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Nos mares dos piratas e rebeldes houtis, fenômeno raro deixa a água neon

11º50'N, 51º17'L
Farol Francesco Crispi
Cabo Guardafui, Bari, Somália

Na década passada, eram os piratas somalis. Hoje, são os houtis do Iêmen, que, com seus ataques a navios militares e civis, fazem com que o Golfo de Áden seja um dos lugares mais perigosos do mundo para navegar.

O litoral do Chifre da África pode estar avacalhando a economia global e colocando à prova o castelo de cartas das cadeias de fornecimento. Mas não são só os mísseis dos houtis explodindo petroleiros que trazem uma luz, digamos, diferente a esse mar.

Existe outro fenômeno, infelizmente muito mais raro, porém mais surreal e bem mais bonito (e 100% pacífico), que ocorre, vez ou outra, no litoral da Somália e do Iêmen. Lá, o mar pode ficar fluorescente, algo observado por navegadores há bastante tempo, e que nas últimas décadas a ciência começou a compreender.

Que fenômeno é esse?

Milky Sea
Milky Sea Imagem: Reprodução

Diversas criaturas são capazes de emitir luz, como peixes, lulas, plâncton e algas microscópicas. A bioluminescência marinha é um atrativo turístico famoso nas Maldivas e na Tailândia, e pode ser vista no litoral de um punhado de países, do Brasil ao Japão, de Portugal à Nova Zelândia, da Indonésia aos Estados Unidos.

Então, o que é que o fenômeno na Somália tem de especial? O tamanho.

A água fica translúcida e brilha em tons variados de azul em áreas enormes, equivalentes à de pequenos estados. Às vezes, podem ser vistos do espaço.

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Ao longo do século 20, algumas centenas de navegadores alegaram ter avistado o fenômeno, que é conhecido há bastante tempo. Quem já o atravessou ou o vislumbrou faz descrições inspiradas, como "velejar por um campo de neve imenso".

Em 1870, ninguém menos que Júlio Verne dedicou alguns parágrafos ao "mar de leite" em "20 Mil Léguas Submarinas":

"Por volta das sete da noite, o Náutilus navegou semi-imerso em meio a um mar de leite. O oceano parecia um creme à nossa volta. Seria efeito dos raios lunares? Não, pois a lua, naquela fase, ainda se perdia no horizonte, abaixo dos raios do sol. O céu, embora iluminado pela radiação sideral, parecia escuro pelo contraste com a alvura das águas.

Conselho não acreditava em seus olhos e me interrogou a respeito das causas daquele singular fenômeno. Por sorte, eu estava em condições de lhe responder.

— Isso é conhecido como mar de leite — expliquei —, uma vasta extensão de ondas brancas que vemos frequentemente nas costas de Amboine e aqui nestas paragens.

— Entendo — respondeu Conselho. — Mas o patrão poderia me dizer a causa que produz tal efeito, pois suponho que a água não se transformou em leite!

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— Não, meu rapaz, e essa alvura que o surpreende é mero resultado da presença de miríades de animálculos infusórios, espécie de pequenas larvas luminosas, com um aspecto gelatinoso e incolor, da espessura de um fio de cabelo e cujo comprimento não vai além de um quinto de milímetro. Algumas dessas bestiolas amalgamam-se ao longo de um espaço de várias léguas.

— Várias léguas! — exclamou Conselho.

— Sim, meu rapaz, e não tente calcular o número desses infusórios! Não conseguiria, pois, se não me engano, houve navegadores que singraram mares de leite por mais de quarenta milhas.

Não sei se Conselho levou em conta minha recomendação, mas pareceu mergulhar em reflexões profundas, procurando decerto estimar quantos quintos de milímetro cabem dentro de quarenta milhas quadradas. Quanto a mim, continuei a observar o fenômeno."

O fenômeno visto na beira da praia
O fenômeno visto na beira da praia Imagem: AdobeStock

Não são "larvas luminosas" que criam o mar lácteo, mas um dinoflagelado, uma microalga chamada "Noctiluca scintillans". É algo que a ciência começou a entender melhor em 2005, cem anos após a morte do autor francês.

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Naquele ano, o Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, na Califórnia, cruzou dados colhidos em satélites com depoimentos em primeira mão da tripulação de um navio mercante para detectar o fenômeno. Os cientistas concluiriam depois que o mar fluorescente é resultado da ação dessa microalga.

Quando existe uma quantidade muito grande delas em um espaço pequeno e há alguma agitação na água, a luz se forma. Então, o espetáculo luminoso, efêmero, distante e difícil de ser registrado, tem início.

O lindo espetáculo no mar causado pela microalga
O lindo espetáculo no mar causado pela microalga Imagem: Getty Images

Steven Miller, responsável pela descoberta via satélite, contabilizou outras 12 vezes que o espetáculo aconteceu desde então. A localização dessas ocorrências seguiu os padrões das observações históricas, a olho nu, registradas desde o fim do século 18. A grande maioria fica no Oceano Índico, na costa da Somália.

Teoricamente, o lugar em terra firme mais próximo para ver o acontecimento é o farol Francesco Crispi, erguido nos anos 1920, nos tempos de colonização italiana. Mas, abandonado desde os anos 1950 em uma região inóspita, que faria "Mad Max" parecer um spa, ele não é muito convidativo.

Farol Francesco Crispi
Farol Francesco Crispi Imagem: Wikimedia Commons
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Outra região relevante para as microalgas iluminadas são os mares entre a Austrália e a Indonésia. Aliás, na caprichada edição da Zahar para o clássico de Júlio Verne, uma das muitas e muitas notas de rodapé (quem aí também adora nota de rodapé?) explica que Amboine, citada no trecho acima, se chama atualmente Ambon. É uma ilha nas Molucas, arquipélago que fica, justamente, na Indonésia.

A maior mancha de mar neon flagrada por Miller aconteceu entre 25 de agosto e 7 de setembro de 2019 nas águas ao sul de Java, também na Indonésia. Ela atingiu uma área impressionante: 100 mil quilômetros quadrados.

Visão via satélite do Milky Sea
Visão via satélite do Milky Sea Imagem: Reprodução pnas.org

É como se toda a Coreia do Sul ou o território de Pernambuco inteiro ficassem iluminados assim. Haja microrganismos.

Em uma entrevista à revista de ciências australiana "Cosmos", o biólogo marinho Steven Haddock, que colaborou com a pesquisa de Miller, concorda com seu colega fictício Pierre Aronnax, que, em "20 Mil Léguas…", sugeriu que era melhor não tentar calcular o número desses "infusórios". Mas ele resolveu arriscar.

Para induzir o fenômeno, seriam necessários cerca de 100 milhões de dinoflagelados por mililitro. Em uma conta rápida, assumidamente "de padaria", ele disse que, para algo da magnitude do que aconteceu em Java, estaríamos falando de uma grandeza do tipo 1023, ou seja, 1 seguido de 23 zeros. Explica Haddock:

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É muito difícil de intuir. Mas, só para colocar em contexto, isso é cerca de dez vezes mais do que a quantidade de bactérias estimadas, em média, para as camadas mais superficiais dos oceanos — no mundo todo

Ou seja, é algo pra lá de extraordinário, que ainda precisa trazer mais informações (e respostas). Não deve demorar. Com o auxílio das imagens de satélites, cientistas poderão zarpar de algum ponto da costa do Índico para chegar a tempo e estudar o fenômeno in loco.

Tomara que sem interferências de piratas somalis nem de mísseis houtis.

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