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Cristiano Ronaldo, o aeroporto: pouso assustador na "melhor ilha da Europa"

Pista do Aeroporto da Ilha da Madeira - Getty Images/iStockphoto
Pista do Aeroporto da Ilha da Madeira
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista de Nossa

21/11/2021 04h00

32º41'N, 16º46'O
Aeroporto Internacional Cristiano Ronaldo
Santa Cruz, Madeira, Portugal

Em 2017, Cristiano Ronaldo ganhou manchetes por um motivo bem diferente daquele a que estamos acostumados. Ele recebeu uma honra muito comum a políticos mas não tanto a nomes de destaque de outras áreas, muito menos do esporte (e ainda menos quando se está vivo e em plena atividade). O aeroporto de sua Madeira natal foi rebatizado em sua homenagem. Para tanto, CR7 pousou lá em seu próprio avião, evidentemente.

O aeroporto de Três Corações não se chama Edson Arantes do Nascimento. Maradona é nome de estádio na Argentina, assim como Puskás na Hungria. Beckham batizou camisinha. Jogador de futebol em nome de aeroporto, até onde se saiba, só o mitológico George Best, que batiza o de Belfast. É uma honra para pouquíssimos.

Ainda assim, a notícia incomum acabou eclipsada por algo ainda mais excêntrico, que os sagazes leitores já sabem do que se trata: aquele busto demoníaco, obra que fez pouco caso não só de todas as melhorias estéticas implementadas ao longo dos anos no rosto de CR7 como também de suas feições naturais, que vieram "de fábrica". Um pavor que virou piada e precisou ser trocado.

Um mico, mas nada que se compare à bestial peça dourada de marketing instalada esta semana no centro de São Paulo como homenagem, um tanto subserviente, insensível e patética, ao touro de Wall Street.

O aeroporto

Com ou sem a presença e a aura do robozão, o aeroporto é digno de nota por se tratar de um dos mais apavorantes do planeta. Pilotos precisam fazer um curso específico para poderem trabalhar nele. Passageiros, ao pousar, têm a sensação de que o avião está indo diretamente para a água, tamanha a proximidade da pista com o oceano.

O Aeroporto da Madeira foi inaugurado em 1964. No fim de 1977, em apenas um mês, dois aviões se acidentaram ao pousar, deixando um total de 167 mortos.

Com o crescimento do turismo na ilha, e a fim de evitar mais desastres, ele foi ampliado duas vezes, em 1986 e em 2000. A nova pista, com 2.781 m, capaz de receber aeronaves como Airbus 340 ou Boeing 747, fica parcialmente em uma laje sobre o mar. É de dar arrepios.

Início da pista do aeroporto de Madeira  - Richard Bartz - Richard Bartz
Início da pista do aeroporto de Madeira
Imagem: Richard Bartz

via GIPHY

Em termos de marketing, a mudança de nome foi um golaço (cá estou eu escrevendo sobre o aeroporto anos depois da inauguração do busto). Mas a polêmica não passou batido em Portugal. O governo central em Lisboa não gostou e pediu mais explicações, enquanto o governo da Madeira, uma região autônoma, alegou que o aeroporto é da ilha e que não precisava pedir permissão a ninguém, fora que questionar uma homenagem a um "grande português era falta de educação e uma estupidez".

Entre os madeirenses, houve petições para a revogação do novo nome. Alguns alegavam que se trata de um exagero e que ele já tem homenagens demais no Funchal, a capital do arquipélago. A Praça do Mar passou a se chamar Praça CR7 e abriga um museu dedicado ao craque, além de um hotel (Pestana CR7) e de uma estátua que eterniza sua famosa comemoração de gol. "Daqui a pouco Madeira passa a se chamar Ilha Ronaldo", dizia um signatário da petição.

Batizar aeroportos com o nome de filhos ilustres é uma prática comum e um cartão de visitas poderoso quando se quer apresentar as raízes, o orgulho e a identidade nacional de determinado lugar. Estão aí para comprovar os aeroportos Nikola Tesla (Belgrado), Galileu Galilei (Pisa), Frederic Chopin (Varsóvia), Astor Piazzola (Mar del Plata), W.A. Mozart (Salzburgo), Louis Armstrong (Nova Orleans), Leonardo da Vinci (Roma), José Martí (Havana), Tom Jobim (Rio de Janeiro) ou Jorge Amado (Ilhéus).

Se Cristiano Ronaldo será lembrado daqui a 400 anos, como é Caravaggio (nome do aeroporto de Bérgamo), é outra história. Pode ser, pode não ser, errado só está quem cravar alguma coisa. Mas se os políticos do futuro quiserem cancelar a homenagem, é só mudar o nome. Segue o jogo.

Por ora, a Madeira segue tinindo. Este mês, desbancou concorrentes como Canárias, Sardenha, Malta e Chipre e foi eleita o melhor destino insular da Europa no World Travel Awards. É o oitavo título na categoria (nem mesmo CR7 ganhou tanto: ele foi escolhido melhor jogador da Europa apenas quatro vezes, coitado). Madeira também ganhou seis vezes na categoria de melhor destino insular do mundo. Uma a mais que seu filho ilustre.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL