não se repetiu quando ela enfrentou a fúria da natureza.

A primeira igreja da cidade, erguida em meados do século 16, foi para o chão em um terremoto em 1787, considerado o mais forte a atingir Porto Rico. Arecibo resolveu erguer em seu lugar uma catedral, que só foi concluída em 1846. Quatro dias após sua dedicação (o rito de inauguração do templo), um outro terremoto causou sérios danos ao edifício. O restauro durou 36 anos.

Farol de Arecibo, em Porto Rico - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Farol de Arecibo, em Porto Rico
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Então, em 1918, um violento terremoto, seguido de tsunami, pegou com força a costa norte da ilha. Sobrou para a catedral, de novo. O teto abobadado da nave precisou ser substituído por uma estrutura plana de concreto.

Hoje, a segunda maior catedral de Porto Rico "surge majestosa e imponentemente no meio da cidade e pode ser vista a longas distâncias no vale", segundo Thomas S. Marvel e María Luisa Moreno no livro "Architecture of Parish Churches in Puerto Rico" ("Arquitetura de igrejas paroquiais em Porto Rico", sem edição no Brasil).

Igreja de Aricebo, em Porto Rico - Getty Images - Getty Images
Igreja de Aricebo, em Porto Rico
Imagem: Getty Images

Em 2017, veio o furacão Maria, o mais mortal e um dos mais devastadores do século (mais de 3 mil mortos e US$ 91 bilhões de prejuízo). Em Arecibo, a tormenta atacou por todos os lados, da costa à montanha. Destruiu dois hospitais, deixou 3 mil desabrigados.

O telescópio, apesar de ficar em uma área elevada, teve pouco estrago. "Tivemos pequenos danos somente. Foi muita sorte", disse à época o diretor do observatório ao "El Nuevo Día", o maior jornal de Porto Rico.

Apesar de mínimos, os danos causados pelo Maria cobriram de nuvens o futuro do radiotelescópio. O combalido orçamento do observatório não tinha condições de bancar os consertos e melhorias necessários. Um consórcio surgiu em 2018 para dar respiro às finanças, mas não foi o suficiente. Dois anos depois, cataploft.

O observatório de Arecibo, em Porto Rico - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
O observatório de Arecibo, em Porto Rico
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Um marco da ciência

Inaugurado em 1963, ele era um ícone da engenharia da corrida espacial. Um refletor esférico de 305 metros construído sobre um sumidouro natural em meio à selva, com receptor e transmissores suspensos por cabos 150 metros acima da estrutura, o que constituía o maior telescópio de abertura única do planeta ao longo de décadas, até a inauguração de um maior, na China.

Visualmente impressionante, foi cenário de filmes e séries. O mais especial foi o clímax de "007 Contra Goldeneye" (1995), um bom filme que ficou melhor com o tempo por ter inspirado um dos melhores jogos de videogame da história.

O telescópio não era só um rostinho bonito. Serviu em pesquisas de radioastronomia e em programas de busca por inteligência extraterrestre.

Abel Mendes, diretor do laboratório de habitabilidade planetária da Universidade de Porto Rico, em Arecibo, lembrou à revista digital "Motherboard" alguns dos momentos mais gloriosos do observatório:

"Tínhamos os melhores instrumentos do mundo. Conseguimos os primeiros mapas da superfície de Vênus e a taxa de translação de Mercúrio [59 dias quando até os anos 1960 se achava que eram 88]. Mas isso era esperado, pois tínhamos a capacidade. Aí, muito depois, em 1992, descobrimos os primeiros exoplanetas, o que não foi planejado e foi uma grande conquista. Depois testamos a Teoria Geral da Relatividade, e recebemos o Prêmio Nobel pela primeira detecção indireta de ondas gravitacionais. [em 1993]"

E agora?

O governo de Porto Rico e a comunidade científica anunciaram planos de construção de um novo e muito mais moderno telescópio em Arecibo. Caso ele não saia do papel, a cidade precisará se acostumar ao fato de que, agora, sua maior estrutura é muito mais controversa e, ao menos do ponto de vista científico, uma inutilidade (pois é um monumento).

Em 1991, o escultor georgiano Zurab Tsereteli fez uma obra de 109 metros de altura celebrando os feitos de Cristóvão Colombo chamada "Nascimento do Novo Mundo". Ela é mais de duas vezes mais alta que a estátua de Santa Rita de Cássia, no Rio Grande do Norte, a mais alta do Brasil.

Tsereteli a ofereceu a algumas cidades dos Estados Unidos, como Miami e Nova York e só ouviu "não".

O monumento acabou em Cataño, em Porto Rico, mas não foi posto de pé por causa dos custos astronômicos para desalojar famílias no terreno escolhido e fazer a base. Isso sem contar os potenciais riscos para o tráfego aéreo e a polêmica de se celebrar um personagem como Colombo, hoje cada mais controverso do que em anos passados. Mais uma vez ela ficou de lado, enferrujando.

Tsereteli tentou outras cidades, até conseguir uma casa para sua obra em Arecibo, que pretendia fazer dela a maior atração de um parque temático dedicado à chamada era dos descobrimentos, o que provocou diversos protestos na região. O Maria arrasou boa parte das obras e atrasou o projeto, mas o colosso segue de pé.

Índice de lugares do Terra à Vista

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL